COMIDA
19/10/2018 08:08 -03 | Atualizado 19/10/2018 08:08 -03

'Clean Meat': A carne do futuro existe e não fere nenhum animal

Esqueça a ideia de abatedouros. Esta carne é 100% animal, mas vem dos laboratórios.

Imagina saborear o nugget de um frango que está no mesmo ambiente que você, mas não está no seu prato, nem ferido. Está ciscando no jardim, como se nada estivesse acontecendo. Você pode pensar que isso é algo muito futurista, mas já é viável no Vale do Silício, nos Estados Unidos.

Empresas da região criaram a chamada "Clean Meat", uma carne "limpa" feita de células de animais vivos. Essa carne é produzida em laboratório usando uma pequena amostra de células de animais, como uma pena de galinha.

Uma dessas empresas, a Just, criou seu primeiro produto "Just Meat": um nugget de frango. Em apenas 2 dias, a empresa consegue fazer em laboratório o alimento de uma galinha que continua viva, sem sofrimento.

Segundo a empresa, o objetivo é fornecer carne de forma mais sustentável (já que este alimento não utilizará recursos naturais, como água, e nem emite gases causadores do efeito estufa) e garantir um alimento sem confinar ou abater um único animal.

Apesar de ser "amiga dos animais", a carne não pode ser considerada vegana ou vegetariana, uma vez que continua sendo uma carne 100% animal. Contudo, ela é uma alternativa para aqueles que deixaram de comer carne por causa do sofrimento animal.

Como funciona a clean meat?

Reprodução
100% carne, 0% animais

Carne e frutos do mar são basicamente uma combinação de células musculares e gorduras. Elas exigem nutrientes para crescer, seja dentro de um animal ou em um laboratório.

O fator limitante da "carne limpa" é proporcionar às células uma fonte sustentável e econômica de nutrientes necessária para o crescimento celular. No caso da Just Meat, a metodologia de descoberta é a mesma (isolamento de material e estímulo da multiplicação das células), mas a empresa utiliza plantas para fornecer nutrientes para o crescimento das células animais, produzindo assim uma "carne limpa" em larga escala.

De acordo com a empresa, a "clean meat" é feita em um processo semelhante à fermentação da cerveja, ao cultivo da levedura para pães, coalho usado para queijo e outros alimentos feitos por cultura de células em grande escala. "Os nutrientes que as células precisam para crescer incluem água, açúcar, aminoácidos, lipídios, vitaminas e minerais", diz o site.

Veja abaixo o vídeo em inglês que explica como a carne é feita:

A primeira "carne limpa" foi criada pelo Dr. Mark Post, da Universidade de Maastricht, em 2013. Seu primeiro hambúrguer "sintético" foi lançado em Londres por cerca de US$ 330 mil.

De lá para cá, cada vez mais startups e companhias instaladas no Vale do Silício desenvolveram novas tecnologias para aumentar a produção e baratear o processo. A empresa Memphis Meats, por exemplo, produz carne limpa por cerca de US$ 40 por grama.

Até 2020, a empresa do Dr. Post, a Mosa Meats, planeja vender seus hambúrgueres por cerca de US$ 10. Cientistas acreditam que dentro de 10 anos é possível baratear e acelerar o processo da produção.

A 'carne limpa' e a sustentabilidade

"Clean Meat" é um conceito já consolidado nos Estados Unidos. Inclusive há um site que explica como ela é feita e por que é considerada "limpa".

A carne cultivada em laboratório é considerada sustentável porque requer muito menos recursos naturais, como água, alimentos, terra, etc, do que animais criados para o abate, além de emitir bem menos gases que contribuem para o efeito estufa.

Ela também é vista como uma solução para alimentar pessoas em todo o mundo. "Para produzir comida suficiente para 9,7 bilhões de pessoas até 2050, precisaremos de um sistema alimentar mais eficiente e sustentável. A previsão é de que a 'Clean Meat' seja 3 vezes mais eficiente que o frango, que já é a carne convencionalmente mais eficiente do sistema alimentar atual", explicou o site.

Por fim, a carne "limpa" é chamada assim porque também não contém antibióticos, bactérias, parasitas e outros males da carne proveniente de animais.

"Em vez de obter carne de animais criados em fazendas industriais que são altamente destrutivas ao meio ambiente e abatidos em matadouros sujos, a 'carne limpa' é produzida através de uma pequena amostra de células animais e replicando-as em uma cultura em laboratório. O produto resultante é carne 100% real, mas sem os antibióticos, contaminação por E. Coli, salmonela ou qualquer resíduo -- o que é padrão na produção convencional de carne."

Afinal, será que o gosto é de carne?

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Nugget foi feito do frango Ian, que continua vivo e ciscando por aí.

À BBC, o presidente-executivo da Just, Josh Terick, afirmou que o nugget ainda não está disponível nos supermercados, mas ele pode fazer parte do cardápio de alguns restaurantes nos Estados Unidos até o final deste ano.

"Nós fazemos coisas como ovos, sorvete ou manteiga de plantas e fazemos carne apenas a partir de carne. Você simplesmente não precisa matar o animal", afirmou Tetrick à BBC.

O repórter conseguiu provar o famoso nugget e aprovou o alimento. "A pele é crocante e a carne saborosa, embora a textura interna seja um pouco mais macia do que nuggets que você encontraria no McDonald's ou no KFC", diz a reportagem.

Se depender dos consumidores americanos, a "clean meat" será bem recebida. Uma pesquisa publicada em agosto na Fast Company deste ano, que contou com mais de 1,2 mil consumidores, revelou que a maioria compraria e provaria a carne feita em laboratório: mais de 66% dos consumidores disseram que experimentariam a nova carne se ela estivesse disponível.

Pouco mais da metade dos entrevistados afirmou que trocaria a carne convencional pela carne "limpa" e 45% disse que consideraria comprá-la regularmente.