MULHERES
22/10/2018 20:10 -03 | Atualizado 22/10/2018 20:11 -03

A reflexão de Tarana Burke, criadora da hashtag #MeToo, um ano após o movimento

“O tempo todo eu estava preocupada em salvar o meu trabalho”, Burke escreveu. “E não percebi que o ‘meu trabalho’ estava acontecendo bem ali na minha frente.”

A criadora do #MeToo, Tarana Burke, publicou uma thread no Twitter no primeiro aniversário do dia em que a campanha viralizou.
Paras Griffin via Getty Images
A criadora do #MeToo, Tarana Burke, publicou uma thread no Twitter no primeiro aniversário do dia em que a campanha viralizou.

Um ano depois de o movimento #MeToo ter alimentado uma onda mundial de cobrança e responsabilização, a ativista e criadora Tarana Burke ainda está absorvendo tudo o que aconteceu.

Burke, que criou a campanha em 2007, comemorou o primeiro aniversário do dia em que a campanha Me Too viralizou com uma thread no Twitter postada na manhã de segunda-feira. A ativista de 45 anos falou das emoções conflitantes que sentiu quando percebeu que a hashtag #MeToo havia viralizado no Twitter.

"Um ano atrás eu pensei que meu mundo estivesse desmontando", ela escreveu. "Acordei e descobri que a hashtag #metoo tinha viralizado, mas não vi nada do trabalho que fiz ao longo da década anterior anexado a ela. Pensei que eu seria deletada de uma coisa que trabalhei tanto para construir."

A atriz Alyssa Milano tuitou a hashtag no dia 15 de outubro de 2018, pedindo às suas seguidoras que respondessem com a frase "me too" (eu também) se já tivessem sido alvos de assédio ou agressão sexual. Nos dias seguintes, alguns veículos de mídia atribuíram a criação do movimento inteiro à atriz, essencialmente deletando Burke e seus anos de trabalho.

"Me lembro de ligar para minhas amigas, altamente aflita, e tentar calcular o que fazer. Eu não sabia se devia ir online e falar ISTO DAQUI JÁ EXISTE!", Burke prosseguiu. "Ou se devia simplesmente deixar por isso mesmo. Mas então percebi que deixar por isso mesmo não era uma opção naquele momento."

(Um ano atrás eu pensei que meu mundo estivesse desmontando. Acordei e descobri que a hashtag #metoo tinha viralizado, mas não vi nada do trabalho que fiz ao longo da década anterior anexado a ela. Pensei que eu seria deletada de uma coisa que trabalhei tanto para construir.)

(O mais interessante aconteceu nas 24 horas seguintes. Postei um vídeo de 2014 em que eu fiz um discurso sobre o #metoo e que viralizou. As pessoas começaram a ficar confusas – será que a "hollywood branca" tentara roubar o #metoo de uma mulher negra?)

(A resposta resumida é Não. Mas eu teria realmente corrido o risco de ser apagada se VOCÊS TODOS, mulheres negras e nossos aliados e amigos, não tivessem se manifestado. Mas aconteceu outra coisa também. Naquele primeiro dia fiquei assistindo por horas mais e mais histórias de sobreviventes se espalharem pelas redes sociais.)

Foram mulheres negras, Burke escreveu, que chamaram a atenção da mídia para o fato de que o Me Too tinha sido criado por Burke dez anos antes. "Eu teria realmente corrido o risco de ser apagada se VOCÊS TODOS, mulheres negros e nossos aliados e amigos, não tivessem se manifestado", ela escreveu no Twitter.

Na semana em que o #MeToo viralizou, milhares de mulheres compartilharam seus relatos de assédio sexual, agressão sexual e estupro, usando a hashtag #MeToo, no Facebook, Twitter, Instagram e outras plataformas de mídia social. Seus relatos abriram os olhos de muitas pessoas para esse problema, mas especificamente os dos homens, e chamaram a atenção para um problema sistêmico que vinha sendo silenciado por tempo demais.

"Meu trabalho sempre enfocou principalmente as mulheres e meninas negras e morenas. E sempre vai enfocar principalmente elas – mas em seu cerne, meu trabalho apoia TODAS as sobreviventes de violência sexual. E eu me engajei com esse trabalho muito tempo atrás, de modo que ver as pessoas virem a público aparentemente sem contar com qualquer apoio online era difícil", ela tuitou.

"O tempo todo eu estava preocupada em salvar meu trabalho", Burke prosseguiu. "E não percebi que o 'meu trabalho' estava acontecendo bem ali na minha frente."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.