POLÍTICA
22/10/2018 20:35 -03 | Atualizado 22/10/2018 21:55 -03

Bolsonaro está antecipando perseguição semelhante à da ditadura, diz especialista

Candidato disse que esquerdistas devem ir 'para fora ou para a cadeia' se for eleito; FHC também condena a fala.

"Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria", disse Jair Bolsonaro.
Ricardo Moraes/Reuters
"Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria", disse Jair Bolsonaro.

Em uma transmissão ao vivo para milhares de eleitores que lotaram a avenida Paulista neste domingo (21), Jair Bolsonaro, candidato do PSL à Presidência, disse que os "marginais vermelhos serão banidos" do País com sua eventual vitória nas urnas.

"Perderam ontem, perderam em 2016 e vão perder semana que vem [2º turno] de novo. A faxina agora será muito mais ampla. Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria", afirmou Bolsonaro, por meio de um telão.

"Eu vou cortar todas as mordomias de vocês. Vocês não terão mais ONGs pra saciar a fome de mortadela", continuou. "Bandidos do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] e MTST [Movimento dos Trabalhadores Sem Teto], as ações de vocês serão tipificadas como terrorismo."

As declarações que sugerem exílio ou cadeia para opositores foram dadas a uma semana do segundo turno das eleições, e pesquisas mostram que Bolsonaro tem larga vantagem em relação ao seu adversário, Fernando Haddad (PT).

"Ele está antecipando uma perseguição semelhante à que houve na ditadura às pessoas que se identificavam com as esquerdas. Na ditadura havia inclusive o lema 'Brasil, ame-o ou deixe-o'. Nós estamos retornando a essa ideia autoritária, que expressa intolerância e tenta criminalizar o pensamento de esquerda", afirma o criminalista Cristiano Maronna, presidente do IBCCRIM (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais).

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) criticou nesta segunda-feira (22) a fala de Bolsonaro. "Inacreditável: um candidato à Presidência pedir às pessoas que se ajustem ao que ele pensa ou pagarão o preço: cadeia ou exílio. Lembra outros tempos."

Para o cientista político Frederico de Almeida, professor da Universidade de Campinas (Unicamp), esse tipo de declaração às vésperas da eleição evidencia o discurso autoritário do candidato do PSL.

"Muita gente vota no Bolsonaro dizendo que essa parte do discurso dele não deve ser levada a sério. Temos que levar a sério, sim. Ele está dizendo claramente o que pretende fazer", diz o professor. "Ele tenta se desvencilhar da imagem de autoritário e de que defende a ditadura, diz que são declarações de tempos passados, mas quando diz isso para seus apoiadores a uma semana da eleição, ele mostra que esse é o discurso real dele."

Para Almeida, caso Bolsonaro seja eleito, o Brasil corre o risco de experimentar um retorno à ditadura, ainda que não necessariamente no modelo como nós a conhecemos. "Devemos ficar de olho em experiências autoritárias que acontecem agora, neste momento, por líderes eleitos que avançam sistematicamente na redução de direitos e garantias democráticas. O caso da Turquia é bastante evidente, da Rússia, das Filipinas", pontua.

Para Maronna, a "democracia, como valor, não penetrou na cultura brasileira". "Agora um candidato com um programa claramente antidemocrático parece ter conquistado a maioria do eleitorado e vai chegar ao poder pela via do voto. Ele prega a ditadura e vai chegar ao poder pela via do voto democrático, é um grande paradoxo", afirma Maronna.

Essa não é a única declaração do candidato do PSL que põe em xeque valores democráticos. Relembre:

INTOLERÂNCIA À OPOSIÇÃO

Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre. Já que gosta tanto da Venezuela, essa turma tem de ir para lá.

Contexto: Discurso no centro de Rio Branco em que simulou disparar tiros contra eleitores do PT, em 2 de setembro de 2018. Depois, o candidato disse ter usado uma figura de linguagem. "Existe uma figura de linguagem, hipérbole. Foi usada. Nada mais além disso. Qual o problema? Ninguém quer matar ninguém, não", justificou.

Para o crime que ele [FHC] está cometendo contra o País, sua pena deveria ser o fuzilamento.

Contexto: Discurso feito em 1999, durante solenidade no Clube da Aeronáutica. Hoje, Bolsonaro afirma que usou uma expressão e que fazia referência ao avô de FHC, que defendia que a família real deveria ser fuzilada caso resistisse ao exílio.

TORTURA

O erro da ditadura foi torturar e não matar.

Contexto: Entrevista à rádio Jovem Pan, em junho de 2016.

Pau-de-arara funciona. Sou favorável à tortura, tu sabe disso. E o povo é favorável também.

Contexto: Entrevista ao programa Câmera Aberta, na TV Bandeirantes, em 1999. O candidato se referia ao fato de Chico Lopes, ex-presidente do Banco Central, ter ficado calado em uma reunião de CPI.

FECHAMENTO DO CONGRESSO

A atual Constituição garante a intervenção das Forças Armadas para a manutenção da lei e da ordem. Sou a favor, sim, de uma ditadura, de um regime de exceção, desde que este Congresso dê mais um passo rumo ao abismo, que no meu entender está muito próximo.

Contexto: Discurso feito na Câmara dos Deputados, em junho de 1999. No dia anterior, Bolsonaro defendeu em uma entrevista que o Congresso deveria ser "congelado" temporariamente. Ele reclamou que havia leis demais e que os parlamentares eram despreparados. De acordo com o seu filho Flávio Bolsonaro, o pai usou uma força de expressão que foi levada ao pé da letra, e que não significava que o Congresso deveria ser realmente fechado.

DITADURA

Não há a menor dúvida. Daria golpe no mesmo dia, no mesmo dia. Não funciona, e tenho certeza que pelo menos 90% da população ia fazer festa e bater palma. Aquilo não funciona.

Contexto: Durante programa na TV Bandeirantes, em 1999, o candidato disse que fecharia o Congresso caso fosse eleito presidente da República. Hoje, ele diz que a fala se deu em um momento de "indignação".

"Nunca preguei intervenção militar. Só em situação de caos e dentro do que diz a Constituição", explicou.

VOTO x 'GUERRA CIVIL'

Através do voto você não vai mudar nada neste País. Nada, absolutamente nada. Você só vai mudar, infelizmente, quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro [...]
[...] E fazendo o trabalho que o regime não fez, matando uns 30 mil. Começando com o FHC. Não vamos deixar ele de fora, não. Se vai morrer uns inocentes, tudo bem. Em tudo quanto é guerra morrem inocentes.

Contexto: Ainda durante o mesmo programa na TV Bandeirantes, em 1999.

Nomes próximos do candidato também fizeram declarações semelhantes

CONSTITUIÇÃO

Já tivemos vários tipos de Constituição que vigoraram sem ter passado pelo Congresso eleito. General Hamilton Mourão.

Contexto: Durante evento de campanha em setembro de 2018, o vice de Jair Bolsonaro, General Hamilton Mourão, defendeu que o Brasil precisa de uma nova Constituição, mas que não necessariamente passe por uma Assembleia Constituinte. Após a fala do general, Bolsonaro disse que faltou "tato" ao vice: "Falta ao general ainda um pouco de tato, convivência com a política e ele rapidamente se adequará à realidade brasileira e à função tão importante que é a dele."

AUTOGOLPE

O próprio presidente é o comandante-chefe das Forças Armadas, ele pode decidir isso. Ele pode decidir empregar as Forças Armadas. Aí você pode dizer: "mas isso é um autogolpe". É um autogolpe. Já houve em outros países, né? Aqui nunca houve.General Hamilton Mourão

Contexto: Em entrevista à GloboNews em setembro de 2018, o vice de Jair Bolsonaro afirmou que, em situação de anarquia, poderia haver um "autogolpe" por parte do presidente com o apoio das Forças Armadas.

Quando o Titanic afundou, a orquestra ficou tocando, não fez nada. Então, as Forças Armadas não podem ficar tocando e o Titanic afundando.

Contexto: Entrevista ao HuffPost Brasil, em setembro de 2018, na qual o vice de Jair Bolsonaro usou a expressão sobre o Titanic para explicar a declaração sobre o "autogolpe".

STF

Cara, se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Você não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo. Não é querer desmerecer o soldado e o cabo, não [...]
[...] O que é o STF? Tira o poder da caneta de um ministro do STF. Se prender um ministro do STF, você acha que vai ter uma manifestação popular a favor do ministro do STF, milhões na rua?Eduardo Bolsonaro

Contexto: Discurso para estudantes de Cascavel, no Paraná, gravado em julho de 2018. De acordo com Jair Bolsonaro, as falas do filho foram tiradas de contexto: "Isso não existe, falar em fechar o STF. Se alguém falou em fechar o STF, precisa consultar um psiquiatra."

Ataques à democracia, contudo, também já foram registrados do lado do PT. Veja:

JUSTIÇA

Se eles não me prenderem logo, quem sabe eu mando prendê-los.Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Contexto: Pronunciamento durante o 6º Congresso do PT, em maio de 2017, em referência à atuação da Operação Lava Jato.

COXINHAS

Domingo eu vou ficar um pouco escondido, porque vai ter um monte de peão na porta de casa pra bater nos coxinhas. Se os coxinhas aparecerem, vão levar tanta porrada que eles nem sabem o que vai acontecer.Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Contexto: Conversa em 2016 com o seu irmão Genival Inácio da Silva, em ligação interceptada pela PF, sobre a resistência organizada em frente ao prédio do petista, em São Bernardo do Campo.

HITLER

O Hitler, mesmo errado, tinha aquilo que eu admiro num homem, o fogo de se propor a fazer alguma coisa e tentar fazer.Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Contexto: Entrevista à revista Homem, da editora Abril, em julho de 1979, que posteriormente passou a ser a edição brasileira da Playboy.

PODER

Acho improvável que o Brasil caminhará para um desastre total. Na comunidade internacional isso não vai ser aceito. E dentro do País, é uma questão de tempo pra gente tomar o poder. Aí nós vamos tomar o poder, que é diferente de ganhar uma eleição.José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil

Contexto: Entrevista ao El País, em setembro de 2018, na qual Dirceu falou sobre um possível governo de Jair Bolsonaro.