18/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 18/10/2018 00:00 -03

Camila Gregorio, a cineasta baiana premiada aos 22 anos

Jovem acredita no cinema como arma de resistência e promoção de direitos: "O cinema não tem que necessariamente ter uma função, mas o meu cinema tem”, aponta em entrevista à HuffPost Brasil.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Camila Gregório é a 225ª entrevistada do

Camila Gregorio é incansável não só em seu trabalho, mas também em suas convicções. A frase em destaque na tela de seu computador é um recado para si mesma: "Vale a pena trabalhar. Ass. Camila do futuro". Certamente essa "Camila do futuro" terá muito orgulho da Camila do presente. Aos 22 anos, ela não consegue contar quantos prêmios já ganhou. "Eu não sei quantos são, eu nunca contei. Mas só para o Fervendo (2017), foram 11, inclusive um prêmio nacional", conta em entrevista ao HuffPost Brasil.

A frase acima sai de sua boca sem o menor resquício de soberba. Em vez de ego, sua fala denota uma alegria pura e verdadeira por estar fazendo o que sempre quis, e com afinco. "Gosto de simplicidade e não quero ter uma vida muito diferente da que eu tenho, mas fico satisfeita com o reconhecimento", diz.

O cinema é o lugar da coletividade, por isso é o meu lugar.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil.
Cineasta e ativista feminista, ela enfrenta suas opressões diárias com a arma mais poderosa possível: a arte.

Ela está cursando último semestre do melhor curso de Cinema e Audiovisual da América Latina, na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), em Cachoeira, na Bahia. A cidade que abriga o curso e a cineasta chega a ser considerada mágica: reduto da resistência, de importantes quilombos e religiões de matriz africana, a pequena cidade do recôncavo baiano transpira arte. E Camila se sente em casa. "Deus me livre ir embora de Cachoeira. Esse lugar é perfeito!", observa.

Por isso e por muitas outras coisas. Camila tem um talento notável não apenas para as artes, mas para trabalhos de construção coletiva de modo geral. Sua primeira opção de profissão foi o cinema, e sua essência intransponível, o feminismo.

Ao chegar em Cachoeira (BA), não se preocupou apenas com a própria formação. Antes disso, procurou ajudar a transformar o lugar onde passaria a viver. Para isso, criou o coletivo feminista Gritem!, que funcionou por aproximadamente um ano com mesas redondas semanais que abriam as portas para as mulheres da comunidade construírem, junto com as mulheres recém-chegadas à Universidade, a Cachoeira que queriam. "O coletivo deixou de existir por questões organizacionais, mesmo, mas eu não considero que a experiência tenha sido um fracasso. Deu muito certo enquanto existiu, e fez diferença na vida de muitas mulheres."

Muita gente me tratava como se eu estivesse à sombra do meu companheiro.

"O cinema não tem que necessariamente ter uma função, mas o meu cinema tem

Vinda de uma família de profissões tradicionais, escolheu as artes muito cedo porque queria estar inclusa em um lugar com menos preconceitos e mais liberdade. "É claro que há machismo, racismo e homofobia em todas as áreas, mas nas artes isso se apresenta de forma diferente. E a arte, por si, é libertadora."

Junto com seu companheiro, também cineasta, e um grupo de amigos da faculdade, ela criou o coletivo "Feito a Facão", com o objetivo de sair do campo teórico e realizar mais filmes, mesmo com baixo orçamento. "O set é o lugar da realização, e nós, como cineastas, queríamos isso."

Por realizar muitos trabalhos em conjunto com seu companheiro, ela relata que frequentemente é tratada como um complemento dele. "As pessoas perguntam: você faz cinema também?', como se eu estivesse à sombra do meu companheiro. Ninguém pergunta isso a ele desta forma. É muito difícil ser uma realizadora mulher e jovem."

Uma mulher no 'set' muda tudo, desde a construção da personagem até o olhar da câmera.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Cineasta e preparadora de elenco, Camila acredita no cinema como poderosa arma de resistência.

Camila enfrentou bravamente muitas outras situações de opressão durante sua carreira e sua vida. Relatou-me apenas algumas: "Se eu fosse contar todas, precisaríamos de um dia inteiro", comenta. Ela relatou à reportagem da HuffPost que, certa vez, um diretor de cinema cuspiu em uma claquete e disse: "Agora limpe!" É claro que ela não limpou. "Levantei e fui embora. Não existe isso de 'cinema é assim mesmo', ninguém merece ser tratada assim em nenhum lugar, e eu não tenho que aceitar."

Ela contou também que, certa vez, foi assediada por um famoso cineasta brasileiro que tentou beijá-la a força. "Quando eu disse a ele que aquilo não ficaria barato, ele ameaçou acabar com a minha carreira. E eu sei que ele tem influência pra isso. É claro que tive medo"

Mesmo assim, ela cumpriu sua promessa de não deixar barato. "Durante o festival de Brasília, convoquei todas as feministas do Distrito e arredores e contei o que havia acontecido. Fomos juntas à estreia do filme dele no Festival, e ele foi tão vaiado que mal conseguia falar."

As coisas estão mudando. Devagar, mas estão.

É assim a resistência de Camila: cautelosa, mas nunca acuada. Por saber que as mulheres crescem quando se encontram, ela valoriza um cinema com mais mulheres em cargos de poder. "Uma mulher no set muda tudo, desde a construção da personagem até o olhar da câmera."

Sobre a representação feminina no cinema, ela acredita, esperançosa, que as coisas estão mudando. "Hoje se tem mais mulheres em todas as funções... roteiro, direção, som, curadoria. As coisas estão mudando. Devagar, mas estão."

Estão, sim, graças a mulheres como ela, que acreditam em um cinema que testemunhe a história e esteja comprometido com as questões políticas e sociais da atualidade. "Não quero mudar o mundo, mas quero fazer um cinema comprometido com as questões do meu tempo", finaliza.

Avante, Camila. É assim que se muda o mundo.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Nathali Macedo

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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