POLÍTICA
16/10/2018 08:50 -03 | Atualizado 16/10/2018 08:57 -03

'Um dos grandes temores é que sabemos pouco das propostas de Bolsonaro', critica especialista

Para Denilde Holzhacker, o 2º turno seria o momento de candidato ser mais claro sobre suas iniciativas para o Brasil.

Ricardo Moraes / Reuters
O presidente do PSL, Gustavo Bebianno, dá um recado a Jair Bolsonaro, candidato à Presidência.

Jair Bolsonaro(PSL) é o favorito da eleição mais imprevisível do Brasil recente. Segundo última pesquisa Ibope, ele tem 59% dos votos válidos contra 41% de Fernando Haddad (PT).

Mas a falta de sintonia entre os integrantes de sua campanha, com o vaivém de opiniões sobre recriação de CPMF, privatizações e reforma da Previdência, e o excesso de convicções em detrimento de propostas concretas tornam o voto em Bolsonaro quase um "cheque em branco", como já criticaram especialistas.

Para a coordenadora do Centro de Assuntos Internacionais e Análise de Risco da ESPM-SP, Denilde Holzhacker, o 2º turno seria o momento de o candidato ser mais claro sobre suas iniciativas para o Brasil. Entretanto, a ausência dele nos debates, por recomendação médica, impede que Bolsonaro seja exposto ao contraditório e esclareça proposta a proposta como pretende resolver os problemas do País.

"Um dos grandes temores de um possível governo Bolsonaro é que a gente sabe pouco do que ele está propondo", afirma Denilde Holzhacker. "A campanha ficou muito no debate da questão moral e não entrou nas propostas de como ele vai executar algumas de suas agendas. Será que ele é liberal ou não é? Ficaram muitas perguntas tanto para seus eleitores como para todo o País", argumenta a pesquisadora.

No 1º turno, o candidato do PSL costumava dizer que não sabia de economia e devolvia as perguntas sobre a área para seu "posto Ipiranga", Paulo Guedes, cotado para seu Ministério da Fazenda caso seja eleito. Questionado sobre saúde, era vago e impreciso. Sobre educação, fazia críticas ao "kit gay" e defendia militarização das escolas. O que afinal fará Jair Bolsonaro a partir do dia 1º de janeiro de 2019, caso seja eleito presidente do País?

Para Holzhacker, além de maior clareza nas propostas, o candidato do PSL deverá moderar o discurso nesta reta final de campanha. Em gesto de apoio à democracia, Bolsonaro já reconheceu no Jornal Nacional que o Brasil precisa de governo com autoridade mas sem autoritarismo. No 1º turno, seu vice, general Mourão, chegou a falar em autogolpe em caso de caos político. Ao HuffPost, disse que "as Forças Armadas não podem ficar tocando e o Titanic afundando". Mourão levou bronca ao vivo de Bolsonaro no JN por conta de suas declarações.

"No sistema presidencialista brasileiro, o presidente tem que moderar o discurso. Tanto Bolsonaro quanto Haddad; afinal, ambos precisam de apoio no Congresso, e nenhum deles tem maioria parlamentar suficiente para aprovar suas medidas. Por isso, é necessário acenar para o centro e segurar seus grupos radicais, como o Bolsonaro tentou fazer", explica Holzhacker.

Há uma expectativa que quando se entra no jogo político, muda um pouco o que era o jogo eleitoral.

Questionamentos a Fernando Haddad

Os ajustes em discursos e programa de governo não são exclusividade de Jair Bolsonaro. Fernando Haddad, que está sendo derrotado de acordo com as últimas pesquisas, também precisa correr atrás do prejuízo. A aposta em um protagonismo menor do PT e de Lula ficou clara na mudança da estratégia e estética da campanha.

"Haddad precisa se firmar como liderança porque Lula está preso. Como ele lida com as demandas do partido e com a necessidade de ir mais ao centro? Como manter as reformas e que ajustes fazer ao programa de esquerda com forte viés nacionalista?", questiona Holzhacker.

Esta segunda-feira (15) foi a primeira vez que Haddad deixou de visitar Lula em Curitiba, onde o ex-presidente está preso. A criatura tenta se descolar da imagem do criador, enquanto busca outros aliados para reverter o amplo favoritismo de Bolsonaro.

Assim como Bolsonaro precisou lidar com desconfortos gerados por aliados, Haddad se deparou com declarações controversas do ex-ministro José Dirceu sobre "tomar o poder" e reduzir o poder do Ministério Público.

Também no Jornal Nacional, Haddad foi categórico: "o ex-ministro não participa da minha campanha nem do meu governo"... Para mim, a democracia está em primeiro lugar".