POLÍTICA
25/10/2018 08:46 -03 | Atualizado 25/10/2018 08:46 -03

De 'tranquilão' a combativo: Como Haddad engrossou tom com Bolsonaro no Twitter

Para Ruy Fausto, mudança de postura era necessária contra adversário, mas foi tardia.

Ricardo Moraes / Reuters
Estratégia de combate de Haddad veio tarde, avalia especialista.

A 4 dias das eleições presidenciais, o cenário para Fernando Haddad (PT) não é dos melhores. Na reta final da campanha, o partido e o candidato ainda tentam identificar aquela que poderia ser a "bala de prata" para derrubar o seu adversário Jair Bolsonaro (PSL), que nada a largas braçadas nas intenções de voto - de acordo com a última pesquisa Ibope, Bolsonaro tem 57% dos votos válidos, contra 43% do petista.

Sem a previsão de um debate direto com o opositor - que aponta razões médicas para não aceitar o confronto (ele passou por duas cirurgias após ser esfaqueado durante um ato de campanha em 6 de setembro) -, Haddad decidiu mudar sua tática no Twitter para tentar atingir Bolsonaro.

De acordo com levantamento realizado pelo HuffPost Brasil dos tuítes da candidatura petista, Haddad abriu mão de defender suas propostas de plano de governo e engrossou o tom contra Bolsonaro, mas não conseguiu consolidar uma direção eficiente para os seus ataques.

Entre os dias 8 e 22 de outubro, Haddad passou de 2 para até 21 ataques diários contra Bolsonaro. Por outro lado, as mensagens em que cita diretamente propostas para um eventual governo - que chegaram a somar 15 em um único dia - simplesmente não aparecem em pelo menos três dias no período analisado.

Para a avaliação das quase 400 postagens feitas pelo perfil oficial de Haddad durante a campanha de 2º turno, o HuffPost utilizou o seguinte método de separação:

- Tuítes de ataque, em que o candidato do PT cita diretamente o seu opositor ou os aliados de Bolsonaro.

- Tuítes de propostas, em que o candidato do PT cita diretamente propostas para o seu eventual governo.

- Tuítes diversos, em que o candidato faz referências ao seu opositor de forma indireta, escreve sobre temas variados, compartilha links para vídeos de entrevistas ao vivo e retuíta. Chama atenção, ainda, a repetição de termos como: democracia, "fake news", "Bolsonaro mente" e "kit gay".

No balanço total, os ataques superaram as propostas nas postagens: 107 tuítes contra 79.

Para o professor do Departamento de Filosofia da USP Ruy Fausto, especialista no pensamento de esquerda, Haddad acerta em endurecer o tom de sua campanha com ataques a Bolsonaro.

"A linguagem dele melhorou muito. Tem que atacar porque Bolsonaro não é apenas um partidário de um governo militar, ele é o partidário dos extremistas do governo militar. É preciso entender o que está se passando no País. E eu acho que o Haddad tem respondido bem", analisou em entrevista ao HuffPost Brasil.

HuffPost Brasil
Gráfico Twitter

Logo após o resultado do 1º turno, a campanha petista apostou em traçar a estratégia do que chamou de "frente ampla em defesa da democracia".

Depois, a narrativa predominante nos tuítes foi a de que Bolsonaro mente em seus discursos.

A comunicação da candidatura petista enfrentou dificuldades em criar um contraponto eficiente à narrativa do candidato do PSL, já que Bolsonaro diminuiu a sua exposição ao cancelar a participação nos debates. O convite ao diálogo se tornou, então, uma bandeira de Haddad, mas com um tom morno.

Outro ponto de destaque nos tuítes foi a tentativa de Haddad em desconstruir a ideia de que ele estaria distribuindo material de cunho sexual para crianças em escolas públicas. A informação falsa de que o petista criou o chamado "kit gay" foi decisiva para votos de alguns evangélicos, de acordo com a BBC.

Uma semana após a eleição, os ataques a Jair Bolsonaro passaram a ser mais diretos nos tuítes do petista.

E ficaram ainda mais fortes a pouco mais de 10 dias do segundo turno. No dia 16 de agosto, o petista chegou a responder diretamente um tuíte de Bolsonaro, iniciando um confronto virtual.

Após a publicação de uma reportagem da Folha de S. Paulo, segundo a qual empresas estariam financiando a divulgação de mensagens por WhatsApp contra o PT, o tema dominou o Twitter de Haddad por três dias. Neste período, não foi registrada nenhuma postagem sobre propostas no perfil do petista.

Na última semana, Haddad endureceu ainda mais o tom contra o seu opositor, passando a chamá-lo de "soldadinho de araque" e de ameaça a quem pensa diferente.

Para Ruy Fausto, contudo, a mudança de tom veio tarde e, provavelmente, o partido não terá tempo hábil para reverter os votos que o distancia da Presidência.

"Ele fez uma autocrítica, mas não foi tão longe quanto eu gostaria. Porém, o PT errou em associar a imagem de Haddad à de Lula. Ao mesmo tempo que o ex-presidente tem muito prestígio, também tem uma enorme rejeição. Quem não gosta do Lula não vota no Haddad. O PT acabou por entrar no jogo do seu adversário."