POLÍTICA
27/10/2018 02:41 -03 | Atualizado 27/10/2018 02:41 -03

Quem são os eleitores de Fernando Haddad e o que querem para o Brasil

Grupo se divide entre petistas ainda convictos, apoiadores decepcionados e até antipetistas que rejeitam Bolsonaro.

FERNANDO SOUZA via Getty Images
Manifestante pró-Haddad participa de ato nos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro.

Jovens, mulheres e eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos e ensino fundamental completo. Estas são as parcelas do eleitorado em que Fernando Haddad (PT), candidato à Presidência da República, tem melhor desempenho, segundo o Datafolha. As nuances neste público, no entanto, são mais complexas do que as pesquisas, em geral, conseguem captar.

Entre os que marcarão o 13 nas urnas neste domingo, estão petistas e lulistas, assim como progressistas e ativistas de direitos humanos - que não necessariamente fazem parte dos dois primeiros grupos.

No entanto, existe ainda um grupo que só se explica pela alta rejeição à outra opção. São os antipetistas, que criticam o partido envolvido em casos de corrupção, mas dizem não ter alternativa: votarão no candidato do PT por não suportarem a figura e os ideais de Jair Bolsonaro (PSL).

Há ainda um grupo que diz temer um eminente risco à democracia, principalmente para as minorias, como negros, LGBTs, mulheres e indígenas, com a vitória do candidato do PSL.

"O que caracteriza esses segmentos é, digamos assim, uma decisão por votar não porque está escolhendo o Haddad, mas porque não quer Jair Bolsonaro, para evitar aquilo que eles [eleitores] consideram o pior caminho", explica o professor da FGV e cientista político, Marco Antônio Teixeira.

Na última pesquisa de intenção de votos do Datafolha, divulgada na noite de quinta-feira (25), Bolsonaro tinha 56% dos votos válidos, enquanto Haddad aparecia com 44%. No levantamento feito entre 17 e 18 de outubro, a diferença era de 59% a 41%.

A queda na diferença entre os candidatos devolveu ânimo a parte dos eleitores de Haddad, que, às vésperas das eleições, apostavam na "hora da virada". Apesar de as estatísticas jogarem contra o candidato, seus eleitores dizem confiar que o perfil moderado e intelectual do "professor", classificado por muitos como o "menos petista dos petistas", possa reverter votos e fisgar os indecisos -- que somaram 6% na última sondagem do Datafolha.

O HuffPost Brasil entrevistou André, Jana e Jaqueline: brasileiros com histórias de vidas distintas, mas que escolheram votar em Fernando Haddad, seja pela identificação com o candidato, seja pela rejeição ao outro lado.

Janaína Helena De Oliveira, 36 anos, Campo Grande (MS)

"Já me identifiquei, mas me frustrei muito com o Lula. O Lula foi amado pelo povo brasileiro e nos traiu", conta a assistente comercial Janaína Oliveira, 36 anos, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

Ela faz parte do grupo de eleitores que se decepcionaram com o PT e o ex-presidente (hoje preso em Curitiba por corrupção e lavagem de dinheiro), mas decidiu votar em Haddad porque concorda com o enfoque em políticas sociais e, principalmente, porque teme o "risco Bolsonaro". "A liberdade do meu País vale muito, e corrupção a gente combate".

Aluna de um um curso de Administração pelo PROUNI -programa que concede bolsas para alunos de baixa renda em universidades privadas-, ela elogia os programas sociais criados na era Lula. "O Bolsa Família tirou muita gente da extrema miséria, mas não podemos concordar com o que aconteceu", ressalta Janaína, sobre as denúncias de corrupção dos membros do partido.

Para a campo-grandense, o Brasil está em um momento de transformação, no qual o cidadão está "aprendendo a lutar e a soltar a voz em busca dos direitos", mesmo que esteja lutando pelo "lado errado". Sobre o oponente de Haddad, ela diz que ele não a representa "em nada".

"Não gosto desse cara, não gosto do que ele fala, não gosto das ações do filho dele, nem o sorriso dele é sincero. O Brasil, infelizmente, já tem muitas mazelas, não precisamos de mais essa em forma de presidente", disse.

Uma vitória de Haddad não representa o cenário ideal para o próximo ano, para Janaína. Ela reconhece que um governo petista não seria fácil, mas ela diz esperar que ele lute pelos "direitos do povo".

Que ele cumpra com a palavra de mais empregos, talvez o retorno das obras civis seja um bom começo, e um maior investimento na área da educação. Espero também que ele revogue a reforma trabalhista como tem falado. E o mais importante de tudo: que ele não seja corrupto e que combata a corrupção.

André Bernardi, 28 anos, paulista

Morador de São Paulo, André Bernardi, 28 anos, votou em Marina (Rede) no primeiro turno. Crítico ferrenho do PT, neste 2° turno ele diz se ver sem escolhas: "votar no Haddad agora é uma escolha indigesta", resume o designer.

HuffPost Brasil
'Votar no Haddad agora é uma escolha indigesta', diz André Bernardi.

"A gente sabe que ele é uma figura manipulada do próprio PT. Força uma narrativa vencida, de que é todo mundo contra quem mais fez pelo país, e que isso havia encarcerado o Presidente Lula e 'impeachmado' a Presidente Dilma. Isso não cola", afirma.

"Se o PT pensasse no País de verdade, teria renunciado à candidatura este ano - entrando em outra chapa ou não se apoiando na popularidade lulista. Mas é o que temos: foi o próprio PT que criou o fenômeno antipetista e foi essa insistência que colocou o Bolsonaro à frente das pesquisas. O cidadão médio tá cansado de ser enganado e manipulado pelo projeto de poder petista."

Segundo Bernardi, esta eleição entre dois extremos deixou de ser "sobre o melhor para o País" e virou "um projeto de poder versus uma promessa de extermínio de minorias", em referência às inúmeras falas de Bolsonaro contra gays, travestis, mulheres, negros e demais minorias.

Como deputado federal, Bolsonaro já chegou a dizer em entrevistas que "ter filho gay é falta de porrada". Também já disse que não empregaria mulher com o mesmo salário pago a um homem e que seus filhos nunca namorariam uma mulher negra porque "foram bem educados".

"Nesse cenário eu adoto sem pestanejar a postura humanista que me levou a votar na Marina no 1º", explica o designer. "Qualquer coisa que promete ferir os direitos humanos é uma afronta a meu senso de justiça política, e, sob essa ótica, qualquer megalomania petista mingua. Ou seja: não preciso nem ler a proposta do Haddad pra escolher ele."

No entanto, o paulista observa que leu e comparou as propostas de ambos os candidatos e viu que as de Haddad eram "absolutamente melhor planejadas que as de Bolsonaro".

Haddad tem mais currículo, é mais inteligente e tem um projeto mais bem escrito. O que coloca uma pá de areia em cima de qualquer possibilidade de cogitar Bolsonaro.

Deusa Mendes da Silva, 63 anos, Jaqueline Santana, 31 anos

Mãe e filha, Deusa Mendes da Silva e Jaqueline Santana são assumidamente petistas. Elas reconhecem os erros do PT e a perda dos princípios que o partido tinha em sua fundação, mas acreditam que o Brasil precisa de um governo "feito para o povo".

Dona Deusa, 63 anos, foi operária em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, e é filiada ao partido desde sua fundação, em 1980, após se casar com seu ex-marido, Mauro, que foi metalúrgico entre os anos 80 e 2000. Hoje, ela trabalha como empregada doméstica.

Segundo Deusa e Jaqueline, o voto em Haddad é para fortalecer as minorias e para a manutenção de direitos, como acesso a educação e saúde de qualidade.

"Para nós, mulheres, para os negros e os pobres. Para as mães que criam seus filhos sozinhas e merecem ser respeitadas. Para os homossexuais que precisam ter seus direitos reconhecidos. Para que a educação de qualidade não seja um privilégio para poucos, mas um direito garantido pelo Estado", disse Jaqueline, que é jornalista.

"Para que cada vez mais pessoas tenham acesso a saúde, alimentação completa. Para que a linha da miséria desapareça definitivamente da nossa realidade. Para que cada vez mais brasileiros possam viajar de avião, conhecer o Brasil e o mundo. Para que escolas e universidade sejam cada vez mais ocupadas por negros e índios."

Moradoras de São Paulo, elas reconhecem que o PT errou e que os políticos corruptos devem pagar pelo "mal que fizeram". "Votar em Haddad não significa fechar os olhos para os erros do partido", explica. "Exigiremos as mudanças que estão sendo propostas e um bom governo, assim como a oposição sempre cobrou e continuará cobrando."

Votar em Haddad é votar pela democracia, na possibilidade de um futuro melhor para as novas gerações. Esperamos que elas conheçam um Brasil mais humano, um Brasil que reconheça suas barbáries do passado com a escravidão, com a ditadura, com a miséria dos mais pobres.

Sobre Bolsonaro, elas esperam que os brasileiros não aceitem alguém que vê torturadores como heróis. "Não queremos viver em um país governado por pessoas e por um partido que defende e romantiza a tortura, que acredita que a mulher é um ser inferior, que faz piada com estupro, que não consegue conviver com opiniões divergentes. A gente não precisa de mais violência. O mundo em que a gente vive já é agressivo demais com as pessoas. A gente precisa de um governo e de um mundo mais humano."

Eleitor de Haddad não é o mesmo que o de Lula

Horacio Villalobos - Corbis via Getty Images
Manifestante segura cartaz em apoio a Haddad.

Neste segundo turno, os eleitores de Haddad são bem mais diversos do que no primeiro turno, de acordo com o cientista político e professor da FGV, Marco Antônio Teixeira.

O professor explica que o eleitor de Haddad se concentra em três perfis: o originário do PT, que se identifica com o partido; o lulista, que é mais fiel ao ex-presidente que ao próprio partido e que, não podendo votar em Lula, tende a seguir o candidato que ele indicou; e o eleitor contrário ao Bolsonaro, que incluiria mulheres, LGBTs e ambientalistas, que temem consequências de um possível governo do capitão reformado.

O PT, no entanto, não conseguiu transferir todos os votos de Lula - que liderava as pesquisas de intenção de voto, mesmo estando preso - para Haddad. Na opinião do cientista político, isso aconteceu porque o ex-prefeito de São Paulo tem um perfil totalmente diferente do ex-presidente.

"Ele é uma pessoa tipicamente de classe média, com trajetória de classe média, e que tem uma linguagem, em termos de oratória, muito diferente da linguagem do Lula, que já tem identidade com isso que nós chamamos de lulismo - e que não é necessariamente o petismo", diz.

O professor da FGV lembra ainda que, dentro do lulismo, há eleitores que têm restrição ao próprio Haddad e que só votam no Lula. "[Agora] ou não votam em ninguém ou se deslocam para outras candidaturas, até mesmo de Bolsonaro. Eles buscam essa característica de liderança, que seja carismática ou que reúna expectativas de solução de problemas, mas que provavelmente Haddad não os convenceu", acrescenta.

Para Marco Antônio Teixeira, o PT errou ao insistir na candidatura de Lula, que está preso, e associar o nome do Haddad ao do ex-presidente quando se tornou candidato oficial do partido.

Para ganhar eleição presidencial, você tem que avançar para todos os eleitorados, inclusive para aqueles que tinham outro candidato. (...) Justificou-se tanto a tentativa de garantir a candidatura Lula que o tempo de trabalhar na candidatura Haddad ficou curto.