24/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 24/10/2018 11:24 -03

Mila Petrillo, a fotógrafa que inverteu as lentes para ensinar a olhar para dentro

Ela se divide entre o trabalho que é referência na fotografia do Brasil e como professora de meditação em um refúgio no meio da Chapada dos Veadeiros.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Mila Petrillo é a 231ª entrevistada do

O instante, a espera, o olhar, o tempo que não existe. Tudo isso pode ser encontrado tanto no frame de uma foto, quanto na pausa dos pensamentos. Duas coisas que marcam a vida e o propósito de Mila Petrillo, 60 anos. Se por um lado ela é a fotógrafa que registrou a cena cultural efervescente de Brasília nos anos 80, que fotografou figuras como Renato Russo, Cássia Eller e Athos Bulcão, e é referência no registro de projetos sócio-educativos para importantes organizações, do outro ela também é conhecida como Niranjana. Com o nome que recebeu como discípula de Osho, ela também é professora de práticas meditativas e promove retiros espirituais na casa onde vive, no pequeno vilarejo do Moinho, na Chapada dos Veadeiros. Lá, em silêncio, se escuta apenas o ruído da água do rio e dos passarinhos.

Atualmente Mila é essa profissional que busca o equilíbrio entre o olhar exterior e a busca pela paz interior. É ali, num Jardim quase encantado, com cerca de 400 imagens de Budas de todas as formas e tamanhos (presente de cada visitante que passou pela sua casa) que ela conta sua história à reportagem do HuffPost Brasil. A vida de Mila sempre foi voltara para a arte. Na época em que as TVs eram preto e branco e as propagandas ainda eram feitas com película, ela circulava pela produtora de cinema dos pais e via magia em tudo. "Quando criança eu meus irmãos pegávamos a câmera de 16 mm e fazíamos alguma coisa, tudo era brincadeira. A gente sempre foi apaixonado por cinema e por imagem", relembra.

Quando eu tinha 14 anos vi o filme Blow Up, do Antonioni, ele me tocou de tal maneira que ali decidi que precisava ser fotógrafa.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Paralelo à carreira de fotógrafa, ela começou a se aprofundar espiritualmente e na meditação.

"Eu achava que ser fotógrafa era lindo. Mas também queria ser pintora ou dançarina", diz e solta uma risada. "Enfim, queria alguma coisa nas artes". Ela teve a primeira filha com 18 anos, e se deparou com a decisão do que fazer profissionalmente. "Eu sabia desenhar mais ou menos, mas o que mais fazia era fotografar. Então comecei a fazer fotografia de cenas e still para o cinema". Ela foi morar em Goiânia e passou também a fazer reprodução de obras de arte, que tinha uma cena forte nas artes plásticas na época. Logo depois ela foi parar no jornalismo.

Em 1982, Mila era fotógrafa do caderno de cultura do Correio Braziliense, de Brasília. "Foi um experiência incrível. Era um caderno diário de 12 páginas e tinha pouca foto de divulgação na época, então eu trabalhava de três a quatro noites por semana e muito no fim de semana. Foi uma época de muito crescimento pra mim", conta. Ela acabou conhecida no meio artístico e circulava em toda cena cultural da capital federal na época. "Tinham poucas mulheres na época, mas uma circulação de fotógrafos muito maior do que a existe hoje. Trabalhava muito, mas gostava daquilo. E lembro de poder levar minhas filhas também, falava: 'hoje vamos matar aula' e elas iam comigo pra redação".

É mais fácil fotografar espetáculos porque a luz, as coisas já estão prontas, então pra fazer alguma coisa diferente e única eu precisava fazer um esforço criativo.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Na Índia, Mila conheceu Osho e se formou treinadora e professora de meditação. Assim, recebeu o nome de Niranjana.

Quando saiu do jornal em 89 passou a trabalhar como freelancer e colaborar como revistas. "Acho que eu nunca tive carteira assinada", aponta. Nos anos 90 foi chamada para fazer a cobertura fotográfica do Projeto Axé e sentiu que sua carreira na fotografia mudaria de rumos. "Fiquei completamente apaixonada por aquilo que eu estava vendo ali, era um recorte muito duro da situação da infância e de ver a beleza que era dos educadores com aqueles meninos. Dentro de um espaço onde a arte tinha um poder transformador". Depois de trabalhar no projeto ela começou a buscar outros trabalhos na área social e não parou mais. Trabalhou em agências de cooperação da ONU, e em outras instituições, e teve o trabalho premiado.

A arte é o que, de fato, educa. É a transformação do ser.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Mila trabalha com técnicas de meditação dinâmica, não apenas a tradicional de "esvaziar a mente".

Paralelo à carreira de fotógrafa, ela começou a se aprofundar espiritualmente e na meditação. Em 1989, foi para a Índia e conheceu Osho. "Tive a sorte de fotografá-lo um ano antes dele deixar seu corpo. Foi um outro ponto de mutação na minha vida, onde meditar foi tomando cada vez mais espaço". Em 2005, Mila conheceu sua guru Amma Bhagavan. "Logo depois meu marido, Bhaskar, que também era jornalista, estava passando por um processo espiritual forte e resolvemos ir pra Índia fazer uma formação, na mesma época um amiga nos ofereceu um terreno para comprar no Moinho, perto de Alto Paraíso, compramos e só depois quando voltei de viagem conheci". Tudo se alinhou pra que aquele espaço fosse um centro de meditação e a nova moradia dos dois. Ela acabou fazendo uma formação como treinadora e professora de meditação e recebeu o nome de Niranjana.

Hoje em dia eles viajam pela América Latina e pelo Brasil para dar seu cursos e ficam apenas uma média de quatro meses por ano na Chapada. "Não abandonei a fotografia, mas não faço mais o varejo. Faço apenas os projetos maiores e sociais, alguns livros e algumas amostras", conta. Recentemente, ela fez uma exposição com as suas fotografias no Festival de Cinema de Brasília. Ela agora está tentando passar suas fotos analógicas para o digital e montar seu acervo que tem mais de 350 mil frames não editados.

A gente não é habituado a fechar os olhos ou parar, e apenas observar.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Quando saiu do Correio Braziliense em 89, passou a trabalhar como freelancer e colaborar com revistas como freelancer.

Mila trabalha com técnicas de meditação dinâmica, não apenas a tradicional de esvaziar a mente. "Vários mestres desenvolveram nos últimos 10 mil anos formas de meditar. Osho quis trabalhar com técnicas que pudessem atingir os ocidentais que já tem a mente acelerada. Existem várias linhas diferentes, inclusive as meditações que a gente cria. É super bonito de ver o processo de transformação que acontece quando encontramos isso".

Estou num momento que me sinto super bem e energética. E ainda quero crescer ainda mais.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Atualmente Mila é essa profissional que busca o equilíbrio entre o olhar exterior e a busca pela paz interior.

Ela conta que quando a filha mais nova era pequena, ela costumava a ler o livro Nem água, nem lua, do Osho, em que ele conta dez histórias zen. "Eu lia, e ela devia ter uns cinco anos e ela me disse: 'mamãe, eu entendi o que é iluminação, é uma espécie de se tocação (sic)'. Ela inventou uma palavra, mas era isso mesmo. A gente se toca que temos uma quantidade de carga desnecessária na vida", aponta. E é exatamente com esta leveza que Mila vive, indo e vindo, e fazendo o que gosta todo o tempo. "E quero crescer ainda mais nas duas coisas que eu faço, tanto na medicina quanto na fotografia".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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