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19/10/2018 13:02 -03 | Atualizado 19/10/2018 13:15 -03

Uso do WhatsApp é distorcido para campanhas massivas de desinformação, diz Pablo Ortellado

O especialista sugere que plataforma restrinja funcionalidades durante período eleitoral no Brasil.

stockcam via Getty Images

O WhatsApp foi criado para ser um canal de comunicação interpessoal, mas, no ambiente eleitoral do país, foi distorcido e se tornou um veículo de campanhas massivas de desinformação. A análise é do professor de Gestão de Políticas Públicas da USP (Universidade de São Paulo) Pablo Ortellado, que estuda o tema, em entrevista ao HuffPost Brasil.

O especialista é um dos três nomes que assinam o artigo Notícias falsas contaminam a política brasileira. O WhatsApp pode reduzir isso, publicado na última quarta-feira (17) no NY Times, que sugere três modificações que o aplicativo poderia adotar imediatamente para equilibrar o ecossistema de discussão política online (leia mais abaixo).

Para ele, o aplicativo, que, segundo o Datafolha, é usado por 66% dos eleitores, terá um "papel decisivo e central" nas eleições brasileiras, como o Facebook teve nas eleições nos Estados Unidos em 2016. "Esse dispositivo usado para a comunicação em massa está distorcendo uma ferramenta que foi criada para proteger a privacidade da comunicação interpessoal."

Nesta sexta-feira (19), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) se pronunciará sobre uma ação movida pela campanha de Fernando Haddad (PT) pedindo a impugnação da candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) envolvendo suposto impulsionamento ilegal na ferramenta. A base do pedido é uma reportagem da Folha de S. Paulo que afirma que empresas estariam comprando pacotes de disparos em massa de mensagens contra o PT no aplicativo.

HuffPost Brasil: Qual a responsabilidade do WhatsApp no processo eleitoral no Brasil?

Pablo Ortellado: A questão que temos que ter em mente é que o WhatsApp não é uma rede social, é uma ferramenta de comunicação interpessoal. O próprio WhatsApp [empresa] gosta de reforçar isso, que a maior parte da comunicação no app é 1:1, que os grupos são pequenos, são grupos de famílias com até 6 pessoas. De fato, isso é o grosso da ferramenta. Mas o que a gente tem que entender é que ela foi apropriada para outro tipo de comunicação, que é uma comunicação de massa. E essa comunicação de massa é ainda mais perigosa porque ela é secreta.

O que a gente sugere no artigo [do NYT] são ótimos pontos de partida. De certa maneira, o poder público foi surpreendido porque esse papel central que o WhatsApp teve, no sentido de você fazer praticamente uma campanha inteira nele, é uma coisa novíssima. Se a gente olha para outras eleições fora do Brasil, o app já foi usado como ferramenta também. Ele foi importante na eleição do México, na campanha do acordo de paz na Colômbia. Mas com esse papel decisivo e central, o Brasil é um caso inédito. O WhatsApp vai ficar conhecido na eleição brasileira assim como o Facebook ficou conhecido na eleição americana em 2016.

E o primeiro ponto de reflexão que a gente traz é que esse dispositivo usado para a comunicação em massa está distorcendo uma ferramenta que foi criada para proteger a privacidade da comunicação interpessoal. É esse o 'x' da questão. O WhatsApp tem que reconhecer que a ferramenta que eles desenharam para a gente se comunicar com os amigos e familiares, na verdade, está sendo usada para fazer comunicação de massa sigilosa. E como as pessoas não acompanham o que está acontecendo, isso permite campanhas massivas e maliciosas de desinformação. O debate político acaba sendo poluído de uma maneira estrutural e isso influencia o eleitorado de forma muito particular.

Em quais aspectos o uso do WhatsApp como ferramenta de campanha se difere dos posts no Facebook, por exemplo?

Se eu uso Facebook para difundir mentiras, a gente consegue rastrear e determinar quem emitiu o discurso, o que está sendo dito e o outro lado pode colocar uma réplica, pode responder nos comentários, pode apresentar o contraditório. Se aquilo infringir uma lei eleitoral, você pode responsabilizar quem está emitindo as mensagens. No WhatsApp nada disso é possível, porque é uma rede opaca, uma rede privada protegida pela criptografia de ponta a ponta. Isso é uma virtude da ferramenta, que tem um ótimo design para a comunicação interpessoal. Mas no caso da comunicação de massa, principalmente quando é usada de maneira maliciosa, ela é muito deletéria.

E é por esse motivo que as nossas propostas foram desenhadas para conter apenas essa capacidade de difusão de massa. Preserva completamente o objetivo primordial do app, que é a comunicação interpessoal. As pessoas vão poder continuar usando o app e os grupos. A gente só acha que é preciso limitar tecnicamente os dispositivos que permitem a comunicação de massa e apenas durante o período eleitoral. Isso não tem nada a ver com censura. Ninguém será proibido de falar ou interagir.

Como a empresa reagiu às sugestões de mudanças no app durante o período eleitoral?

Nós entramos em contato com a empresa e enviamos o artigo antes dele ser publicado no NY Times. A empresa deu um pequeno retorno e disse que considerava o tempo muito escasso para tomar medidas. Nós contra-argumentamos que na Índia a empresa tomou ações em poucos dias, quando teve a crise dos linchamentos. Então o WhatsApp ficou de avaliar o cenário, mas até agora não deu nenhuma resposta.

Com a repercussão do artigo, surgiu o movimento #Censurapetista. O que você achou das manifestações?

Acho que é uma distorção completa do que a gente propôs, mas é uma reação esperada. De fato, as nossas propostas atrapalham as campanhas maliciosas. Mas não atrapalham a comunicação dos usuários padrão do WhatsApp. As campanhas acharam uma palavra de ordem e começaram a replicá-la no Twitter. É esperado, já que todo mundo está inflamado e em um estado pouco reflexivo nestas eleições.

O que diz o artigo dos três especialistas

O artigo Notícias falsas contaminam a política brasileira. O WhatsApp pode reduzirisso é assinado por Ortelado, a jornalista Cristina Tardáguila, diretora da Agência Lupa, de fact checking, e o professor Fabrício Benevenuto, responsável de projeto da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) que monitora redes sociais.

Para o trio, a empresa americana, que também é responsável pelo Facebook, não pode se abster da influência que as fake news têm no eleitorado brasileiro. Ortellado argumenta que o debate político foi "poluído" de maneira estrutural.

Na carta aberta aos responsáveis pela plataforma, os especialistas sugerem três modificações que o WhatsApp poderia adotar imediatamente para equilibrar o ecossistema de discussão política online.

São elas:

  • Restrição de encaminhamentos: no início deste ano, depois da disseminação de rumores que foram compartilhados via WhatsApp e que provocaram linchamentos na Índia, a empresa estabeleceu restrições no número de vezes que uma mesma mensagem pode ser encaminhada. Globalmente, fixou em 20. Na Índia, reduziu para cinco. Acreditamos que o WhatsApp deve adotar temporariamente a mesma medida no Brasil.
  • Restrição de transmissões: o WhatsApp permite que qualquer usuário envie uma mesma mensagem para até 256 contatos de uma só vez, via lista de transmissão. Isso significa que um pequeno grupo coordenado pode facilmente orquestrar uma grande campanha de desinformação usando o aplicativo. Ao limitar o número de pessoas que podem ser atingidas por uma transmissão, o WhatsApp pode impedir que isso aconteça.
  • Limitar o tamanho de novos grupos: Novos grupos criados no Brasil nas próximas semanas devem ter um número máximo de usuários. Essa medida não afetaria os grupos já existentes.

Leia aqui o artigo na íntegra.