26/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 09/01/2019 17:09 -02

Cecy Procópio, a visagista que revela a melhor versão das pessoas

“A cliente chega pedindo um cabelo igual da revista e eu a desafio a encontrar o melhor dela mesma”, aponta a cabeleireira manauara em entrevista ao HuffPost Brasil.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Cecy Procópio é a 233ª entrevistada do

Quadros com desenhos de rostos de pessoas diferentes feitos à mão, fotos de paisagens, lustres com materiais reaproveitados. Essa é a decoração autoral do estúdio da amazonense, Cecy Procópio, de 62 anos, a cabeleireira visagista que revela em um corte de cabelo a beleza de cada um de seus clientes, sem superficialidades. "Meu espaço diz muito sobre mim. Desenhei os rostos e fiz as fotos. Amo fotografia. Aqui procuro revelar a melhor versão das pessoas", afirma em entrevista ao HuffPost Brasil.

Cecy, sem dúvida, quebra paradigmas impostos pela indústria da beleza com seu trabalho. Conhecida como um dos locais mais renomados de Manaus, ela defende que beleza deve ser potencializada com hidratação, ou um corte de cabelo personalizado. Nunca com produtos químicos ou alisamentos, por exemplo, que danificam os cabelos e, de quebra, escondem o que há de mais belo. "A cliente chega pedindo um cabelo igual da revista e eu a desafio a encontrar o melhor dela mesma", aponta.

Tenho que ser a melhor, a melhor para mim mesma.

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Cecy, sem dúvida, quebra paradigmas impostos pela indústria da beleza com seu trabalho.

Mas a vida de Cecy nem sempre foi assim. Ela nasceu em uma família de baixa renda, no município de Eirunepé, 900 quilômetros distante da capital do Amazonas. Aos 9 anos, após a morte de sua mãe, suas irmãs mais velhas tiveram se virar para garantir o sustento da família. Juntas, abriram um salão improvisado dentro de casa. Cecy começou como manicure, mas no fundo sabia que iria bem mais longe. "A clientela foi crescendo gradativamente e logo mudamos de local". Cecy lembra que, era tanta gente interessada que foi preciso improvisar fichas de atendimento e até organizar uma fila. "Meu pai ajudava a imprimir e plastificar. A gente fazia a distribuição logo cedo. Era muito movimentado", lembra.

Encontrei a minha arte na beleza real de cada um.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Cecy lembra que, era tanta gente interessada, que foi preciso improvisar fichas de atendimento e até organizar uma fila.

O negócio fluiu tanto que Cecy aprendeu a fazer o básico: reflexos, escova e penteados. "Eu era além do meu tempo. Sempre gostei de cores e formas incomuns para época". Foi aí que decidiu se profissionalizar em colorimetria em São Paulo, e depois, na Inglaterra. O ano era 1987 e ela não olhou para trás. "Percebi que o espaço em São Paulo era pequeno, não pensei duas vezes e fui para Londres", conta.

Para fazer colorimetria e visagismo, ela buscou conhecimento em uma das melhores escolas para profissionais da área na Inglaterra, a Vidal Sasson Academy. "Na época, a Vidal era de vanguarda, apostava em influências urbanas do movimento punk inglês, por exemplo. Lá eu aprendi a fazer cortes geométricos, colorações diferentes. Me realizei."

Acredito muito que a beleza é de dentro para fora. A maior busca é essa.

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Cecy tenta convencer clientes e profissionais que a função de quem trabalha com beleza não é transformar.

Com uma outra bagagem cheia de estilo próprio e referências novas, Cecy retornou para o Brasil, e veio direto para Manaus. Ela já não queria mais só colorir. Começou a cortar cabelos assimétricos, lançando tendências, e, continuou viajando para se aprofundar ainda mais na área. Nas idas e vindas para a Europa, Cecy resolveu montar o próprio espaço com toda a sua originalidade e estilo. "Minhas irmãs continuaram no ramo e eu segui sozinha", conta.

Ela ficou famosa na cidade, e desde então, tenta convencer tanto clientes quanto profissionais que a função de quem trabalha com beleza não é transformar a imagem de cada um, mas sim, revelar o que existe de melhor nas pessoas. "Minha missão de vida há 30 anos foi fazer com que as pessoas se olhassem e se aceitarem como são", diz. Esta premissa a fez lançar um livro chamado Pessoas. Nele, ela expõe o antes e o depois de clientes que atendeu desde a década de 90. "Era muito difícil convencer as pessoas a se aceitarem nos anos 90, 91, 92. Hoje vejo que consigo conversar sobre isso de uma forma mais aberta."

Existia um padrão inconcebível para mim. Não fui a melhor entre os iguais, fui diferente.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
"Pessoas" é o nome do livro que ela escreveu, para registrar o poder de seu trabalho.

Seguindo este caminho, pode não parecer, mas Cecy pode ser considerada pioneira em sua área. Por isso, ela foi a primeira amazonense a participar da semifinal da Colour Trophy da L'Oréal, em Paris -- uma competição que revela novos talentos. Ela também foi a primeira do estado a receber o prêmio "Tesoura de Ouro" - troféu importante para profissionais da área da beleza - em São Paulo, pelo trabalho que realiza na capital amazonense.

Mas foi só em 2012 que Cecy alcançou sua grande e importante conquista. Ela entrou para a Haute Coiffure Française – uma associação internacional de grandes cabeleireiros - e passou a ser membro e representante oficial de luxuosos desfiles na Europa. "As reuniões sempre eram em fevereiro e setembro. Cada país tinha que mostrar seu lado artístico. Eu ia a Paris assistir o lançamento das coleções nesses dois períodos", lembra.

Fui escolhida pela arte, pelo meu trabalho e muitos tiveram que me engolir.

Em 2013, o Brasil finalmente foi convidado para apresentar sua capacidade técnica e artística e Cecy estava lá, pronta para mostrar o seu melhor. "A diretora artística de Paris disse para a gente [os cabeleireiros] não usar acessórios nos penteados. Como eu sempre guardei os cabelos que cortava, usei para fazer enchimento nos penteados e foi um sucesso", lembra.

Ela surpreendeu a direção de arte e foi aplaudida e ovacionada pelos melhores profissionais do mundo. Cecy mostrou a que veio. "Eu? De Manaus? A gente sabe que existem muitas barreiras. A gente [nortista] tem que se superar na arte e na vida. Me superei e representei quem nunca tinha conseguido chegar ali", comemora.

Mas o maior desafio na vida profissional e pessoal de Cecy ocorreu recentemente. Em 2017, a amazonense precisou se recuperar de um câncer de mama. Curada depois de um doloroso tratamento, ela optou por não reconstruir o seio. "Sempre enxerguei as pessoas como únicas no meu trabalho, foi então, que consegui entender que o câncer era único para mim. Faz parte da minha trajetória e não podia ignorar."

Lidar com a beleza e saber que cada ser é um ser me ajudou a superar o câncer.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
"Se eu defendo o natural, meus cabelos brancos precisam ser aceitos", afirma.

Não retirar a mama não causou tanto impacto nas pessoas quanto assumir os cabelos brancos. Logo ela, uma profissional da beleza: porque deixar de pintar os cabelos? "Muitos me questionaram e não liguei para isso. Se eu defendo o natural, meus cabelos brancos precisam ser aceitos. Justifico a minha decisão afirmando que o branco é a união de todas as cores. Aceita que dói menos", conta, aos risos. Hoje, a autêntica Cecy Procópio se conecta com a arte para dar continuidade ao seu trabalho. "Para você ser um bom colorista, você também tem que ser um bom artista. É olhar o cabelo e imaginar uma obra de arte. Aí, não tem como: vai ser único".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Samira Benoliel

Imagem: Iana Porto

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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