27/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 27/10/2018 00:00 -03

Morgana Eneile, a doula que sonha com autonomia e protagonismo das mulheres

Carioca descobriu a doulagem há três anos e hoje preside Associação de Doulas do Rio de Janeiro. A luta é para que mais mulheres tenham acesso a um parto digno e respeitoso.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Morgana Eneile é a 234ª entrevistada do

Na infância em Padre Miguel, zona oeste do Rio de Janeiro, Morgana Eneile, de 38 anos, reconhece que tinha um privilégio em relação à maioria das crianças pobres: liberdade. Criada pela avó, ex-empregada doméstica, e pelo tio, operário, ela destaca que o senso de "poder fazer o que quiser", construído pela matriarca, a trouxe até os dias atuais. Professora de artes visuais na rede pública de ensino e doula, Morgana luta para que seus alunos e as gestantes que acompanha tenham, cada vez mais, protagonismo e autonomia em suas próprias vidas.

"Há cerca de cinco anos, se você me contasse que eu iria ser professora e doula, eu iria dizer que você estava louca", brinca ela em entrevista ao HuffPost Brasil. Antes de decidir virar professora, e depois descobrir a doulagem, Morgana trabalhou com produção cultural, cursou biologia e até museologia. A doulagem descobriu pela proximidade com um ativismo iniciado após o parto do segundo filho.

Quanto mais grávida eu estava, mais me deparava com a necessidade de construir um novo mundo.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Morgana luta para que seus alunos e as gestantes que acompanha tenham, cada vez mais, protagonismo e autonomia.

O ativismo, ela conta, começou na adolescência, após dar à luz seu primeiro filho. Na época, ela tinha 17 anos e sentiu que o nascimento do menino foi o impulso que faltava para ela "se movimentar". "Quanto mais grávida eu estava, mais me deparava com a necessidade de construir um novo mundo. A gravidez me deu uma chave. Eu sempre achei importante [o envolvimento], mas nunca quis fazer muita coisa. Quando eu fiquei grávida, tive uma noção de que se eu não fizesse nada, meu filho iria ter uma vida pior. Foi muito interessante, porque me tornei presidente do grêmio estudantil, na militância", explica.

Descobrir a gravidez não foi fácil. Filha de uma família operária, ela explica que sentiu uma frustração momentânea por parte de seus familiares. "A principal preocupação era se eu iria parar de estudar, mas a gravidez me deu mais impulso. Em vez da gravidez me trancar em casa, ou me deixar numa postura de recuo, ela me deu mais impulso."

E voou. Na época do vestibular, passou para vários cursos e universidades diferentes. Arriscou-se em dois cursos ao mesmo tempo, para descobrir que não pertencia a nenhum deles e deixá-los para trás. Cursou museologia. Paralelamente à graduação, atuava como produtora cultural. Roqueira desde sempre, a veia artística estava presente e deu o tom da fase adulta. Aos 28 anos, Morgana tornou-se dirigente nacional de cultura do Partido dos Trabalhadores. Hoje, ela reconhece que foi uma decisão ousada, que envolvia grandes responsabilidades e muita mobilidade, mas que foi fundamental na sua trajetória.

Quando ficou grávida do segundo filho, decidiu voltar de vez para o Rio, mas trouxe na mala o interesse pela colaboração com a legislação e também promover mais mudanças. "Não queria deixar de atuar e trabalhar com uma coisa que eu acreditasse. É muito importante que você exerça sua profissão com verdade e saiba que é o melhor que você pode fazer naquele momento", afirma.

É muito importante que você exerça sua profissão com verdade e saiba que é o melhor que você pode fazer naquele momento.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
O ativismo, ela conta, começou na adolescência, após dar à luz seu primeiro filho.

Seu segundo parto, ela define, foi "incrível, digno e respeitoso". Com a sua experiência positiva, o ativismo que vinha da adolescência transformou-se no desejo de que toda mulher tivesse a mesma experiência. Passou a colaborar com informações online, tirar dúvidas de gestantes e apontar os melhores caminhos. Quando seu filho caçula tinha três anos, uma amiga engravidou e sugeriu que Morgana fizesse um curso de doulas para ajudar no parto que estava para chegar.

"Não fiz o curso no sentido de tornar a minha profissão. Fiz o curso no sentido de, além de acompanhá-la, melhorar a qualidade da minha informação. Como conhecimento nunca é demais, pensei que ruim não iria ser", diz.

E realmente não foi. Oficialmente doula, o ativismo ficou cada vez mais forte até que, junto com outras dezenas de mulheres, fez um lobby do bem para aprovar a lei na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro que permitiria o trabalho de doulas no hospital do Rio de Janeiro. No mesmo momento, as mães, gestantes e doulas perceberam que com a aprovação e sanção da lei, surgiria uma outra necessidade.

Ser presidente da associação não passava pela minha cabeça.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"É muito importante que você exerça sua profissão com verdade e saiba que é o melhor que você pode fazer naquele momento."

"Não adiantava só aprovar a lei, tinha que ter um organismo que pudesse ser um espaço de constituição desse processo. Senão a gente ia ter a lei e não iria conseguir acompanhar caso acontecesse alguma coisa. No mesmo processo de aglutinação das pessoas, os coletivos de doulas também foram se juntando", explica Morgana. E foi assim que surgiu a Associação de Doulas do Rio de Janeiro, três dias antes da lei das doulas ser aprovada. Como não podia deixar de ser, Morgana foi eleita a presidente.

"Eu atuava como doula no ativismo, não acompanhava partos. Só passei a conviver mais com as pessoas nesse momento de articulação na assembleia legislativa. Ser presidente da associação não passava pela minha cabeça", analisa.

Passados dois anos, já que toda essa revolução aconteceu em 2016, Morgana faz um balanço positivo. "É magia pura, porque eu tenho pessoas incríveis comigo. A gente não tinha intimidade, o grupo mudou com o tempo, mas hoje são 120 mulheres associadas, num universo de 400 profissionais, é gente a beça, é magia", afirma.

Como professora, quero que meus alunos olhem uma imagem e tenham uma leitura crítica sobre aquilo.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Os instrumentos, ela analisa, são aqueles que permitem mostrar para a mulher que ela é a dona do próprio corpo.

Junto com a chegada do segundo filho, a doula também descobriu-se professora. Cursou Artes Visuais e prestou concurso público. Hoje leciona para crianças e consegue traçar um paralelo entre as duas profissões.

"Como professora, quero que meus alunos olhem uma imagem e tenham uma leitura crítica sobre aquilo. E a principal função da doula é promover autonomia e protagonismo. A coisa mais fantástica que temos é o livre arbítrio. Nós temos todas as habilidades, no uso padrão das funções mentais, de fazer escolhas. O que o outro pode fazer colaborar é com instrumento, e a doulagem é isso: colaborar com os instrumentos e estar ali disponível", explica.

Mudar o mundo é provocar que as outras pessoas também possam mudar o mundo.

Os instrumentos, ela analisa, são aqueles que permitem mostrar para a mulher que ela é a dona do próprio corpo, e que um parto digno é aquele que simplesmente suas escolhas são respeitas. "É um parto em ela se sente bem, acolhida, que vê no rosto do profissional que ele não é racista, que não tem nojo da presença dela. E doula está ali para informar antes do parto e acompanhar durante", diz.

Uma mulher de presença marcante e voz altiva, consciente da sua importância para aqueles que estão à sua volta, Morgana crê que "todo ser humano veio ao mundo para mudá-lo em alguma coisa". "E acho que minhas duas profissões mudam o mundo. E isso não é um ato enorme, que todo mundo tem que saber. Mudar o mundo é provocar que as outras pessoas também possam mudar o mundo", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delaspara celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.