POLÍTICA
28/10/2018 07:48 -03 | Atualizado 28/10/2018 07:49 -03

Digitalização do populismo de Bolsonaro aumentou sua eficácia, diz pesquisadora

Segundo Letícia Cesarino, eleitores tomaram o lugar do candidato na campanha digital.

Ricardo Moraes / Reuters
Jair Bolsonaro (PSL) lidera as intenções de voto.

Jair Bolsonaro (PSL) chega neste domingo (28) de segundo turno à frente das pesquisas de intenção de voto sem ter nenhum dos pré-requisitos que, em eleições anteriores, foram determinantes para a vitória na disputa ao Planalto: alianças partidárias, tempo razoável de TV no primeiro turno, bom desempenho em debates (ele só foi a dois).

Mais do que isso, Bolsonaro esteve ausente das ruas e não fez mais um ato de campanha nos últimos 50 dias, desde que foi esfaqueado em um comício em Juiz de Fora, Minas Gerais, e passou por duas cirurgias.

São muitas as possíveis explicações para a acensão do capitão reformado, mas uma em específico tem chamado a atenção de pesquisadores brasileiros: a rede de apoio pró-Bolsonaro construída no WhatsApp.

Para Letícia Cesarino, professora da Universidade Federal de Santa Catarina e doutora em Antropologia pela Universidade da Califórnia, Bolsonaro inaugurou no Brasil o que classifica como populismo digital.

"A campanha dele é sem precedentes no uso populista das plataformas digitais, em especial o WhatsApp", explicou, em entrevista ao HuffPost Brasil. "Os eleitores tomaram o lugar do Bolsonaro na campanha digital, principalmente depois do atentado que o candidato sofreu."

A especialista aponta a existência de militância orgânica, mas também diz acreditar na ação de "operadores organizados". "Não estou dizendo que são pessoas pagas para produzir conteúdos, mas perfis que se dedicam com muita atenção a essa atividade."

Para a professora, a digitalização do populismo aumentou a sua eficácia porque permitiu que o mecanismo seja replicado por qualquer pessoa que faça parte da rede, enquanto o populismo tradicional dependia quase que exclusivamente do carisma pessoal do líder.

"A digitalização do populismo aumenta muito sua eficácia em comparação com exemplos históricos anteriores, que eram muito dependentes do carisma pessoal do líder, como no caso do Perón, do Getúlio Vargas, até mesmo do Lula", diz.

Cesarino acompanhou durante quase dois meses grupos de WhatsApp em apoio a Bolsonaro. Também analisou como o conteúdo criado no aplicativo de mensagens se relacionava com os discursos desenvolvidos em outras plataformas, como Facebook e Twitter.

Ao HuffPost Brasil, a pesquisadora destrinchou os principais pontos observados durante a campanha.

HuffPost Brasil: Ao analisar as redes de apoio a Jair Bolsonaro no Whatsapp, você considera que o movimento foi algo orgânico de seus apoiadores ou planejado, como uma estratégia de campanha?

Letícia Cesarino: Na antropologia a gente não trabalha com esse grau de binarismo. Entendemos que estamos sempre em algum lugar que é no meio do caminho. Na minha análise, a campanha do Bolsonaro teve algum direcionamento centralizado pelo modo como a 'bolsoesfera' [termo criado por Cesarino] se organiza. Ao observar os padrões dos conteúdos, a gente percebe essa orientação. Por dia, os grupos recebem muito conteúdo para responder demandas em tempo real, seja de críticas ou de fatos novos, e eu acredito que haja operadores organizados nesse plano. Não estou dizendo que são pessoas pagas para produzir conteúdos, mas perfis que se dedicam com muita atenção a essa atividade.

Quais foram as suas análises a partir da observação do conteúdo compartilhado nos grupos?

O que eu procurei evidenciar na minha pesquisa foi a padronização do tipo de discurso e de linguagem que envolve o mecanismo de produção desses conteúdos. Quando você analisa o que é compartilhado nos grupos sob o prisma da teoria clássica do populismo, não é preciso fazer muito trabalho analítico para reconhecer esses padrões. A minha hipótese é que a teoria e o material observado no WhatsApp se encaixam tão bem não somente porque a teoria do populismo é boa, mas porque o próprio material foi moldado por algum tipo de ciência do populismo.

Arquitetura da "bolsoesfera", de acordo com Letícia Casemiro

1. Camada oficial: substitui o tempo reduzido do PSL no horário eleitoral e tem uma mobilização digital muito anterior ao período oficial da campanha.

2. Camada "oficiosa": redes de apoio no WhatsApp com conteúdo compartilhado unilateralmente pelos administradores. Fonte diária de conteúdo novo e resposta imediata aos acontecimentos do mundo on e offline. Uso de chips estrangeiros e zona "cinzenta" entre a campanha espontânea e dirigida.

3. Camada de grandes grupos no WhatsApp: compostos por até 256 membros desconhecidos entre si e divididos por região do País. Compartilhamento significativo de conteúdo fake ou distorcido. Coordenação de ações digitais ou de rua.

4. Camada de grupos pessoais: comunicação 1 a 1; espaços seguros; mobilização de afetos relacionados à campanha.

5. Camada do ecossistema de mídias: o papel diferencial e complementar de cada plataforma; o que você vê no Twitter e no Facebook aparece primeiro no WhatsApp.

Como funcionam esse padrões que orientam a produção do conteúdo pró-Bolsonaro?

Após a análise, a impressão que tenho é que quem produziu o conteúdo seguiu, pelo menos, 4 regrinhas básicas e bastante simples, que qualquer um pode executar.

Em primeiro lugar nós temos a criação de uma fronteira nós x eles; amigos x inimigos. Essa fronteira tem como objetivo criar um antagonismo, uma ideia de que há dois lados opostos e que você não pode estar entre eles. Aqui, funciona muito bem o emprego do que chamamos de "significante vazio", conceito criado pelo cientista político Ernesto Laclau, argentino que estudou o populismo. Esses "significantes" vão assumindo sentidos "temporários" ao definir o que está sendo colocado em jogo.

No início do discurso do Bolsonaro, ele jogava com a oposição bandido x homem do bem. Depois, passou a ser o PT x cidadão de bem. Em meio à campanha, surgiu o TSE x cidadão de bem, com o discurso de ameaça de fraudes nas urnas.

Com a exposição da campanha, acontece o que eu chamo de replicação fractal de todo esse mecanismo, que é quando se aplica essa divisão binária também para outros contextos: mulheres de esquerda x mulheres de direita, LGBTs de direita x LGBTs de esquerda; o professor doutrinador x escola militar que vai trazer ordem para a sua família; a disciplina x indisciplina.

Esse tipo de técnica de discurso é facilmente identificável sobretudo nos memes que circulam. O eleitor é incitado a estar em uma dessas fronteiras. Dado ao conteúdo que é compartilhado, é obvio que o eleitor vai escolher ficar do lado da ordem, da polícia, e não do bandido.

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Meme divulgado entre grupos de WhatsApp pró-Bolsonaro

Em segundo lugar, temos a criação de uma atmosfera de ameaça constante. Nos grupos, todos os dias circulavam conteúdos, principalmente mensagens e áudios, em que o tom do discurso era o do medo. Todos estavam sempre sob ameaça, ou a liderança - o Bolsonaro - ou a comunidade, seus eleitores.

Cheguei a receber áudios em que uma pessoa dizia que era funcionário da Rede Globo, mas que não poderia se identificar para não sofrer represálias. Ele dizia que dentro da emissora os profissionais eram orientados a falar mal do Bolsonaro porque a Globo está quebrada e eles estão vivendo de financiamento do BNDES.

É impressionante, porque o BNDES se tornou um agregador, um "significante vazio" que aparece em vários discursos. O áudio dizia para as pessoas desligarem a televisão e terem cuidado com a mídia tradicional. Esse discurso conseguiu inverter de um modo que o jornalismo se tornou a fake news e o WhatsApp se tornou o espaço de liberdade de discurso.

Nos grupos, os debates batem muito nessa tecla da liberdade, e é uma narrativa preventiva porque mobiliza as pessoas a se colocarem contra qualquer tipo de regulação dessas plataformas. O espaço de liberdade de verdade seria o WhatsApp e qualquer coisa fora disso estaria sendo controlada por algum tipo de agente maior, que atua nos bastidores.

Outro ponto importante foi lacrar a ameaça à venezuelização do Brasil ao plano do PT. A própria fraude nas urnas também é um movimento de mobilização constante na criação dessa atmosfera de ameaça. Colocar o TSE nesse lugar é conveniente porque é um discurso de ameaça que eles conseguem segurar até o fim das eleições. Isso tudo em um espaço de 10 dias, mais ou menos. E é aí que você percebe como é uma técnica extremamente flexível.

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Meme reproduzido em grupos de WhatsApp

O terceiro ponto é criar uma continuidade entre a liderança e o povo. O fato do povo, que é o eleitorado, ter tomado o lugar do Bolsonaro na campanha digitalmente é um tipo de eficácia sem precedentes, algo que não existe nem no populismo clássico.

O quarto ponto é central e é um pré-requisito para que os outros existam: o deslocamento das formas autorizadas e tradicionais de se produzir conhecimento e informação. A mídia tradicional passa a ser substituída por essa estrutura de redes que é criada. Ou seja: desliga a televisão e vai ver a live do Bolsonaro no Facebook.

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O jornalismo tradicional passa a ser o fake, o inimigo, ou aquele que se promove na "mamata" do Estado. Os artistas e intelectuais, que eram formadores de opinião, como foi Hollywood no caso do Trump, também passam a ser atacados por meio das crítica à Lei Rouanet. As universidades, a academia e os especialistas não são ouvidos.

Por fim, existe também o conteúdo bem frequente de neutralização de críticas, normalmente baseado na inversão de acusações ("jogar o feitiço contra o feiticeiro"), que poderia ser colocado como uma quinta regra.

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E o grande resultado disso tudo é que não se debatem os conteúdos, os planos de governo, os projeto de País.

O que diferencia o populismo em meios digitais do populismo clássico?

O populismo digital é diferente do populismo clássico justamente por isso, porque permite que o mecanismo seja replicado por qualquer pessoa que faça parte da rede. E a pessoa não precisa necessariamente ser treinada para isso. É um mecanismo que intuitivamente você absorve no momento em que você convive com aquela bolha.

É espontâneo? É, porque ninguém está obrigando a pessoa compartilhar os conteúdos. Mas surge da cabeça daquelas pessoas? Não. Vem de um certo padrão que a pessoa está imersa muito antes da campanha oficial começar, no caso específico do Bolsonaro.

Essas redes estavam se estruturando há muito tempo. E a eficácia da técnica está justamente em sua simplicidade. Por isso que não há nenhuma contradição no fato do Bolsonaro não ser super "sofisticado" nessas estratégias e na organização. Como é algo que beira ao "grosseiro", os próprios eleitores podem reproduzir.

Os eleitores tomaram o lugar do Bolsonaro na campanha digital, principalmente depois do atentado que o candidato sofreu. Na bolha, o tipo de conteúdo que circulava era: "Nosso capitão está de atestado, quem tem que fazer a campanha somos nós."

Mais recentemente, a questão da participação nos debates também foi mobilizada. E aí você tem vários conteúdos do tipo: Bolsonaro não pode sair de casa, porque tem uma conspiração para assassiná-lo.

No fim das contas, o ponto é que a digitalização do populismo aumenta muito sua eficácia em comparação com exemplos históricos anteriores, que eram muito dependentes do carisma pessoal do líder, como no caso do Perón, do Getúlio Vargas, até mesmo do Lula.

O que a gente nota é que o Bolsonaro dependeu apenas parcialmente do seu carisma pessoal. Tanto o carisma quanto os outros aspectos do mecanismo foram distribuídos pela 'bolsoesfera', até a escala mais capilar do eleitor comum que tem acesso a um smartphone.

As 4 regras do populismo que orientam a produção de conteúdo de redes pró-Bolsonaro

1. Criar uma divisão binária exclusiva entre amigo x inimigo, nós x eles;

2. Produzir um "nós", uma continuidade entre liderança carismática e "povo";

3. Produzir uma atmosfera de ameaça constante ligada ao inimigo (manter a mobilização);

4. Deslegitimar e deslocar mídias e outras formas tradicionais de informação autorizada (que passam a ser vistas como inimigo e ameaça), como o jornalismo, os especialistas e os artistas.

Esses padrões de comunicação serão continuados pós-eleição?

Eu gostaria de saber o que vai acontecer com essa 'bolsoesfera' quando ele tomar posse, se eleito. Porque foi uma mobilização muito rápida, muito artificializada pelo digital. E há a necessidade de ameaça constante para manter essa mobilização. Sem isso, a rede vai se desfazer. Até quando será possível manter isso? Para uma eleição é fácil, a narrativa vira uma partida de futebol, já que todos têm o objetivo de vencer. Mas eu não acho que esses eleitores vão continuar mobilizados durante os 4 anos. Ou será que a rede bolsonarista vai criar novas ameaças durante os 4 anos? Será um governo instável dessa medida? O WhatsApp está no cotidiano das pessoas e vai continuar. Mas a mobilização política deve chegar a um momento de exaustão.

É espontâneo? É, porque ninguém está obrigando a pessoa compartilhar os conteúdos. Mas surgem da cabeça daquelas pessoas? Não. Vem de um certo padrão que a pessoa está imersa muito antes da campanha oficial começar, no caso específico do Bolsonaro.

Por que o WhatsApp se tornou um terreno tão fértil para esse tipo de discurso?

Em geral, as pessoas são céticas e é preciso dialogar com isso. Nos próprios grupos da 'bolsoesfera' no WhatsApp, as pessoas colocavam em dúvida o que era compartilhado. As pessoas questionavam se era verdade, mas logo em seguida vinha a narrativa de que, 'vindo do PT, pode-se esperar de tudo'.

A grande questão do WhatsApp é que é um conteúdo que circula e não se expõe ao contraditório. Então é preciso furar essas bolhas. As pessoas estão em bolhas digitais construídas propositalmente e a pior coisa que a gente faz é afastar essas bolhas.

Nas outras redes, como o Facebook, em que há a possibilidade de exposição ao contraditório, os apoiadores replicam esses conteúdos originários do WhatsApp como espécie de "argumento".

No fim das contas, acho que foi um experimento, no sentido de como essa plataforma poderia ser aproveitada, e que não se esperava esse nível de eficácia. As próprias instituições foram surpreendidas com isso.