OPINIÃO
27/10/2018 02:46 -03 | Atualizado 27/10/2018 02:55 -03

2018, o ano da narrativa na política

Nunca antes na História contar uma história foi tão essencial.

Pilar Olivares / Reuters
Apoiadores de Jair Bolsonaro se divertem com pixuleco representando ex-presidente Lula no Rio de Janeiro, no dia do 1º turno.

Em 2010, durante a campanha presidencial, eu andava pela rua quando vi uma casa com um grande entra e sai de gente. Fiquei curioso e fui investigar. Um grupo de jovens ligados à esquerda estava organizando um evento com a transmissão de um discurso em homenagem a Trotsky. Lá dentro era um calor infernal, a cerveja estava quente e a transmissão, via internet, cortava toda hora. Mesmo assim contei umas 30 pessoas.

Alguns dias depois a campanha de José Serra, para a qual eu trabalhava, resolveu fazer um encontro com blogueiros simpáticos à sua candidatura. Contrataram um serviço de pizza gourmet, o comes e bebes era liberado e o ambiente tinha ar-condicionado. No total apareceram cerca de 6 pessoas.

Essa foi a primeira vez que eu parei para pensar sobre uma palavra que, anos mais tarde, ficaria cada mais famosa e habitual entre analistas e comentaristas políticos: narrativa. Afinal, a narrativa dos 2 eventos ajudava a explicar por que, estruturas à parte, um teve sucesso e o outro não.

Por muito tempo a esquerda brasileira conseguiu produzir uma narrativa (ou contar uma história) bem mais sexy do que a direita. Os anos de ditadura e os problemas estruturais do Brasil, como a miséria e a falta de emprego, criaram inimigos fortes contra os quais lutar.

Toda história (ou narrativa) passa pela ideia de alguém lutando contra ou a favor de algo, para alcançar um desejo. Essa maneira de encadear fatos, bastante utilizada em livros, filmes e séries, tem o poder de capturar a atenção, entreter e engajar públicos. Quando bem utilizada na política, uma narrativa é capaz de encantar um eleitorado.

FHC lutava contra a inflação. Lula lutava contra a fome. José Serra, em 2010, não encontrou uma luta para si. Dilma também não, resultando em uma eleição pouco animada. Mas 4 anos mais tarde Dilma encontraria essa veia narrativa por meio da personagem "Coração Valente".

Mas o domínio da narrativa política brasileira começa a mudar por volta de 2013, nos protestos que tomaram conta do País. Ali surge uma história contada por uma nova direita, que lutava contra o petismo. Para corroborar essa história, havia os escândalos de corrupção e o apoio a uma Venezuela que começava a se deteriorar. Embora não haja indícios claros de que alguma vez o PT tenha pensado em transformar o Brasil no nosso vizinho chavista, os dados da realidade tornaram essa narrativa bastante verossímil.

Candidatos capazes de protagonizarem histórias transformam eleitores em aliados que se juntam às suas lutas.

Outro resultado daqueles protestos foi uma mudança nas regras eleitorais, que diminuiu o tempo total de campanha oficial, o tempo de exposição dos candidatos na TV e, claro, o dinheiro disponível. Nesse cenário candidatos que já tinham exposição foram muito beneficiados. Aos que não tinham, sobrou a internet. Mas, numa mídia recheada de fotos da gatos, cachorros, bebês e pratos de comida, quem quer ver posts feitos por candidatos?

É aí que entra, novamente, a narrativa. Candidatos capazes de protagonizarem histórias transformam eleitores em aliados que se juntam às suas lutas. Em outras palavras, uma boa narrativa pode criar uma sensação de pertencimento que, lá na frente, multiplica votos. É como se a pessoa se sentisse parte de um filme épico, e não de uma eleição.

Não por acaso os 2 candidatos a presidente que foram ao segundo turno neste ano possuem as narrativas mais poderosas e trabalhadas por mais tempo. Jair Bolsonaro é a personagem que luta contra a ideia difusa, mas atraente, de um comunismo brasileiro. Fernando Haddadé a personagem que, no primeiro turno, lutava para libertar o "mártir" Lula. No segundo ele luta contra a ideia difusa, mas também atraente, de um fascismo brasileiro (ou a favor da democracia).

É claro que deveria haver limites éticos para o uso dessa técnica. O candidato que luta a favor da educação, do saneamento básico ou de uma maior eficiência da máquina pública está trazendo propostas à mesa. As coisas começam a ficar mais perigosas quando as narrativas são construídas de forma a vilanizar o outro. Quando lutamos contra uma ideia de que o lado oposto é o mal absoluto, vale tudo para se manter no poder. Numa democracia madura as pessoas reconhecem a legitimidade de quem pensa diferente e, sobretudo, mantém o diálogo aberto.

Outro ponto são as fake news, notícias criadas para reforçar determinadas crenças e histórias. Mas esse assunto é tão extenso que merece um artigo à parte.

Quando lutamos contra uma ideia de que o lado oposto é o mal absoluto, vale tudo para se manter no poder. Numa democracia madura, as pessoas reconhecem a legitimidade de quem pensa diferente e, sobretudo, mantém diálogo.

Em resumo, a narrativa sempre foi uma ferramenta utilizada pela política. Ao longo da História, candidatos construíram suas trajetórias usando essa ferramenta. E qualquer profissional de comunicação sabe que o voto é formado muito mais por fatores emocionais do que racionais. A questão é que nunca antes na História contar uma história foi tão essencial.

Nestas eleições fui consultor de alguns candidatos em diferentes estados. Para um deles, um político bastante tradicional, perguntei por que ele tentava a reeleição. O que o movia de verdade? O que o fazia acordar todas as manhãs para trabalhar? Contra o quê, ou a favor do quê, ele lutava? Diagnostiquei que, depois de tantos anos, o eleitor precisava se reconectar com esse propósito perdido. A pergunta nunca foi respondida e, coincidência ou não, ele não conseguiu se reeleger.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.