25/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 25/10/2018 00:00 -03

Bianca Tourinho, a artesã baiana que leva o Nordeste para o mundo

Artesã encontrou no seu trabalho uma forma de ganhar dinheiro e espalhar amor: "Não quero ter que dizer a ninguém o propósito do meu trabalho. Isso deve ser sentido", afirma ao HuffPost Brasil.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Bianca Tourinho é a 232ª entrevistada do

Se simplicidade tivesse um nome, seria Bianca Tourinho, e teria um amor imenso por feiras livres e sandálias de couro. Nascida em Salvador, ela, hoje com 40 anos, começou sua carreira artística no teatro, aos 16 anos. A primeira montagem de que se lembra é uma peça em homenagem a Raul Seixas, a metamorfose ambulante. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Tornou-se professora de teatro infantil, e herdou de seus alunos o apelido de que gosta até hoje: Tia Bia, de conversa leve e humor assertivo. Durante sua vida artística, nunca se acomodou: produziu elencos de peças infantis, deu aulas, apresentou programa de rádio e ainda teve tempo para se casar.

Aos 26 anos, decidiu ter um filho – ao dizer isso, ela olha consternada para Vinícius, hoje um rapazinho, que acompanha a entrevista - e abandonou a faculdade de Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA) para cuidar dele.

Eu não conseguia lidar com os egos no teatro.

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É no "Será que Ornô?", ao lado da Kombi, que Bianca espalha sua arte e as mensagens de amor que vêm com elas.

Além de ser um trabalho que exigia tempo demais para uma pessoa que almejava dedicar-se também à família, o teatro tornou-se para Bianca – a Tia Bia – um lugar de muito acirramento. "Eu não queria mais aquela agonia, aquele egocentrismo... acabei notando que sobrava pouco tempo pra realmente me escutar, ler uma poesia, ouvir uma música, produzir de verdade", lembra.

Então ela resolveu que precisava mudar: o caminho, só o tempo lhe diria. E disse. Enquanto se ocupava de decorar a própria casa ao seu modo – e metendo a mão na massa – ela começou a produzir plaquinhas feitas com sobras de madeira, tinta e muita sensibilidade para captar o mundo. "As pessoas começaram a encomendar as plaquinhas, e eu vi que podia dar certo."

Não quero ter que dizer a ninguém o propósito do meu trabalho. Isso deve ser sentido.

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Ela começou a produzir plaquinhas feitas com sobras de madeira, tinta e muita sensibilidade.

Qual é o propósito a gente não sabe, mas coisa é certa: Tia Bia preza pela simplicidade e pelo amor em seus trabalhos artísticos. E eles correm o mundo. Hoje, além de plaquinhas, ela produz canecas, filtros de barro, camisetas e itens exclusivos de decoração que já carregam a identidade inconfundível da artista e são vendidos no Brasil inteiro e também no exterior. "Eu tenho muitos clientes brasileiros que moram fora e sentem saudades do nordeste. Eles dizem que, decorando seus lares com meu trabalho, se sentem em casa."

Essa recompensa parece ser suficiente para Bianca, uma mulher de sonhos simples, para quem também é simples a felicidade. Seu grande sonho era – além de ter um filho -, comprar uma Kombi. "Pode me oferecer o carro mais caro, não adianta, pra mim só prestam Kombi e Fusca. Os carros mais legais do mundo." E tem como discordar?

Raso é melhor que profundo. No profundo, a gente se afoga...

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
"Estou sempre com o modo artista ativado", afirma Bianca.

Assim a família Tourinho adotou Severina, uma Kombi toda personalizada do jeitinho de Tia Bia. "Eu escolhi com cuidado e customizei. Ela é da família", brinca. Bianca é daquelas pessoas que parecem estar desprendidas de certo culto à perfeição e à sofisticação que muitos universos hoje nos impõem. "Eu gosto mesmo é de sandália de couro. No casamento da minha irmã, vou na Severina e com minha sandália de couro bonita, a que eu uso em ocasiões especiais", continua.

Essa simplicidade se aplica a toda a sua vida: seus alimentos são comprados na feira, direto de quem produz, e preparados à moda nordestina. Suas roupas prezam pelo conforto e seu trabalho só exige um pouco de calma, tintas, madeira e silêncio. A inspiração ela pesca da vida inteira. "Tem inspiração em todo lugar. Eu adoro, por exemplo, me inspirar na feira. Me inspirar ouvindo uma música. Lendo alguma coisa, conversando com meu marido e meu filho... Estou sempre com o modo artista ativado."

Não faço planos para o futuro, mas também não tenho medo do que vem.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Atrás de Bianca está "Severina", uma Kombi toda personalizada que caminha lado a lado com ela.

O que Tia Bia quer dizer com isso fica claro desde as primeiras palavras que se troca com ela: ela prefere o simples, o que não se anuncia, e sobretudo o que carrega em si uma pureza bruta, sem firulas. "A felicidade é muito simples."

Ela conta que não tem pretensão de montar uma loja, porque está bem com a vida que leva. "Eu fico horas no meu ateliêzinho, em paz, produzindo, e depois apresento meu trabalho na internet e vendo. Estou bem assim", garante. Ela não descarta possibilidades, mas preza por manter sua tranquilidade e aquele tempinho extra pra ir à feira e preparar um cuscuz pela manhã.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Nathali Macedo

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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