28/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 28/10/2018 00:00 -03

Eleonice Caldas, a professora que alfabetizou operários em canteiros de obras

Professora acredita no método construtivista como forma de educar: “Aproveitar a bagagem que o aluno tem e transformá-la em aprendizado é o que a educação construtivista propõe”, conta à reportagem do HuffPost Brasil.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Eleonice Caldas é a 235ª entrevistada do

Toda a atmosfera de Eleonice Caldas, 50 anos, transmite serenidade. Seu tom de voz é professoral e sua postura é de escuta permanente. Nascida em Salvador, e criada numa periferia soteropolitana – o Largo do Tanque – Eleonice foi muito desejada por seus pais. "Antes de mim, foram quatro abortos voluntários. Eu era um sonho para meus pais", conta em entrevista ao HuffPost Brasil.

Ela é a mais velha entre 18 irmãos, e compreendeu cedo sua missão de vida. "Eu gostava de brincar de escolinha com meus irmãos. Ganhei um quadro negro e giz de meus pais, e aos 9 anos decidi que seria professora. Nunca tive nenhuma dúvida". Sua trajetória na educação é árdua: com 30 anos de carreira, ela começou a dar aulas no ensino fundamental aos 19 anos, após concluir o curso de magistério.

Eu aprendi nos primeiros anos de profissão que a educação exige brilho nos olhos.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Durante entrevista ao HuffPost Brasil, a professora escolheu escrever uma frase que representa a sua carreira.

E ela tem. Sua forma de educar passa impreterivelmente pelo afeto, e as relações que constrói com seus alunos ficam por toda a vida. Homenageada em formaturas, convidada para casamentos e apresentada aos filhos de seus ex-alunos, ela se emociona ao contar as histórias de gente que ela ajudou a formar.

Após concluir o curso de pedagogia, seguiu sua trilha na educação e passou a integrar a equipe do SESI - Serviço Social da Indústria. Tendo suas políticas de educação voltada para a inserção do jovem no mercado de trabalho, a instituição – que é, no fim das contas, as pessoas que a compõem, a exemplo de Eleonice – valoriza a humanização da educação.

Em um dos projetos do SESI, quando engajada na alfabetização de jovens e adultos, ela deu aulas a operários em canteiros de obras, e relata isso com uma emoção que salta aos olhos. "Um dos meus alunos leu uma placa pela primeira vez na minha frente, e me perguntou se era aquilo mesmo que estava escrito. Eu disse que sim e ele me abraçou com gratidão. A expectativa e a necessidade de adultos analfabetos aprenderem a ler e escrever é real."

É por meio da educação que se resolve as coisas.

No curso de pedagogia, ela foi capaz de entender a teoria dos métodos educacionais – a ser professora, mesmo, ela aprendeu na sala de aula. No cotidiano, busca compreender as necessidade pessoais de seus alunos, e parte da premissa de que cada um tem uma história digna de respeito e escuta. Seu apelo para mais valorização do profissional da educação nasce de uma paixão inexorável pelo ofício. "Se hoje eu consigo ter uma visão de mundo, é porque alguém me ensinou. Esse alguém é o professor. Sem professor, não há resultado."

Para Eleonice, a educação é o trinômio conhecer-fazer-conviver: a transmissão de conhecimento é apenas uma parte da relação que se estabelece entre professor e aluno. Para Eleonice, a educação libertadora é aquela capaz de formar sujeitos críticos. "A escola não precisa ser partidária, mas é o lugar da diferença. Não há democracia quando as pessoas não se ouvem."

Aprende-se a ser professor na prática.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Em um dos projetos do SESI, quando engajada na alfabetização de jovens e adultos, ela deu aulas a operários em canteiros de obras.

Por ser entusiasta da educação como uma experiência complexa e de muitas implicações, Eleonice defende a imprescindibilidade da participação da comunidade no processo. Para ela, compreender as necessidades dos alunos exige a atuação conjunta de professores, coordenação acadêmica, família e comunidade. "O professor não trabalha sozinho. Educação é um processo conjunto", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Nathali Macedo

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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