23/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 23/10/2018 00:00 -03

Manu Mendes, a modelo plus size que é militante do amor próprio

Aos 33 anos, funcionária pública foi descoberta como modelo e hoje sonha em influenciar mais mulheres gordas a aumentarem sua autoestima.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Manu Mendes é a 230ª entrevistada do

A jovem Manu Mendes tinha um sonho: formar-se na universidade, ser aprovada em um concurso público e ali trabalhar por todos os dias até a aposentadoria. Estabilidade financeira, sem grandes exposições... mas não foi o que aconteceu. Quem a conhece hoje, com seus longos cabelos cor de mel, consegue entender porque a vida deu uma de suas reviravoltas e mudou a Manu de lugar. Hoje, aos 35 anos, ela tem um diploma e é funcionária pública, como nos velhos sonhos, mas também é modelo plus size. Essa nova carreira começou há apenas dois anos, mas se depender de Manu, ainda irá durar por muito tempo.

Diferentemente do seu planejamento inicial, a carreira como modelo começou "sem querer". Sempre magra, Manu engordou depois da sua gravidez do seu filho, hoje com 11 anos. Com o fim da amamentação coincidindo com o divórcio, ela viu o peso aumentar rapidamente e, naquele momento, teve que descobrir como conviver, dali em diante, com tantas novidades: ser mãe, solteira e também gorda.

Tem dias em que eu acordo e me sinto horrorosa, querendo fazer dieta.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, aos 35 anos, ela tem um diploma e é funcionária pública, como nos velhos sonhos, mas também é modelo plus size.

Quando seu filho já tinha 9 anos, depois de participar de muitos fóruns sobre aceitação na internet, a carioca publicou uma foto. Nos comentários, uma amiga marcou um fotógrafo conhecido que, encantado por Manu, a convidou para fazer novas fotos. Sem nunca ter feito curso de modelo, as primeiras fotos de Manu foram um sucesso: "Na semana seguinte já tinha gente me chamando para fazer fotos. Fiz um catálogo, e a partir daí comecei a receber convites de uma loja depois da outra. Também me chamaram para desfilar no Fashion Week Plus Size", conta a modelo, que nunca mais parou.

Hoje Manu acumula mais de 20 mil seguidores na internet, tem vários contratos fechados com lojas plus size e outras empresas, mas gosta de ressaltar que poderia estar "muito mais longe" se não fosse o preconceito. Além de gorda, Manu é negra e não deixa de sugerir discussões sobre racismo em suas redes sociais. A atitude, diz ela, fez com que muitas empresas a definissem como "militante demais" e pedissem que ela escolhesse entre pautar questões de raça ou fechar trabalhos. "Você pode imaginar o que eu escolhi, não é?", diz a moça, que a todo tempo escreve textos direcionados à mulher negra e o desenvolvimento de uma boa autoestima.

Dentro do plus size tem muito preconceito ainda com as modelos mais gordas.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
A carreira começou há apenas 2 anos, mas se depender de Manu, ainda irá durar por muito tempo.

Ser agente de mudança da autoestima de outras mulheres pode ser um fardo muito pesado para carregar. Manu conta à reportagem do HuffPost Brasil que a sua própria aceitação sofre alguns baques. "É um processo diário. Tem dias em que eu acordo e me sinto horrorosa, querendo fazer dieta. É uma luta diária. Hoje eu me considero linda, acho meu corpo maravilhoso", conta. E completa que, ao longo desse tempo como modelo plus size, tem rompido outras barreiras de padrão de beleza.

"Eu já sou uma das modelos mais gordas. As que mais trabalham vestem manequim 44 ou 46, não têm barriga. Algumas têm até lipo, e elas são as mais valorizadas. Marcas grandes têm um padrão de modelo até para as plus size. Temos uma outra modelos com manequins maiores, mas é raro. Dentro do plus size tem muito preconceito ainda com as modelos mais gordas. Gorda e negra, então, o preconceito é maior ainda", analisa Manu.

Fico tentando entender o que leva as pessoas a ofenderem alguém que não conhece só porque a pessoa tem a sua autoestima elevada.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"É um processo diário. Tem dias em que eu acordo e me sinto horrorosa, querendo fazer dieta."

Mesmo assim, ela continua a perseguir a carreira. Recentemente, publicou uma foto sem qualquer alteração, mostrando as marcas em sua barriga e mais de cinco mil pessoas compartilharam. Muitos comentários positivos, mas alguns comentários negativos a modelo interpreta como "projeção": rejeitam no outro aquilo que não conseguem ter, no caso uma autoestima elevada.

"Dizem: 'Como tem coragem de dizer que uma barriga dessa é bonita?'. É ódio gratuito, as pessoas não ganham nada, não me conhecem. Fico tentando entender o que leva as pessoas a fazerem isso com alguém que não conhece, só porque a pessoa está bem, só porque a pessoa tem a sua autoestima elevada", afirma Manu.

Na contramão dos comentários maldosos, ela já encontrou muitas pessoas que foram, literalmente, salvas pelas suas doses diárias de incentivo ao amor próprio. "Recebo mensagem de meninas dizendo que estavam mal, pensando em se matar, mas que mudaram de ideia ao me acompanhar, porque foram ajudadas pelas minhas fotos e por verem que é possível se amar mesmo acima do peso ideal. Isso me fortalece a continuar."

Recebo mensagens de meninas gordas dizendo que pensavam em se matar, mas mudaram de ideia ao me acompanhar.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Recebo mensagem de meninas dizendo que estavam mal, pensando em se matar, mas que mudaram de ideia ao me acompanhar."

Tanto reconhecimento entre jovens fora do padrão imposto de beleza também gera muitas cobranças. Manu destaca que, em alguns momentos, a promoção do amor próprio pode ser confundida com obrigações. "Já aconteceu de eu querer fazer uma dieta e algumas meninas reclamarem. Eu costumo falar que não assinei contrato para ser gorda ou magra. A gente tem que ser apaixonado pela gente independentemente do peso que está. Se você conhece uma pessoa que fala que só namora contigo se você emagrecer, ela não gosta de você de verdade. Então o amor que a gente tem pela gente não depende de ser magra ou gorda. Você pode se amar mais do que tudo e ainda assim querer emagrecer, mas você não tem que condicionar seu amor a estar magra ou gorda", afirma.

Pontuais, essas reclamações sobre a forma como Manu conduz sua vida, ou eventual regime, não ofuscam a importância do seu trabalho nem abalam sua relação com as seguidoras. Um projeto que ela criou depois de tornar-se modelo plus size é o Bem Plena. Nele, ela presenteia uma menina com autoestima baixa com um dia de modelo. A escolhida ganha roupas, maquiagem, tira fotos e consegue reconhecer no espelho a beleza que sempre esteve ali, mas nunca conseguiu enxergar. A última participante, conta Manu, abriu sua própria loja de roupas plus size. Como numa corda, umas puxam as outras rumo à libertação dos padrões de beleza.

A gente tem que ser apaixonado pela gente independentemente do peso que está.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Temos que educar as crianças para que elas vejam que ser gordo não é ruim."

E esse é o objetivo de Manu, na sua carreira: continuar influenciando meninas positivamente, a aceitarem seus corpos e não se curvarem aos padrões. Se já avançamos no combate à gordofobia? Manu acredita que sim, mas o caminho ainda é longo.

"As pessoas vêm com o discurso de estarem preocupadas com a saúde, mas não é isso. O que a gente vê é que o preconceito está enraizado mesmo, como o racismo: é da estrutura da nossa sociedade", pontua. E completa: "Temos muito trabalho pela frente, e temos que começar pelas crianças. Temos que educar as crianças para que elas vejam que ser gordo não é ruim. Não é apologia à gordura, não é que a pessoa tenha que ser gorda e nunca se cuidar. Se a pessoa quiser emagrecer, ela tem que fazer isso, mas não emagrecer para agradar aos outros. Se você está bem com o seu corpo, não tem que se adequar ao que outras pessoas estão dizendo", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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