POLÍTICA
26/10/2018 05:17 -03 | Atualizado 26/10/2018 10:40 -03

Rio Grande do Norte é único estado que pode eleger uma mulher governadora em 2018

Para cientista político, eventual vitória de Fátima Bezerra (PT) coloca poder das famílias Alves e Maia em xeque.

Montagem/Agência Senado/PDT
“Pela primeira vez no estado uma pessoa de origem popular, no caso dela, pode ser eleita diretamente governadora

Única mulher com chances de se tornar governadora nas eleições deste ano, Fátima Bezerra(PT) chega à reta final da campanha no Rio Grande do Norte 8 pontos percentuais à frente do opositor Carlos Eduardo Alves (PDT).

Uma eventual vitória da petista, além de torná-la a única representante feminina à frente dos Estados a partir de 2019, pode sinalizar também um enfraquecimento das oligarquias no Rio Grande do Norte. A avaliação é do cientista político da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) Homero Costa.

"Pela primeira vez no estado uma pessoa de origem popular, no caso dela, pode ser eleita diretamente governadora. Não é o caso de Carlos Eduardo, que vem de uma família tradicional na política", afirmou Costa ao HuffPost Brasil.

Apesar de Bezerra ter liderado as intenções de voto ao longo de toda a campanha, a diferença para Alves é pequena. Pesquisa Ibope divulgada em 17 de outubro mostra a petista com 54% dos votos válidos, contra 46% do adversário.

No primeiro turno, Bezerra conquistou 46,17% dos votos válidos e Alves, 32,45%. O atual governador, Robinson Faria (PSD), ficou em terceiro lugar, com 11,85%.

Senadora pelo Rio Grande do Norte desde 2014, Fátima Bezerra é professora e sindicalista. Entrou para a política em 1994, eleita deputada estadual. Foi reeleita uma vez e cumpriu também três mandatos na Câmara Federal. Na disputa pelo Executivo, a coligação formada por PT, PHS e PCdoB garantiu 1 minuto e 30 segundos de programa gratuito na televisão e no rádio.

Alves, do outro lado, teve 2 minutos e 35 segundos de propaganda eleitoral, garantidos pela coligação do PDT com PP, MDB, Podemos e DEM. O candidato foi prefeito de Natal por 4 vezes e deixou o cargo em abril. Ele começou a vida política em 1986, eleito como deputado estadual, cargo que também ocupou por 4 mandatos consecutivos.

Famílias Alves e Maia no Rio Grande do Norte

Embora oficialmente não tenha apoio de caciques de sua família, o candidato do PDT é primo do senador Garibaldi Alves Filho (MDB-RJ) e de Henrique Eduardo Alves (MDB), ex-ministro do Turismo e ex-presidente da Câmara dos Deputados.

Apesar de não ter participado oficialmente da campanha, o ex-parlamentar atuou nos bastidores, segundo Costa. "Ele não aparece publicamente. A rejeição a ele é muito grande. Se aparecesse, ficaria esse vínculo muito evidente. Mas houve uma clara articulação dessas oligarquias Alves e Maia com o PDT", afirmou o cientista político.

Questionado pela reportagem, o candidato do PDT negou apoio do primo. "Henrique não participa da campanha. Fake news. Não me sustento em sobrenomes. Fátima foi mais tempo aliada do MDB do que eu", afirmou por escrito, por meio de sua assessoria de imprensa. A assessoria disse ainda que o emedebista apoiou Bezerra em 2008 e foi adversário de Alves nas disputas entre 2000 e 2010.

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Ex-ministro Henrique Eduardo Alves foi preso preventivamente em junho de 2017, na Operação Manus, um desdobramento da Lava Jato.

A queda na popularidade de Henrique Eduardo Alves se deve ao envolvimento em escândalos de corrupção. Ele foi preso preventivamente em junho de 2017, na Operação Manus, um desdobramento da Lava Jato que investiga recebimento de propina, corrupção e lavagem de dinheiro por meio de recursos usados para a construção da Arena das Dunas, em Natal. O ex-ministro agora responde em liberdade.

Henrique Eduardo Alves deixou o governo de Michel Temer em junho de 2016, após ser citado no acordo de delação premiada do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado como beneficiário de propina. De acordo com o depoimento, o emedebista teria recebido R$ 1,55 milhão entre 2008 e 2014.

O ex-presidente da Câmara também foi condenado em primeira instância, em junho deste ano, a 8 anos e 8 meses de prisão e multa de R$ 1 milhão por lavagem de dinheiro em esquema de cobrança de propina de empresários em troca de contratos com a Caixa Econômica Federal.

A família Alves disputa com os Maia o domínio da cena política potiguar há décadas. O pai de Henrique, Aluízio Alves, governou o estado de 1961 a 1966. O ex-ministro é ainda um dos proprietários do Sistema Cabugi de Comunicação, do qual fazem parte veículos como a InterTV Cabugi, afiliada da Rede Globo no Rio Grande do Norte, a Rádio Globo Natal, a Rádio Difusora de Mossoró e o jornal Tribuna do Norte.

CARLOS BECERRA via Getty Images
Senador Agripino Maia (DEM-RN) não conseguiu se reeleger em 2018.

No outro clã familiar, um dos atuais expoentes é o senador José Agripino Maia (DEM-RN), governador entre 1983 e 1986 e de 1991 a 1994. O ex-presidente do DEM é também filho de Tarcísio Maia, que comandou o Executivo local entre 1975 e 1979. Assim como no caso dos Alves, o poder vai além da política. O senador é também proprietário da TV Tropical, afiliada da Record.

Apesar do predomínio regional, ambos sofreram derrotas na disputa pelo Legislativo neste ano. Agripino Maia não conseguiu se eleger como titular para deputado federal e será suplente. Garibaldi, por sua vez, não conquistou a reeleição. Seu filho Walter Alves (MDB-RN) ficou em 7º lugar para deputado federal, garantindo uma vaga. O desempenho, contudo, foi pior do que em 2014, quando foi campeão de votos para o cargo.

Na avaliação de Costa, uma eventual vitória petista para o governo do estado enfraqueceria ainda mais as oligarquias locais. "Com as novas configurações e se Fátima Bezerra ganhar, esse poder das famílias Alves e Maia está muito diminuído", diz. Ele ressalta, contudo, que o poder das famílias ainda perdura devido a indicações em órgãos como o Tribunal de Contas do Rio Grande do Norte.

Questionada pela reportagem sobre o impacto de uma eventual vitória, Bezerra respondeu que aliados de seu opositor "há mais de 70 anos usufruem do poder para atender a interesses de poucos" e disse que seu governo representaria uma mudança e uma construção "com as forças populares".

"Em todo o Nordeste, os eleitores disseram não aos candidatos que representam os interesses de meia dúzia de famílias e que nunca governaram para todos", completou, em resposta enviada por escrito, por meio de sua assessoria.

Mulheres na política no Rio Grande do Norte

Em 2010, o Rio Grande do Norte também foi o único estado, junto com o Maranhão, em que uma candidatura feminina teve vitória nas urnas no Executivo. Na época, foi eleita Rosalba Ciarlini, então filiada ao DEM.

Antonio Cruz/Agência Brasil
Rosalba Ciarlini, ex-governadora do Rio Grande do Norte

Para Costa, essa é uma questão circunstancial. "Embora no Rio Grande do Norte, assim como no Brasil, a maioria do eleitorado seja de mulheres, a representação não expressa esse número", afirmou.

Neste ano, o estado elegeu para o Senado Zenaide Maia (PHS). O irmão da deputada federal João Maia (PR) foi candidato a vice-governador na chapa de Henrique Eduardo Alves em 2014. Para a Câmara dos Deputados, a bancada terá uma mulher entre os 8 eleitos. Quanto a deputados estaduais, a representatividade feminina será de 3 entre os 24 eleitos.

Questionada pelo HuffPost Brasil sobre propostas para mulheres, Bezerra citou como medidas a serem implementadas "colocar para funcionar com efetividade a Patrulha Maria da Penha, para proteção às mulheres vítimas de violência ou ameaçadas", abertura de uma casa abrigo para atender as mulheres vítimas de violência e fortalecer a Defensoria Pública.

A candidata também prometeu aumentar o número de creches, facilitar o acesso das mulheres empreendedoras ao crédito, além de "dar atenção integral à saúde da mulher, ampliar a rede de atendimento para vítimas de violência, oferecer exames e consultas com especialistas na nova rede de policlínicas, reforçar assistência em planejamento reprodutivo" e a rede de pré-natal e maternidades.

Segurança e antipetismo na campanha

No estado considerado o mais violento do País em 2017, segundo o 12º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a segurança foi um dos principais temas da campanha. A petista prometeu medidas como valorização dos policiais, melhoria da inteligência e investimento em câmeras de monitoramento.

Alves, por outro lado, defendeu reajuste salarial na área, criação de comandos regionais das Polícias Civil e Militar e construção de vilas militares para famílias dos policiais, dentre outras propostas.

Ambas as campanhas exploraram falhas do atual governador, que se elegeu com a bandeira de combate à violência, mas chegou ao fim do mandato desgastado.

Em janeiro de 2017, o Rio Grande do Norte foi palco de um massacre no presídio de Alcaçuz, que deixou 26 mortos em um conflito entre facções. No fim do ano passado, também teve início uma greve de policiais. O estado registrou 2.405 homicídios em 2017, um recorde histórico. O número é 20,5% maior do que no ano anterior, segundo dados do Observatório da Violência Letal Intencional.

De olho no duro discurso de combate ao crime de Jair Bolsonaro, candidato do PSL à Presidência da República, Alves declarou apoio ao candidato no segundo turno, contrariando orientação do próprio partido. O PDT, que no primeiro turno concorreu com Ciro Gomes, declarou apoio crítico a Fernando Haddad (PT) na disputa final.

A decisão de Alves também busca alavancar votos do antipetismo. Em Natal, capital potiguar, Bolsonaro teve 44,42% dos votos válidos, à frente de Ciro (23,81%) e Haddad (22, 81%). No estado, contudo, o petista venceu.

Na campanha, o pedetista fez duras críticas ao PT e associou sua adversária aos escândalos de corrupção envolvendo o partido. A senadora foi também citada na delação da JBS. Segundo as acusações, a parlamentar teria recebido R$ 1,165 milhão da empresa para campanha de 2014. A petista afirmou que as doações foram legais e feitas ao partido e não diretamente para ela. "Nunca mantive contato com essas empresas", disse em entrevista em setembro à Inter TV Cabugi, afiliada da Globo no estado.

Quanto às acusações ligadas a suas alianças, a campanha do PDT também lembrou que Bezerra apoiou Alves nas eleições para prefeitura de Natal.