POLÍTICA
26/10/2018 05:00 -03 | Atualizado 26/10/2018 16:07 -03

O que 5 eleitores de Jair Bolsonaro pensam e querem para o Brasil

Eles valorizam família e trabalho, reprovam corrupção e temem violência. E defendem que seu candidato não é intolerante.

Eles se consideram "cidadãos de bem". São trabalhadores, ralam para sustentar a família, seu bem mais precioso. Conservadores, temem "ideologia de gênero" nas escolas, "erotização das crianças", aborto, drogas. Também temem bandidos, rogam por mais segurança no bairro onde moram. Estão fartos de corrupção. Não querem mais saber de PT e rejeitam o comunismo. Este é o retrato de eleitores de Jair Bolsonaro (PSL) que o HuffPost Brasil entrevistou ao longo de outubro.

De acordo com a pesquisa Datafolha publicada a 3 dias do 2º turno, o eleitor de Bolsonaro é o mais convicto: 94% têm certeza de seu voto no próximo domingo (28). Também têm certeza de que seu candidato é ficha-limpa, honesto, diferente de "tudo que está aí", da velha política — a despeito de ele exercer mandato na Câmara Federal desde 1991.

Apesar da retórica considerada fascista por especialistas, eles não consideram que seu candidato seja intolerante. Atribuem os rótulos de machista, racista e homofóbico aos adversários, à esquerda.

As declarações de cunho autoritário não preocupam; pelo contrário, aliviam. Querem alguém de pulso firme, que possa acabar tanto com os criminosos nas ruas quanto os de colarinho branco.

Marcelo, Juscelino, Telma, Almir e Andrezza: 5 brasileiros que estão entre os que escolheriam hoje Jair Bolsonaro — 48% do eleitorado, segundo o Datafolha mais recente.

A seguir, leia o que cada um deles pensa sobre o candidato do PSL e o que esperam de um eventual governo dele.

Desempregado na gestão Dilma

Diego Iraheta/HuffPost Brasil
Marcelo Amador, motorista de aplicativo, votará em Jair Bolsonaro no 2º turno.

Marcelo Amador Pereira, 37 anos, trabalha há 2 como motorista de aplicativo. Antes, era vendedor de multinacional. Vítima da recessão iniciada no ano da reeleição de Dilma Rousseff, perdeu o emprego em 2016. "Fui afetado na época do governo Dilma. A empresa estava reduzindo cargos e, numa dessas, perdi o meu e decidi trabalhar por conta", relata.

No 1º turno, ele votou em Geraldo Alckmin (PSDB) por admirar a trajetória do ex-governador de São Paulo. Mas neste domingo ele irá de Bolsonaro por só ter memórias ruins relacionadas ao PT. Não é só o desemprego na era Dilma — que atingiu 11,8 milhões de brasileiros no ano que ela deixou a Presidência após impeachment. Marcelo também considera Fernando Haddad, adversário de Bolsonaro na disputa pelo Planalto, "um dos piores prefeitos que São Paulo já teve".

"Ele colocou ciclovia em lugares em que não tinha necessidade. E o valor, de R$ 650 mil o quilômetro daquela tinta vermelha; isso não existe", queixa-se.

Mesmo que Bolsonaro fosse racista, não deixaria de votar nele. Porque o concorrente dele é o PT, e o que o PT fez no Brasil eu não admito participar.

Negro, Marcelo não acredita que Bolsonaro seja racista. "Até porque no país em que vivemos, não está certo ser racista aqui; somos um país miscigenado e tropical." Entretanto, seu candidato foi denunciado por racismo pela Procuradoria Geral da República por ter dito em 2017, após uma visita a um território quilombola, que "o afrodescendente mais leve lá pesava 7 arrobas... Nem para procriador eles servem". O STF (Supremo Tribunal Federal) rejeitou a denúncia.

"Mesmo que ele fosse racista, não deixaria de votar nele. Porque o concorrente dele é o PT, e o que o PT fez no Brasil eu não admito participar. Não participo por nada", ressalta Marcelo, aludindo também a escândalos de corrupção.

O motorista, que tem um filho gay, também não acredita que seu candidato seja homofóbico. "Meu filho é meu amigo, amo de verdade. Não acho que Bolsonaro o trataria mal. Nem gay nem mulher", aposta.

Sobre os arroubos autoritários do candidato do PSL, que nesta semana custaram intenções de voto dele, Marcelo minimiza: "ele não poderia fazer nada autoritário porque depende do Congresso".

A família de verde e amarelo

Diego Iraheta/HuffPost Brasil
Família do segurança Juscelino de Sousa torce por Jair Bolsonaro nesta eleição.

Juscelino de Sousa, 45 anos, tampouco considera que Bolsonaro seja intolerante. "É um rótulo que deram para ele; intolerante, racista, fascista, taxista, eletricista", ironiza. "Ele não é nada disso; a esquerda rotula para queimar a imagem dele, para ganhar voto em cima dele."

O funcionário de empresa de segurança, a esposa, Ana Cláudia, e as filhas Mariá e Nicole participaram do ato a favor do candidato do PSL no último domingo (21) na Avenida Paulista. De transporte público, cruzaram os 40 quilômetros que separam Itapevi, onde moram, da capital paulista para demonstrar apoio a um político em quem confiam.

"Um cara que não é favorável à liberação de droga, não é a favor do aborto; é um cara que defende a família", resume Juscelino, abraçando a filha mais nova. Ele não quer saber de discussão de gênero em sala de aula, bandeira que também atribui à esquerda.

Tem muita gente esquerdista achando que Bolsonaro vai armar a população. O povo não vai ter arma de graça, não.

Bolsonaro já afirmou que vai propor ao Congresso Nacional a liberação da posse de arma. Essa proposta é aprovada por Juscelino, que não entende a quantidade de críticas sofridas por seu candidato. "Quem puder ter uma arma em casa, para defender sua família, sua propriedade, vai ter que comprar. Tem muita gente esquerdista achando que Bolsonaro vai armar a população, dar de presente para todo mundo. O povo não vai ter arma de graça, não", explica.

Para Juscelino, moradores do campo serão os principais beneficiados se a legislação de armas ficar mais flexível no Brasil. "Você compra um terreninho com suor, paga as parcelas em 100 meses, aí chega um desocupado com boné do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e invade a sua propriedade, monta um barraco, e você não pode tirá-lo de lá e pode até apanhar", exemplifica. "Agora, se você tem uma cartucheira, uma calibre 12, aponta para o pessoal de vermelho [sem terra], ninguém vai ficar lá... Isso é defender a sua propriedade."

Juscelino é um grande crítico de movimentos por terra e moradia. "Vão trabalhar! Muito", exclama. É aplaudido pela esposa e filha mais velha, que também criticam o PT. Nicole tem 16 anos mas não tirou o título de eleitor a tempo de participar deste pleito. Em 2022, ela espera poder votar em Bolsonaro.

A brasiliense que não acredita em salvador da Pátria

Arquivo Pessoal
Moradora do Centro-Oeste, Telma Martes é crítica do movimento feminista e defende os bons costumes.

A região Centro-Oeste tem a maior diferença entre eleitores de Bolsonaro (59%) e Haddad (27%). A concentração de eleitores bolsonaristas é maior no Distrito Federal que em estados como São Paulo e Rio de Janeiro, de acordo com o último Datafolha. 58% dos eleitores do DF apoiam o capitão contra 55% do Rio e 54% de SP.

Natural de Brasília, a jornalista Telma Martes, de 36 anos, já decidiu há tempos pelo voto no militar. As razões? "Segurança, preservação dos valores familiares, apoio declarado ao combate à corrupção e apoio às liberdades individuais", enumera.

Como o candidato, ela é crítica do comunismo e da "ideologia de gênero". Considera que o movimento feminista perdeu o foco. "Era para ser um movimento de igualdade de direitos; tornou-se movimento político com outros fins. As manifestações desse grupo são desrespeitosas", diz a moradora de bairro de classe média baixa de Sobradinho, a 22 quilômetros da capital federal.

Para Telma, violência é intolerável. "Sou contra todo tipo de violência a pessoas de bem, seja praticada contra heterossexuais ou contra homossexuais." Ela não acredita que um eventual governo Bolsonaro vá estimular a discriminação de gays ou de outras minorias.

Apesar de confiante na escolha deste domingo, Telma não alimenta expectativas. "É importante deixar claro que não o considero o salvador da Pátria. Mas, ao pensar em um conjunto de propostas apresentadas, ele foi o mais coerente com ideias e ideais que tenho."

Primeiro, ordem. Depois, progresso

Diego Iraheta/HuffPost Brasil
Almir Fonseca valoriza o trabalho e critica a corrupção associada a partidos como o PT e MDB.

O barbeiro Almir Fonseca começou a trabalhar aos 14 anos em uma metalúrgica de São Paulo. Desde aquela época, valoriza a labuta e a relação que vai se construindo entre patrão e empregado. Por isso, sempre olhou com desconfiança para greves, inclusive as organizados pelo então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva no final dos anos 70. "Hoje tenho 55 anos e eu nunca gostei do PT", admite.

Para Almir, é inadmissível deixar o PT retornar ao poder depois de descoberto o maior escândalo de corrupção do País — o propinoduto na Petrobras. "A Lava Jato foi muito útil para nosso país. Sérgio Moro deveria virar herói nacional", opina. "Lula nunca mais deveria sair da cadeia; ele enriqueceu à custa do Brasil, dando um pouquinho pro pobre para ganhar voto", acusa o ex-presidente, preso após ser condenado em 2ª instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

O paulista diz repudiar a corrupção em todos os partidos. Indigna-se ao recordar que o ex-governador Sérgio Cabral, do MDB, presenteou a esposa, Adriana Ancelmo, com um anel de R$ 800 mil, pago por dono de empreiteira que tinha contratos milionários com o governo do Rio de Janeiro. "O cara estava tomando os melhores vinhos e champanhes na França, gozando da nossa cara; merece ir para cadeia e nunca mais sair", torce.

A princípio, Almir se interessou neste ano por votar em João Amoêdo (Novo). Mas mudou de ideia antes do 1º turno. "O Brasil está uma bagunça, é roubo atrás de roubo, muito ladrão de rua. Bolsonaro será um governante de pulso; vai manter a Lava Jato e colocar corruptos na cadeia", justifica o voto.

"Vamos de Bolsonaro em 2018. Amoêdo fica para 2022. Primeiro, ordem; depois, progresso", resume Almir.

Para ela, ele sim

Arquivo Pessoal
A manauara Andrezza Feitoza se preocupa com a educação dos filhos na escola.

Quase 60% dos evangélicos estão com o candidato do PSL, de acordo com o Datafolha. A empresária manauara Andrezza Feitoza, de 36 anos, pertence a esse grupo. Seu pastor participa do comitê Unidos contra a Corrupção em Manaus e faz um trabalho de conscientização dos eleitores sobre a Lei da Ficha Limpa.

"Em Manaus, só 2 se reelegeram para deputado federal, 6 foram novos. Isso é um ótimo começo", comemora. Para ela, o discurso de Jair Bolsonaro contra corrupção pode moralizar e renovar a política brasileira.

Casada e mãe de 3 filhos, preocupa-se com os conteúdos ensinados na sala de aula. "Voto no Bolsonaro por ele ser totalmente contra a erotização das crianças nas escolas. Isso não tem nada a ver com o ambiente escolar", afirma. Durante a campanha, o capitão bateu repetidas vezes no "kit gay", como ele rotulou o programa do governo Dilma que nem sequer foi implementado para combater a homofobia na rede pública de ensino. Em entrevista ao Jornal Nacional, durante a campanha, Bolsonaro chegou a dizer que houve um "seminário LGBT infantil" no Congresso Nacional em 2010 — que nunca existiu.

Se Bolsonaro acha que ter filha mulher é 'fraquejar', isso para mim não tem qualquer interferência em como governar uma nação. Bolsonaro é meu presidente, é meu funcionário.

Andrezza reconhece que Bolsonaro, por ser militar e mais velho, possa ser machista. "Sou neta de militar nordestino, do interior do Ceará; sei como é o pensamento, meu avô falava coisas com as quais eu não concordava", recorda. "Mas ele tinha ótima índole, teve participação incrível na minha criação por uma mãe separada."

As declarações preconceituosas do deputado, portanto, não incomodam a empreendedora. "Os achismos dele, se ele acha que ter filha mulher é 'fraquejar', isso para mim não tem interferência em como ele governa uma nação", argumenta. "Bolsonaro é meu presidente, é meu funcionário. A gente só quer um Brasil melhor."

Ela é contra a intolerância, que diz ver dos 2 lados. Teve que trocar a foto acima de perfil no Facebook por outra de Outubro Rosa. "Estava sendo ofendida por causa da imagem e vendo amigos, colegas e possíveis clientes criando juízo de valor a meu respeito". conta. "Tenho uma amiga maravilhosa que disse que os eleitores de Bolsonaro são burros. Isso me deixou muito triste."

Sobre as manifestações #EleNão, ficou escandalizada com imagens que circularam em seus grupos de WhatsApp. Mulheres seminuas com adesivo "Fora, Bolsonaro", fazendo topless com mensagens de tinta no corpo, fita isolante cobrindo o peito... "Já pensou se eu estivesse com minha filha? Não acho que precise de baderna", critica.

"Amo a causa feminina de forma inteligente e sadia. Sem adesivos na pele, sem mostrar meus seios, sem urrar", conclui a empresária.