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24/10/2018 08:29 -03 | Atualizado 24/10/2018 09:04 -03

Fascismo no Brasil? Especialistas analisam retórica de Jair Bolsonaro

Pesquisa pelo termo 'fascismo' no primeiro turno foi recorde em 14 anos.

Nacho Doce / Reuters
Especialistas analisam se retórica de Jair Bolsonaro é fascista.

"De todas as perguntas não respondidas sobre nossa época, talvez a mais importante seja: 'O que é fascismo?'"

A frase acima foi escrita pelo jornalista britânico George Orwell em um ensaio publicado na década de 1940, mas segue atual. Às vésperas do segundo turno que escolherá o próximo presidente do País, e diante de declarações de cunho autoritário do candidato que lidera as pesquisas de intenção de voto, a curiosidade dos brasileiros sobre o tema só tem crescido.

As buscas no Google sobre fascismo aumentaram exponencialmente no último mês, e atingiram o seu pico em 7 de outubro, quando ocorreu o 1º turno das eleições - neste dia, a procura bateu o recorde e foi 10 vezes maior do que a média de buscas sobre o tema nos últimos 14 anos. Ao lado da palavra, o termo "Jair Bolsonaro" foi um dos mais pesquisados na data.

A grande discussão é se Bolsonaro pode ser enquadrado, de fato, como fascista.

O histórico do deputado não conta a favor. Ele já defendeu publicamente o fuzilamento de petistas e, no último domingo, sugeriu exílio ou cadeia para opositores. Exalta a ditadura militar e torturadores e já deu declarações preconceituosas sobre mulheres, LGBTs e negros.

Para o cientista político João Roberto Martins Filho, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), um dos pontos de comparação do discurso de Bolsonaro com o fascismo e o nazismo é a existência de "um espantalho para quem endereçar todo o mal". "No caso deles era o comunismo, no nosso, é o ódio ao PT alimentado por grande parte da população."

O professor da Universidade Federal da Bahia Wilson Gomes, por sua vez, diz considerar que Bolsonaro têm "muitas ideias fascistas", mas que não há 49 milhões de fascistas no País — quantidade de eleitores do candidato do PSL no primeiro turno.

Paulo Henrique Cassimiro, cientista político e pesquisador da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, contudo, afirma que "reduzir a ideia da candidatura de Bolsonaro ao fascismo é empobrecedor" e "serve para impedir um debate sobre o que estamos vivendo".

Leia abaixo as opiniões dos três especialistas consultados pelo HuffPost Brasil.

Bolsonaro é fascista?

João Roberto Martins, professor da Universidade Federal de São Carlos e autor do livro Movimento estudantil e ditadura militar

"Nós temos que usar o termo fascista porque só esse termo dá conta do risco que parece ameaçar a democracia brasileira hoje com a candidatura do Bolsonaro. Se nós subestimarmos esse risco, podemos estar despreparados para o que pode vir a acontecer no futuro.

Ele é uma pessoa que passou a sua carreira política elogiando a tortura e a ditadura militar, falando que é necessário um novo golpe de Estado e que, nesse golpe, devem morrer 30 mil pessoas e que a tortura é legítima. É evidente que essas ideias são completamente contrárias à nossa Constituição. E o risco se torna maior porque as forças que esse candidato está mobilizando concordam com essas ideias.

Tanto o fascismo quanto o nazismo surgiram quando havia um espantalho para quem endereçar todo o mal. No caso deles era o comunismo; no nosso, é o ódio ao PT alimentado por grande parte da população. É uma combinação explosiva e não sabemos muito bem em que isso vai dar. Por isso que há temores justificáveis de que essa candidatura possa levar a um regime autoritário e a um rompimento da ordem democrática."

Nós temos que usar o termo fascista porque só esse termo dá conta do risco que parece ameaçar a democracia brasileira hoje.

Paulo Henrique Cassimiro, cientista político e pesquisador da UERJ

"É exagero dizer que existem elementos fascistas no discurso político do Bolsonaro? Não. Mas o Bolsonaro é a mistura de muitas coisas. Não dá para achar que ele é simplesmente uma reprodução de um fascismo. Eu acho que o termo tem que ser usado com muito cuidado. Reduzir a ideia da candidatura de Bolsonaro ao fascismo é empobrecedor e serve para impedir um debate sobre o que estamos vivendo.

Por exemplo, no Bolsonaro há um certo conservadorismo de costumes, que nunca teve representantes políticos com muita expressão aqui no Brasil. Ele é o estereótipo de uma certa ideologia militar brasileira que existe desde o tenentismo e que acredita que o Exército é o grande guardião do País. Ele age para 'recuperar' a República diante de uma classe política corrupta.

Além disso, o discurso do Bolsonaro é uma coisa e o dos seus aliados é outra, e ninguém sabe como será o seu governo, se eleito. Além do elemento militar, você tem a junção com um certo modelo econômico neoliberal, que não é exatamente o que o fascismo colocou em prática.

O uso do conceito de fascismo tem que ser muito cuidadoso e muito criterioso. Dizer que Bolsonaro é fascista é uma simplificação de um fenômeno que é muito complexo. Não podemos atribuir a sua candidatura a um único conceito que não descreve com perfeição a nossa realidade, apesar de ajudar a ilustrá-la. Então, há elementos fascistas no discurso do Bolsonaro, mas somente o fascismo não explica o que está acontecendo no Brasil de hoje."

Reduzir a ideia da candidatura de Bolsonaro ao fascismo é empobrecedor e serve para impedir um debate sobre o que estamos vivendo.

Wilson Gomes, professor da UFBA e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital

"Continuo achando que Bolsonaro é um candidato com muitas ideias fascistas. Não acho que o Brasil tenha 49 milhões de fascistas. Acho que um bom percentual dos apoiadores de Bolsonaro têm ideias e atitude fascistas, necessitando apenas de mudança nas circunstâncias para passarem ao comportamento fascista.

Este conjunto de bolsonaristas hardcore vem dos ambientes sociais de militância homofóbica, machista, contra direitos humanos, que não gosta dos limites do Estado de Direito. Por exemplo, querem acabar com audiências de custódia porque querem uma "excludente de ilicitude" para policias militares em serviço. Tem também os que desde 2013 reivindicam intervenção militar, estão há muito fazendo revisionismo histórico da ditadura militar, são anticomunistas - mesmo sem haver comunismo à vista no Brasil - e têm grande simpatia por regimes autoritários de direita.

Como vê, há um contingente expressivo de mentalidade fascistoide no bolsonarismo. Na minha opinião, eles são os primeiros bolsonaristas - aos quais se agregaram os antipetistas e antipolítica de todos os tons - e constituem o seu núcleo, o hardcore. Hoje eles me assustam mais que o próprio deputado em um eventual governo Bolsonaro. Estão muito articulados e mobilizados. Para formarem milícias "anticomunista" ou para agredir, humilhar e ofender homossexuais é um passo."

Os apoiadores hard core de Bolsonaro me assustam mais, em um eventual governo, que o próprio deputado.

O que é o fascismo?

O fascismo é um movimento que surgiu na Europa no século 20 e cresceu principalmente na Itália, quando Benito Mussolini chegou ao poder por meio do Partido Fascista, no final da 1º Guerra Mundial.

O regime fascista italiano sobreviveu até o momento em que a Itália foi derrotada na 2ª Guerra Mundial. Durante o período de 21 anos, o fascismo foi a denominação do regime político italiano que se definia como antiparlamentar, antidemocrático, antiliberal e antissocialista.

Após esse período, alguns outros regimes foram chamados de fascistas por associação, como por exemplo o regime de Antonio Salazar, em Portugal, e o de Francisco Franco, na Espanha.

O movimento político fascista italiano definiu-se por ter um líder de extrema direita, apesar de a carreira política de Mussolini ter sido iniciada no partido socialista. Por ter sido concebido em um momento posterior à 1ª Guerra, as ideias extremamente nacionalistas soavam como uma resposta à devastação que alguns países tinham sofrido no conflito.

O fascismo também é populista por definição. O movimento tem na figura carismática a solução de todos os males. No fascismo, a nação é entendida como uma unidade de valores, dada pela identidade e não pela diferença.

Nesse tipo de regime, entende-se que os valores tradicionais estão em risco porque existe algum agente político que se movimenta de maneira oculta na sociedade, corrompendo o sistema e corroendo os valores que dão autenticidade para o povo.

Outro elemento do fascismo é o uso da violência como meio de lidar com conflitos.

"O adversário não é alguém que tenha uma pauta política legítima que possa ser disputada no espaço público democrático. Ele é um inimigo", explica Paulo Henrique Cassimiro, da UERJ.

Os alvos do fascismo, na época, passaram a ser os movimentos considerados comunistas. Na Itália, registrou-se a organização de milícias disciplinadas que lideravam o uso da violência, como o grupo que ficou conhecido de "Camisas Negras"

Para o filósofo americano Jason Stanley, autor de How Fascism Works: the Politics of Us and Them (sem tradução em português), o fascismo não é uma ideologia, mas um método de "fazer política" baseado na produção de mentiras que atrapalham a compreensão da realidade.

George Orwell, em sua obra, é mais cauteloso em sua descrição: "tudo que se pode fazer no momento é usar a palavra com certa medida de circunspecção e não, como em geral se faz, degradá-la ao nível de um palavrão".

É possível existir regime fascista em 2018?

Após a experiência italiana, o conceito de fascismo passou a ser usado de forma imprecisa para designar regimes, ideias e movimentos de direita.

De acordo com o cientista político João Roberto Martins, da UFSCar, fala-se muito mais em tendências fascistas porque a descrição do fascismo é mais ampla do que nazismo, por exemplo.

"Hoje em dia, aceita-se que há um renascimento do fascismo em novas formas. Ele está reaparecendo em eleições dentro de democracias por meio de líderes que têm ideias parecidas com as do Mussolini", diz Martins.

"Até aí, as democracias sólidas, como as do Estados Unidos, conseguem resistir de alguma forma a certas ascensões como a do Trump, que é nacionalista e reacionário, mas não propôs um partido único no País. Porém, como quem sofreu de fato com o fascismo foram os europeus, eles têm verdadeira paranoia com o ressurgimento de líderes que flertam com tendências fascistas."