LGBT
26/10/2018 04:57 -03 | Atualizado 26/10/2018 04:57 -03

Por que jovens católicos e LGBTQ querem que o Vaticano seja mais acolhedor

Eles insistem em uma abordagem mais pastoral para as questões que os cercam.

O papa Francisco na sessão de abertura da Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre a Juventude, a Fé e o Discernimento, em 3 de outubro de 2018, na cidade do Vaticano, Vaticano.
Alessandra Benedetti - Corbis via Getty Images
O papa Francisco na sessão de abertura da Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre a Juventude, a Fé e o Discernimento, em 3 de outubro de 2018, na cidade do Vaticano, Vaticano.

Jovens católicos que participam de uma importante reunião este mês no Vaticano estão exigindo que os bispos trabalhem para que os católicos LGBTQ sintam-se mais acolhidos – ao mesmo tempo aderindo à doutrina conservadora da igreja em relação à sexualidade.

A insistência no tema da inclusão vem de vários líderes jovens escolhidos pela igreja para auditar o Sínodo dos Bispos, reunião anual que tem a função de aconselhar o papa. A conferência, que começou dia 3 de outubro e dura um mês, deve votar um documento final nos próximos dias – e ele tem o potencial de tornar-se parte dos ensinamentos oficiais da igreja.

Em uma entrevista coletiva realizada na última sexta-feira, os jovens disseram aos jornalistas ter esperança de que a versão final do documento tenha uma linguagem que claramente se aproxime dos católicos LGBTQ e enfatize uma abordagem mais amorosa e pastoral.

Yadira Vieyra, auditora americana de 29 anos, disse que os integrantes de seu pequeno grupo de pessoas de língua inglesa – ao todo, 14 grupos trabalham com os bispos – estão discutindo como a igreja pode se comunicar com os católicos LGBTQ, que costumam sentir-se "atacados".

"Eles muitas vezes se sentem fora de lugar, achando que a igreja não os quer. Sabemos que isso não é verdade. Todo católico sabe que isso não é verdade", disse Vieyra, segundo o Catholic News Service.

ASSOCIATED PRESS
O papa Francisco posa com jovens que participam do Sínodo dos Bispos no final de uma reunião no salão Paulo 6º, no Vaticano, 6 de outubro de 2018.

Pequenos grupos no sínodo pediram uma seção especial no documento tratando de sexualidade. Cada parágrafo do documento deve ser aprovado por uma maioria de dois terços dos bispos para que seja incluído na versão final, segundo a Associated Press.

Alguns bispos já expressaram resistência à ideia de construir pontes com a comunidade católica LGBTQ dessa maneira, noticia a AP.

O arcebispo da Filadélfia, Charles Chaput, disse que "não existe essa coisa de 'católico LGBTQ', ou 'católico transgênero' ou 'católico heterossexual', como se nossos apetites sexuais nos definissem", relata a AP.

A acolhida que os jovens líderes católicos pedem tem limites, entretanto. Embora eles peçam uma abordagem com base no amor, os grupos reafirmam as doutrinas que consideram relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo "intrinsicamente perturbados".

"Ninguém, por motivo de gênero, estilo de vida ou orientação sexual deveria se sentir não-amado", afirmou o grupo de trabalho de língua inglesa em um texto de reflexão publicado no sábado, segundo o Catholic News Service. "Entretanto, São Tomás de Aquino especifica que amor significa 'desejar o bem do próximo'. E é por isso que o amor autêntico de maneira alguma exclui o chamado à conversão, à mudança de vida."

Como jovens líderes escolhidos para ter papel ativo na igreja, não surpreende que os auditores – leigos – procurem aderir à doutrina católica sobre sexualidade.

Pacific Press via Getty Images
Bispos durante missa de abertura do Sínodo dos Bispos, que trata de juventude, fé e discernimento vocacional, na Praça de São Pedro, Cidade do Vaticano, Vaticano, 3 de outubro de 2018.

Mas – pelo menos nos Estados Unidos – essa visão não representa os sentimentos da totalidade dos católicos.

A maioria dos católicos americanos entre 18 e 29 anos acredita que é perfeitamente aceitável que casais de pessoas do mesmo sexo morem juntos (63%), segundo pesquisa de 2015 realizada pelo Pew Research Center. As gerações mais velhas são muito menos abertas em relação a esse tipo de relacionamento.

Em 2014, outra pesquisa do Pew Research Center indicou que a grande maioria dos millennials católicos acreditavam que gays e lésbicas deveriam ser aceitos pela sociedade (85%) e apoiavam o casamento de pessoas do mesmo sexo (75%).

Francis DeBernardo, diretor executivo da entidade New Ways Ministry, que defende os direitos dos católicos homossexuais, não acredita que o sínodo esteja lidando de maneira relevante com as questões importantes para a comunidade católica LGBTQ. Em um post num blog, ele escreveu que, para muitos dos participantes do sínodo, há uma crença estrutural segundo a qual "acolher" católicos LGBTQ significa um convite para que essas pessoas mudem quem são, ou então aceitem uma vida de celibato.

"É bom que [os bispos] estejam ressaltando uma abordagem acolhedora para os LGBT", escreveu DeBernardo, que participou de um briefing para a imprensa no sábado. "Mas eles falam em termos genéricos e não reconhecem as necessidades e dons particulares que os LGBT trazem para a igreja."

"Uma abordagem acolhedora é algo bom e necessário, mas não pode ser a palavra final", acrescentou ele.