POLÍTICA
17/10/2018 17:19 -03 | Atualizado 17/10/2018 17:20 -03

Haddad fala para convertidos em evento com evangélicos e evita posição sobre aborto

Fernando Haddad lançou nesta quarta-feira uma carta endereçada ao "povo de Deus".

Reuters
Fernando Haddad (PT) em evento com pastores evangélicos.

Com dificuldades de articulação no campo político a menos de duas semanas do segundo turno, o candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, lançou nesta quarta-feira (17) esforços para conseguir o apoio dos evangélicos, uma expressiva fatia do eleitorado, que hoje vota em peso com seu adversário, Jair Bolsonaro (PSL).

Em um hotel no centro de São Paulo, ele se reuniu com representantes de igrejas evangélicas já simpáticos à sua candidatura e divulgou uma carta endereçada ao "povo de Deus", na qual pede que os fiéis apreciem seus "propósitos" e votem nele.

De acordo com o último Datafolha, 6 em cada 10 evangélicos preferem o candidato do PSL. Na última pesquisa Ibope, Bolsonaro aparece como a escolha de dois terços do grupo.

Haddad evitou, tanto na carta como no evento desta quarta, se posicionar sobre aborto —um tema sensível para os evangélicos. No documento entregue, ele apenas afirma que nenhum governo do PT encaminhou ao Congresso projeto de lei sobre legalização do aborto e que isso também não consta no seu programa.

Questionado no evento por um dos fiéis sobre o tema, Haddad escolheu terceirizar a pauta para o Congresso. De acordo com ele, o papel do poder Executivo é "garantir um ambiente de equilíbrio para a expressão de todas as liberdades."

"O Estado é laico. Um presidente não é eleito para impor tudo o que pensa, todos os seus valores. Ele tem que criar ambiente para que a sociedade discuta e se desenvolva. Nem sempre é possível tomar partido em tudo. O Executivo tem que ter a sabedoria de respeitar os valores dos outros e garantir que esses valores possam ser expressados. Nós não podemos agredir quem pensa diferente da gente", disse o petista.

Em seu discurso, Fernando Haddad se apresentou como pai de família, cristão, filho de libanês analfabeto e companheiro casado há 30 anos com a mesma mulher, Ana Estela. Ele falou para uma plateia de cerca de 200 pessoas em que estavam presentes lideranças das igrejas Metodista, Presbiteriana, Batista, Anglicana, Assembleia de Deus e outras.

O presidenciável ainda assumiu alguns compromissos com os presentes, como priorizar os mais pobres em um eventual governo e o respeito e acolhimento por parte do Estado à liberdade de culto de todas as religiões.

A tentativa de aproximação se dá após Haddad criticar publicamente o bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal, que declarou apoio a Bolsonaro. Segundo o petista, Macedo tem "fome de dinheiro"e propaga um "fundamentalismo charlatão".

Segundo um dos organizadores, a decisão de realizar o evento desta quarta em um hotel e não uma igreja se deu para preservar a separação entre política e religião.

"Somos membros de igrejas que não nos vemos representados por um candidato que faz deboche da dor das pessoas. Na igreja ouvimos a palavra de Deus. Viemos aqui hoje para participar de um processo cívico em defesa da Constituição", explicou Daniela Frozi, representante da Rede Evangélica de Ação Social, em entrevista ao HuffPost Brasil.

No encontro, Haddad pediu que os pastores assumam o compromisso de expor as "palavras dos tribunais" frente às notícias falsas divulgadas sobre a sua candidatura. Os pastores também foram convidados a gravar vídeos "pedagógicos" esclarecendo as fake news.

O petista afirmou estar enfrentando uma das campanhas mais "duras" que o partido já participou, pois, segundo ele, aliados do seu adversário Jair Bolsonaro estão apostando na "mentira como arma para ganhar votos e espalhar a desesperança".

"Não adianta eu obter vitórias no Tribunal [Superior Eleitoral] se as pessoas impactadas por essas mentiras não ficarem sabendo disso. Tem que deixar claro que não é pelo WhatsApp do meu adversário que vocês vão me conhecer", argumentou o petista.

O candidato fez referência à decisão do TSE que determinou a retirada de publicações em que Haddad é acusado de distribuir material de cunho sexual para crianças em escolas públicas.

Ana Beatriz Rosa
Fernando Haddad faz evento com pastores evangélicos.

A aproximação do reduto bolsonarista

O evento com os pastores foi mais uma tentativa da campanha do PT de se aproximar de redutos em que o voto em Jair Bolsonaro prevalece. O clima, no entanto, era de resignação. Os presentes reconheciam que uma virada de votos a 11 dias das eleições poderia ser considerada um "milagre".

"Não há diálogo com grandes líderes religiosos, os empresários e coronéis da fé, essa gente que faz grana em cima do suor do nosso povo. Mas com o povo, existe. E precisamos ter humildade e capacidade de escuta. Precisamos entender o drama social que vive o povo brasileiro. O Haddad está enfrentando uma máquina poderosa e perversa. Mas ele vem num esforço muito sincero de conversar com essas pessoas", avaliou Henrique Vieira, pastor da Igreja Batista do Caminho e ex-vereador do PSol no Rio de Janeiro.

"A igreja evangélica vai para redutos que nenhuma outra igreja vai. Eu não sou evangélico, mas preciso reconhecer o trabalho de vocês, por isso que defendo a liberdade de expressão. Sei que muitos de vocês já me conhecem aqui. E os que não me conhecem, aproveitem a oportunidade para me conhecer. É melhor ver a verdade nos meus olhos do que nas mensagens do WhatsApp", pediu, novamente, Haddad.