21/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 21/10/2018 00:00 -03

Nívia Salgado, a cinegrafista que escolheu uma carreira 'proibida' para mulheres

Ela enfrentou muito preconceito até se tornar uma prestigiada repórter cinematográfica no Amazonas. “Falaram que eu não tinha porte para carregar câmera, e mostrei o contrário”, conta ao HuffPost Brasil.

Nívia Salgado é a 227ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Nívia Salgado é a 227ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Ela carrega uma câmera com bateria, iluminação e base para o microfone que chega aos 10 quilos mais um tripé de 5 quilos. Se contarem os acessórios, é um total de 18 quilos todos os dias. Se precisar, ainda leva rebatedor e outros equipamentos de filmagem junto. A manauara Nívia Salgado, de 43 anos, desafiou a si própria quando resolveu ser cinegrafista há quase 17 em Manaus. A escolha por uma área dominada por homens até hoje.

O preconceito se mostrou de cara limpa quando a irmã de Nívia foi fazer a inscrição dela em um curso técnico de cinegrafia. "A atendente disse que se eu fosse igual a minha irmã não teria forças para carregar uma câmera e começou a gargalhar", relembra o episódio de 2002.

Para fazer o curso de cinegrafista na instituição que Nívia escolheu, na época, o aluno tinha que passar por um processo seletivo minucioso com profissionais da área. Na entrevista presencial, o recrutador pediu para Nívia ficar de pé. Ele queria ver a altura dela enquanto segurava uma câmera. "Me olhou da cabeça aos pés e disse que eu era muito pequenina para ser cinegrafista e não teria forças para carregar os equipamentos".

Se fosse um homem para exercer a mesma função, talvez o tratamento seria melhor.

IANA PORTO/ESPECIAL PARA HUFFPOST BRASIL
Nívia Salgado, 43 anos, escolheu ser cinegrafista em 2002 e sofreu preconceito antes mesmo de fazer o curso.

Depois desse episódio, Nívia achava que não seria selecionada. Naquele tempo ela trabalhava como assistente administrativo em uma representação comercial. Mas a notícia da aprovação veio duas semanas depois e foi uma surpresa. Ela pediu demissão do emprego em que estava há 8 anos para se dedicar integralmente ao curso pela manhã. Estava decidida pela carreira, e o preconceito tornou tudo ainda mais desafiador.

Era a única mulher de uma turma com 21 alunos homens. Não me acuei.

No segundo módulo da formação, foi confrontada. "Vieram me perguntar se eu queria mesmo fazer cinegrafia e me questionaram se eu sabia que os equipamentos eram pesados." Você não vai suportar as externas, diziam. Perseverou.

Após um ano e meio, a manauara concluiu o curso de cinegrafia. E era chegada a hora do estágio obrigatório em produtoras e emissoras de TV. Foi uma nova fase de aprendizado. E de discriminação. A presença dela já incomodou os câmeras da primeira empresa onde estagiou. "Eu chegava na maior alegria para aprender, e eles diziam para eu esperar dentro do carro."

A revolta cresceu porque a exclusão era permanente. Nívia se encheu de coragem e escreveu uma carta de próprio punho para o presidente da emissora denunciando o comportamento dos colegas. "Muita gente disse que eu ia me prejudicar [com a carta], mas não tive medo. Eu precisava conquistar meu espaço com o mínimo de respeito possível. Aquela foi a forma que encontrei para ter voz", conta, emocionando-se, ao relembrar o que sofreu à época.

Me expus, mas tive que lutar para conquistar meu espaço. Era naquele momento ou nunca mais.

Iana Porto/Especial para HuffPost Brasil
Nívia se emociona ao recordar a discriminação que sofria durante seu 1º estágio.

Depois de ler a carta, a manauara disse que o presidente da emissora marcou uma reunião com todos os cinegrafistas para cobrar mais respeito a Nívia e aos demais estagiários que viessem posteriormente. A queixa dela foi essencial para mudar rotinas de trabalho na empresa.

Em seu segundo estágio, os empecilhos continuaram. "Tinha um auxiliar de cinegrafista que implicava muito comigo. Ele dizia que mulher não nasceu para ser cinegrafista. Quando me convocavam para sairmos juntos, ele ficava com raiva."

Formou-se após a conclusão dos estágios obrigatórios e em meio às adversidades. Na hora de tirar o registro profissional no Ministério do Trabalho, teve uma surpresa no setor de atendimento. "Uma senhora disse que eu era a primeira mulher a tirar o registro, porque ela só tirava para homens", orgulha-se.

Precisava mostrar pra mim, e para todo mundo que me rejeitou, que eu era capaz.

Iana Porto/Especial para HuffPost Brasil
Nívia desbravou um meio notadamente masculino, que a rotulava de frágil e incapaz de transportar equipamentos.

Nívia passou pela TV Cultura e, após 2 anos e meio, chegou à TV A Crítica, afiliada da Record em Manaus. Tornou-se câmera de programas ao vivo da emissora. A tensão do tempo real era sentida à flor da pele. "Ouvia xingamentos no ponto e, quando chegava em casa, desabava no choro. Não queria mais continuar. Mas minha irmã me convenceu e fui em frente", lembra.

No início de junho de 2006, com apenas 20 dias em estúdio, surgiu uma oportunidade de última hora de participar da transmissão do Festival de Parintins, considerado o maior festival folclórico do mundo. Um dos escalados tivera um imprevisto, e acabaram convocando Nívia. Destemida, ela seguiu para a cidade a 369 quilômetros de Manaus.

Aquela foi só a primeira experiência. Em 2010, foi promovida a cinegrafista de externa. O salário cresceu, e o prestígio também. Hoje é considerada uma das melhores cinegrafistas do estado do Amazonas.

Se você é mulher e quer trabalhar onde a maioria é homem, vá em frente e não baixe a guarda.

Iana Porto/Especial para HuffPost Brasil
A experiência com transmissões ao vivo, em estúdio e locação externa, foi tornando Nívia uma referência na cinegrafia.

A repórter já cobriu protestos intensos e quase apanhou em um deles durante uma confusão. Em outra externa, seu olhar sensível capturou uma grávida em trabalho de parto por 24 horas.

Por onde passa, Nívia é reconhecida pela competência, coragem e simpatia. Atenciosa com as repórteres de vídeo, suas parceiras de trabalho, sempre traz no colete um batom e um pente para retocar a colega quando a pauta exige agilidade.

O reconhecimento também vem de instituições renomadas, como a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas (Abraciclo), que premiou em 2017, a reportagem especial com a imagens da Nívia sobre mulheres que invadem o mercado de motocicletas.

Um prêmio que coroou seu pioneirismo em uma área que de "proibida" para mulheres tornou-se estrada ideal para o brilho e o sucesso de Nívia.

Iana Porto/Especial para HuffPost Brasil
Hoje, Nívia é reconhecida como uma das melhores repórteres cinematográficos do Amazonas.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Samira Benoliel

Imagem: Iana Porto

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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