POLÍTICA
25/10/2018 15:17 -03 | Atualizado 25/10/2018 16:17 -03

Bolsonaro importa modelo Trump e substitui imprensa por redes sociais

Candidato ataca jornais que considera adversários e elege veículos preferidos.

CARL DE SOUZA via Getty Images
Desde que sofreu o atentado a faca em 6 de setembro, Bolsonaro reduziu drasticamente o já escasso contato com a imprensa.

Com um histórico de confronto com a imprensa durante a campanha eleitoral, o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, chega à reta final das eleições demonstrando que segue disposto a não melhorar essa relação se vencer nas urnas no próximo domingo (28).

O contato do candidato e de seu entorno com os principais veículos de comunicação - que já era escasso - encolheu ainda mais após o atentado a faca que Bolsonaro sofreu em 6 de setembro.

Mesmo 20 dias após receber alta do hospital, o capitão reformado do Exército tem usado a recuperação para manter isolamento e se dirigir ao eleitorado diretamente por meio de transmissões ao vivo no Facebook, vídeos no YouTube, além de publicações no Twitter. As poucas entrevistas concedidas nos últimos dias só acontecem em "ambiente controlado" por Bolsonaro e para emissoras de TV e rádio e jornalistas escolhidos pelo candidato.

Segundo o cientista político Eduardo Grin, da Fundação Getulio Vargas EAESP, o candidato importou de Donald Trump - que Bolsonaro já admitiu ser uma inspiração - um método de se relacionar com a imprensa no qual busca substituir o contraditório e o exercício da liberdade de imprensa por uma relação mais direta com seus eleitores por meio das redes sociais. Neste modelo, o que Bolsonaro fala é considerado verdadeiro e o que não é favorável a ele, é classificado pelo candidato como "fake news".

São constantes as acusações de Bolsonaro contra a mídia. Em muitos casos, a palavra usada é "descaso". Ele também costuma dizer que os jornais usam frases isoladas para manipular a opinião pública, que ignoram a perseguição que ele e seus eleitores sofrem e que há "ativismo jornalístico".

Aos parlamentares eleitos, Bolsonaro deu um conselho no último dia 11: "muito cuidado para lidar com a mídia". "Eles não querem fazer uma matéria isenta, dizendo algo que você sonha. Ele (o repórter) quer arranjar uma maneira de pegar uma frase sua, uma escorregada, para me atacar", disse, em discurso transmitido pelo Facebook.

Um alvo preferencial, nos últimos dias, tem sido a Folha de S. Paulo. Na última semana, uma reportagem trouxe a informação de que empresas estariam pagando por pacotes de divulgação em massa de mensagens anti-PT. Com base na reportagem, a campanha de Fernando Haddad entrou com uma ação no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) pedindo a impugnação da candidatura de Bolsonaro.

O candidato do PSL partiu então para o ataque nas redes sociais ao jornal, que também já havia divulgado, no início do ano, que Bolsonaro mantinha uma funcionária fantasma em seu gabinete.

Na última quarta-feira (24), o deputado chegou a ameaçar o jornal, sugerindo que, se for eleito, o veículo não terá mais qualquer tipo de publicidade do governo.

As críticas ao jornal também foram levadas por Bolsonaro para a manifestação em favor da sua candidatura na Avenida Paulista, em São Paulo, no último domingo.

"A Folha de S.Paulo é o maior fake news do País", afirmou o candidato em transmissão ao vivo, a partir de um telão, para os manifestantes. "Queremos a imprensa, mas com responsabilidade. Imprensa livre, parabéns. Imprensa vendida, meus pêsames", disse, na sequência.

O discurso do candidato contra a imprensa encontra eco entre seus apoiadores. Na manifestação na Paulista, por exemplo, eleitores de Bolsonaro se mostravam hostis em relação aos jornalistas que participavam da cobertura do evento e se mostravam reticentes em conceder entrevistas.

NurPhoto via Getty Images
Eleitores de Bolsonaro se queixam do posicionamento da mídia tradicional.

Enquanto chama a imprensa de "lixo", no entanto, Bolsonaro já começou a separar, em seu discurso, o que seria a parte da mídia "que não se rendeu ao sistema e realiza muito bem essa função".

Após a declaração pública de apoio do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, à sua candidatura, Bolsonaro passou a demonstrar preferência pela Rede Record, de Macedo.

Levantamento feito pelo HuffPost Brasil com base nos tuítes publicados pelo candidato desde o primeiro turno das eleições, no último dia 7, mostra que a emissora é o veículo mais citado pelo perfil do capitão reformado do Exército.

Entre as postagens, há inclusive o retuíte de uma publicação feita pelo vereador Carlos Bolsonaro, filho do candidato, pedindo aos leitores que assistam a um programa da emissora sobre a colostomia do deputado.

A aproximação entre o candidato e a emissora ficou evidente pouco antes do primeiro turno, no dia 4. Enquanto 7 candidatos participavam do debate da TV Globo, Bolsonaro, que justificou a ausência com atestado médico, concedeu uma longa entrevista à TV Record.

A relação entre o candidato e a Rede Record passou a incomodar jornalistas, que apresentaram ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo uma denúncia de "pressão permanente da direção da emissora para que o noticiário beneficie o candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) e prejudique o candidato Fernando Haddad (PT)". Procurada pelo HuffPost Brasil, a Record não se manifestou.

Em nota à imprensa de forma geral, enviada nesta quinta-feira (25), a emissora rebateu as críticas que têm recebido. "O principal acionista Edir Macedo, ainda no primeiro turno, informou sua opinião pessoal em sua rede social particular. Um direito individual garantido pela Constituição e já exercido por ele em eleições anteriores. A decisão em nada influencia as posições da emissora, que tem um jornalismo premiado internacionalmente e reconhecido pelo público e anunciantes", diz trecho da nota.

'Imprensa golpista' de Lula

A relação conflituosa entre os poderes e a imprensa não é novidade. "Em nenhum lugar do mundo a relação entre poder e imprensa é totalmente saudável e boa. Há políticos e presidentes que têm uma habilidade maior em falar e lidar com a imprensa que outros", pontua o cientista político Leandro Consentino, do Insper.

O especialista lembra que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também teve episódios de rixa com os principais veículos de imprensa do País. O petista passou boa parte de seu mandato acusando os jornais e emissoras de TV de "imprensa golpista".

"Os dois candidatos [incluindo Fernando Haddad, do PT] têm uma relação muito complicada com a imprensa. No começo do governo Lula, fizeram uma reportagem e ele [Lula] tentou expulsar um correspondente do País. São situações muito ruins para um País democrático."

Consentino acrescenta ainda a incerteza gerada pela candidatura de Fernando Haddad com o projeto de regulação da mídia, defendido por Lula. No plano de governo do candidato consta a proposta de criar um marco regulatório para a comunicação social. Haddad tem explicado que a ideia é impedir a concentração de mais de uma mídia, rádio, TV e impresso, nas mãos de uma só família.

A proposta é amplamente criticada pelo adversário.

Contudo, Consentino pondera que é curioso como o próprio Bolsonaro, que é um crítico ferrenho do PT sobre a liberdade de imprensa, acaba mimetizando esse comportamento. Para o especialista, criticar a liberdade que a imprensa tem para fazer o seu trabalho e fazer uma seletividade na escolha de veículos mais simpáticos à sua candidatura dá um recado muito negativo à sociedade.

"Democracia tem a ver com pressupostos e regras claras, e não tem a ver com os melhores amigos."

Nesta terça-feira (23), a decisão de Bolsonaro por conceder entrevista a um repórter específico na Rádio Guaíba, afiliada da rede Record, levou um colega do âncora a pedir demissão do programa ao vivo. "Eu achei humilhante [não poder fazer perguntas] e por isso estou saindo do programa. Foi um prazer trabalhar aqui dez anos", disse o apresentador Juremir Machado ao âncora Rogério Mendelski.

Tendência internacional

O cientista político Eduardo Grin tem identificado entrevistas mais "amigáveis" a determinados jornais e emissoras que não se restringem aos do grupo Record. No dia 23, Bolsonaro concedeu entrevista a 4 veículos evangélicos. Para Grin, há duas tendências em evidência.

"Temos uma postura de negação a alguns veículos com quais ele não concorda e outra em relação aos veículos que vão passar a veicular somente a informação que o Bolsonaro julga adequada, e que, portanto, podem contribuir menos com a liberdade de expressão e legitimar esse modelo de exclusão, de só falar com os 'amigos'", diz.

"Vamos ter que acompanhar para saber se ele vai levar esse modelo adiante de dividir as empresas que lhe são favoráveis ou ignorar e até combater as que não são, como é o caso de Trump, nos Estados Unidos."

Grin afirma que a ideia de desautorizar a imprensa tem antecedentes internacionais. "Isso acontece na Turquia, Rússia, nos Estados Unidos. Vamos ver até que ponto nossas instituições, especialmente o Judiciário, vão aceitar esse comportamento se ele mantiver a mesma toada. Desautorizar versões de fatos baseados em evidências, que é o que a imprensa busca fazer, torna-se muito perigoso para a democracia."

Desautorizar versões de fatos baseados em evidências, que é o que a imprensa busca fazer, torna-se muito perigoso para a democracia.Eduardo Grin, cientista político da FGV

Ao HuffPost Brasil, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) afirmou que vai defender a liberdade de expressão e de imprensa, o direito à informação e a importância deles para a democracia em qualquer governo, "muito mais se for um governo de natureza autoritária". A entidade destacou que não tem posição em relação a nenhum candidato.

Os dois candidatos à Presidência chegaram a assinar, recentemente, uma carta na qual se comprometem com a liberdade de imprensa. O "Termo de Compromisso de Respeito à Constituição da República Federativa do Brasil", proposto pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), porém, não assegura que o presidente eleito cumprirá a palavra.