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18/10/2018 08:03 -03 | Atualizado 18/10/2018 14:05 -03

Futebol e eleições: Quando os campos da política e do esporte se misturam

‘Efeito Bolsonaro’ pode trazer ao Brasil reflexos do que os Estados Unidos enfrentaram após eleição de Donald Trump.

A polarização que tomou conta do Brasil durante o processo eleitoral e que se acirra ainda mais com a proximidade do 2º turno chegou aos campos e aos bastidores do esporte mais popular do País.

Jogadores e ex-jogadores de futebol que se tornaram ídolos nacionais e internacionais têm se manifestado recentemente de forma favorável à vitória do candidato Jair Bolsonaro (PSL). Eles, no entanto, já começaram a sofrer as consequências desse apoio, inclusive fora do país.

Ronaldinho Gaúcho, ídolo do Barcelona e que exerceu papel de embaixador do clube catalão ao redor do mundo, foi criticado abertamente pela diretoria do ex-time e acabou de ser destituído de sua função. Rivaldo, que também exercia papel semelhante, é outro que declarou voto em Bolsonaro e foi repreendido pelo Barça.

O Diário Sport, principal jornal esportivo da Catalunha, informou que a dupla será gradativamente afastada dos eventos festivos do Barcelona e que Ronaldinho Gaúcho perdeu o título de embaixador do clube, oferecido a R10 por seus brilhantes serviços prestados nos tempos em que envergou a camisa azul-grená.

O Barcelona teria alegado que os jogadores têm direito de declarar em quem votam democraticamente, mas que o clube também pode se posicionar contrário a um candidato que tem pensamentos antagônicos ao que a história da equipe sempre defendeu.

"A homofobia, misoginia e racismo pregados por Jair Bolsonaro em mais de 30 anos de carreira política e reafirmados em sua campanha eleitoral são incompatíveis com o ponto de vista do clube", publicou o Diário Sport.

No Brasil, Palmeiras sofre com acusações e Atlético-PR é advertido

Se na Europa Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo foram "penalizados" por declararem apoio a Bolsonaro, no Brasil o Palmeiras acabou entrando no foco da discussão, muito por conta das declarações do meio-campista Felipe Melo.

Defensor declarado do candidato do PSL à presidência da República, ele dedicou um gol em partida contra o Bahia, pelo Campeonato Brasileiro, "para o nosso futuro presidente, o Bolsonaro".

A declaração de Felipe Melo repercutiu mal junto à CBF. Felipe Bevilacqua, procurador-geral do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), disse em entrevista à Folha de S.Paulo que tanto atleta quanto clube poderiam ser denunciados e punidos nos tribunais.

"Não me lembro de nenhum caso similar. Talvez fosse o caso de avaliar a denúncia e deixar que o tribunal veja se foi uma atitude correta ou não. Confesso que, disciplinarmente, deve ser cautelosamente avaliado. Imagina se vira moda?", questionou.

A atitude também virou alvo de uma reportagem do principal jornal esportivo argentino, o Clarín, que personificou em Felipe Melo um suposto apoio do Palmeiras ao capitão reformado. Segundo a publicação, "a Instituição, que tem uma história ligada ao fascismo italiano, agora faz campanha para Bolsonaro".

O diário argentino lembrou ainda dos gritos homofóbicos proferidos por parte da torcida palmeirense em um metrô de São Paulo antes do clássico contra o time do Morumbi, que normalmente é provocado pelos rivais com alcunhas desse porte.

Os efeitos da reportagem na Argentina foram imediatos e o Palmeiras, prontamente, se defendeu, afirmando, em nota oficial, "não apoiar ninguém nas eleições presidenciais" e "respeitar a posição pessoal do jogador (Felipe Melo)".

Quem também se posicionou favoravelmente à candidatura de Jair Bolsonaro foi o Atlético Paranaense. Os jogadores da equipe entraram em campo para enfrentar o Bahia com camisetas amarelas e os dizeres "#Vamos todos juntos por amor ao Brasil" um dia antes da realização do 1º turno.

A exceção foi o zagueiro Paulo André, que preferiu trajar o agasalho do clube e, além disso, assinar o manifesto "Democracia sim", que tem em sua essência combater alguns dos pontos atribuídos ao candidato do PSL.

O ato dos jogadores do Atlético Paranaense foi relatado em súmula pelo árbitro da partida e pode sofrer sanções por parte da Fifa. No artigo 4 de seu estatuto, a entidade que comanda o futebol mundial diz que "confederações e clubes afiliados estão proibidos de fazer manifestações políticas em partidas".

Por meio de Mario Celso Petraglia, presidente do Conselho Deliberativo do clube paranaense, o Atlético negou que o apoio tenha sido favorável a Bolsonaro. "A entrada em campo com a camisa amarela não foi um ato partidário, foi um ato político, de amor ao Brasil. Como aquele, teremos outros! Brasil acima de tudo", postou o dirigente, no Facebook.

A explicação não parece ter sido suficiente para convencer os dirigentes, e o clube acabou denunciado no STJD por ter executado a ação sem aval ou permissão da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Nos Estados Unidos, NFL sentiu efeitos reais

Miami Herald via Getty Images
Kenny Stills e Albert Wilson, do Miami Dolphins, ajoelham durante Hino Nacional norte-americano.

Se no Brasil a polêmica envolvendo um candidato à presidência e ícones do esporte é novidade, os Estados Unidos já sabem o que essa mistura pode causar.

A controvérsia envolvendo o presidente norte-americano Donald Trump e os atletas da NFL - Liga profissional de Futebol Americano - já dura mais de dois anos, e não parece ter data para terminar, a ponto de tirar o mandatário do país do sério no Twitter (veja abaixo).

O debate sobre o Hino Nacional na NFL está vivo e aceso novamente - não acredito nisso! Ainda não tem no contrato que os jogadores têm que ficar de pé, com a mão no peito? O Comissário de US$ 40 milhões precisa tomar uma atitude. Na primeira vez que ajoelhar, fica fora do jogo. Na segunda vez, fica fora da temporada, sem pagamento!

Alguns dos principais expoentes do esporte adotaram, como forma de protesto contra a violência policial e o racismo, ajoelhar-se no momento da execução do Hino Nacional dos Estados Unidos.

O protesto foi iniciado por Colin Kaepernick, quarterback do San Francisco 49ers, em agosto de 2016. O atleta se recusou a ficar de pé durante a execução do Hino Nacional norte-americano antes de um jogo amistoso em Santa Clara, na Califórnia.

Vaiado pela torcida, que não entendeu a atitude, Kaepernick se explicou: "Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime o povo negro e as pessoas de cor. Para mim, isso é maior do que o futebol, e seria egoísmo de minha parte virar a cara para esse assunto".

A atitude do quarterback ganhou um efeito avassalador e foi seguida por diversos times desde então, o que obrigou a cúpula da NFL a criar um código de conduta que obrigava os jogadores a ficar de pé durante a execução do Hino Nacional do país. Em julho, no entanto, a liga voltou atrás na decisão.

Alexandria Sage / Reuters
Colin Kaepernick é astro de polêmica campanha da Reuters.

O reflexo em números

Boa parte da torcida se posicionou contrária a Kaepernick e aos colegas que aderiram aos protestos, boicotando as roupas da marca que o jogador patrocina e gerando os piores números de audiência para o esporte que é um dos favoritos dos norte-americanos.

A audiência na televisão caiu 10% em relação a 2017 e o SuperBowl deste ano, o principal evento esportivo do país, foi o menos assistido desde 2009. Os atletas que se ajoelharam como forma de protesto foram vaiados em alguns dos estádios em 2017 e os times da NFL venderam meio milhão de ingressos a menos em comparação a 2016.

Os números mostram que, nos Estados Unidos, os reflexos da mistura entre os campos políticos e esportivos não foram positivos. No Brasil, resta saber se o posicionamento de jogadores e clubes em um cenário eleitoral acirrado terá também um impacto nas receitas.