POLÍTICA
27/10/2018 02:39 -03 | Atualizado 27/10/2018 02:40 -03

Nem Bolsonaro, nem Haddad: Os 8% de eleitores que vão de nulo nestas eleições

"Não. Eu não sou obrigado a escolher um deles", defende Eduardo Jorge, do PV.

Pacific Press via Getty Images
Vice de Marina Silva no 1º turno, Eduardo Jorge decidiu não apoiar nenhum dos 2 candidatos do 2º.

"Eu não posso assinar embaixo de nenhum desses dois projetos", afirma o economista Carlos Góes, ao anunciar que não escolherá nem Fernando Haddad (PT) nem Jair Bolsonaro (PSL) neste segundo turno. O direito exercido por Goés de votar nulo está explícito em uma fatia de 8% do eleitorado, de acordo com pesquisa Datafolha, divulgada na quinta-feira (26).

Esse posicionamento é evidente principalmente entre mulheres, com idade entre 16 e 24 anos. Perfil no qual se encaixa a advogada Maria Melo, 24 anos. Essa vai ser a primeira vez que ela vai votar nulo, como posição política, "por um puro descontentamento com as duas opções que estão aí postas".

"São duas campanhas baseadas em fake news e em infligir o medo no lado oposto. O PT faz isso há anos. Sempre com o discurso de que 'eles vão tirar o Bolsa Família', 'eles vão tirar dos pobres', 'eles vão vender a Amazônia', e muito me admira que condenem que Bolsonaro faça agora o que eles já fazem profissionalmente há anos. E, claro, não diminui o fato de que o Bolsonaro também está usando dessa estratégia", justifica.

Entre os que declaram o voto nulo, 22% dizem que ainda podem mudar de ideia até a votação neste domingo (28). Melo e Goés fazem parte dos outros quase 80% que estão convictos da decisão. "Quem vota nulo não está ajudando Bolsonaro ou compactuando com ele. Haddad-é-Lula e o PT não têm direito inalienável ao meu voto. Eles teriam de conquistá-lo. E falharam miseravelmente nessa missão", explica Góes.

O economista afirma que está diante uma candidatura autoritária, de Bolsonaro, e de um plano de governo autoritário, o de Haddad. Eleitor de Marina (Rede) no primeiro turno, Góes acredita que nenhum dos 2 conseguirá mudar o regime em Brasília.

"O que é provável é que ambos reduzam a qualidade das instituições democráticas brasileiras. Ambos têm posições inaceitáveis e radicais numa democracia. Ambos representam um rompimento com o pacto político estabelecido pela Constituição de 1988", diz.

Vice de Marina nestas eleições, Eduardo Jorge (PV) corrobora a mesma tese de Góes. "Tanto o PSL quanto o PT são comandados por núcleos políticos radicais e com tendências autoritárias", diz. E assim como o economista, diz optar "pelo valor básico da democracia". "Prefiro o realismo de começar desde já ser oposição a qualquer um deles nos próximos 4 anos. (...) Votarei nulo, contra o PSL e contra o PT."

"O PSL é um verdadeiro almanaque de idéias reacionárias, anti-humanistas, violentas e simplistas que fariam corar um Pinochet de pedra. Já o núcleo dirigente do PT é uma indigesta salada de idéias marxista-leninistas que foram motivo de sofrimentos brutais para países nos século 20 e 21 que experimentaram o seu gosto amargo, anti-humanista e antidemocrático", defende.

Não. Eu não sou obrigado a escolher um deles. Eduardo Jorge

O servidor público Fábio Ferreira, 31 anos, vai além. Para ele, depositar as esperanças em um único candidato é abrir mão da capacidade de mudança. "Não tem por que votar se todas as políticas se dão nas ruas pela luta de classes, e o Estado é somente o regulador desses conflitos", resume.

Alerta e contraponto ao voto nulo

Aos que vão anular o voto, a doutora em Ciência Política pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) Lara Mesquista faz um alerta.

"Esses eleitores precisam saber que não votar em um dos 2 concorrentes não significa não interferir no resultado da eleição. O não voto (seja ele branco, nulo ou a abstenção eleitoral) indiretamente beneficia o candidato vencedor. A opção por não votar acaba por endossar a afirmação do candidato [Jair Bolsonaro] que o ideal seria voltar 40, 50 anos, portanto entre 1968 e 1978, no auge da ditadura militar", afirmou, em artigo publicado no jornal O Globo.

Para ela, aqueles que defendem as liberdades individuais e entendem que avanços sociais são necessários para que o Brasil seja um país melhor e mais justo, aqueles que defendem o combate da desigualdade e prezam pelo direito à livre manifestação política, sobretudo pelo direito de se opor ao governo de ocasião, devem estar cientes de que o não voto não é uma opção no pleito atual, ou pelo menos, não deveria ser.

"A se enveredar por esse caminho, o não-voto pode se tornar a única realidade possível para todos os eleitores em um futuro não muito longe", profetiza.

O economista e ex-diretor do Banco Central, Alexandre Schwartsman, no entanto, apresenta um contraponto à Mesquita.

"Que me desculpem os amigos que pretendem votar no Fernando em nome da defesa da democracia, mas um partido com tais posições não tem nenhum comprometimento com a causa democrática, além de usá-la como trampolim para 'tomar o poder'", ponderou, em artigo publicado na Folha de S.Paulo.

Para ele, que votou em João Amoêdo (Novo) no primeiro turno, Haddad representa "forças políticas cujo compromisso com a democracia me convence ainda menos que o liberalismo econômico de Bolsonaro".

"Só me sobra, portanto, anular o voto e torcer para que na próxima eleição apareçam candidatos com posicionamentos mais próximos aos meus, de preferência com reais chances de serem eleitos."