MULHERES
17/10/2018 15:38 -03 | Atualizado 17/10/2018 15:38 -03

Um ano do movimento #MeToo: O que mudou e ainda precisa mudar?

Os últimos 12 meses foram um turbilhão para vítimas de violência, ativistas e terapeutas.

"Acredite nas sobreviventes", diz cartaz de manifestante em Londres, na Inglaterra.
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"Acredite nas sobreviventes", diz cartaz de manifestante em Londres, na Inglaterra.

Em 5 de outubro de 2017 o jornal norte-americano The New York Times começava a publicar as primeiras alegações de assédio sexual contra Harvey Weinstein, relatadas por ex-colegas de trabalho do produtor de Hollywood, desde assistentes de produção até atrizes.

O artigo de Jodi Kantor foi o elemento catalisador necessário para o mundo começar a falar mais abertamente sobre estupro, assédio sexual e violência sexual no mundo do entretenimento -- mas não só. Em questão de semanas o movimento "#MeToo", criado originalmente em 2009 pela ativista americana Tarana Burke, encontrou respaldo mundial. Milhões de mulheres passaram a usar a hashtag para compartilhar suas experiências nas redes sociais, e milhões de outras pessoas começaram a ouvi-las.

Com o movimento "Time's Up", as principais estrelas de Hollywood lideraram o chamado por uma transformação cultural. Em pouco tempo a discriminação sexual arraigada havia décadas começou a ser desafiada em quase todos os setores, desde a política e a mídia até o setor varejista, o de hospitalidade e as empresas mais capitalizadas do mundo.

Para as mulheres que iniciaram esse movimento tanto famosas quanto anônimas – as sobreviventes de violência sexual, as ativistas e as terapeutas e assessoras que nos ajudaram a passar por estes últimos 12 meses --, a impressão é que embora pareça que muita coisa tenha mudado, ao mesmo tempo nada mudou.

Recentemente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, zombou de Dra. Christine Blasey Ford pelo depoimento que ela prestou diante do Senado acusando o juiz Brett Kavanaugh de tê-la agredido sexualmente aos 15 anos de idade.

Para Sophie Adams, de 21 anos, que é foi violentada na adolescência, os últimos 12 meses não foram só de mulheres ganhando espaço para falarem sobre os abusos que sofreram no passado, mas também de outras pessoas apresentando defesas enérgicas dos homens que cometeram as agressões.

"Estou com muita raiva, muita mesmo", disse ao HuffPost Reino Unido. "É tão mesquinho e deplorável que isso esteja acontecendo, justamente agora quando estamos tentando incentivar as pessoas a virem a público para falar dos incidentes que lhes aconteceram – quer tenham sido pequenos, grandes ou realmente pavorosos."

Sophie Adams.
Sophie Adams

Adams tinha 13 anos quando foi violentada por um garoto dois anos mais velho. Nos oito anos passados desde a agressão, ela vem sofrendo de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Ela diz que, embora apoie o movimento #MeToo, o volume de discussões sobre esse tema acabou agravando seus sintomas.

"Antes eu conseguia viver minha vida no dia a dia e meio que empurrar essas coisas para o segundo plano de minha consciência", ela explicou. "Mas agora isso tudo é o assunto do momento. Ando tendo flashbacks na forma de pesadelos. Às vezes passo meses sem ter isso, mas nos últimos 12 meses ando tendo muito mais desses flashbacks."

Ao mesmo tempo, porém, ela afirma que o movimento foi encorajador e fez com que ela se sentisse segura para falar do que viveu, algo que ela espera que a ajude no longo prazo, assim como pode ajudar outras vítimas de violência sexual. Quando era adolescente, ela ficou em silêncio sobre o que lhe acontecera por dois meses, até finalmente revelar a uma professora, que então informou seus pais.

"O movimento me inspirou a compartilhar um pouco mais", disse. "Eu nunca ia querer que outra pessoa passasse pelo que eu passei, mas me ajuda saber que não sou a única. Ao mesmo tempo, é chocante e pavoroso quando você se dá conta de que a maioria das mulheres parece ter passado por situações semelhantes."

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Dr. Christine Blasey Ford, que acusou Brett Kanavaugh de assédio sexual no passado.

A psicoterapeuta Paula Coles, do Diretório de Psicoterapeutas britânico, disse que desde que as acusações contra Harvey Weinstein vieram à tona, o número de pessoas que a procuram não aumentou muito, mas "isso na realidade é porque o número de mulheres e homens que buscam ajuda psicológica para superar esses problemas sempre foi excepcionalmente alto".

"Nenhum de meus clientes citou o #MeToo como sendo o fator que o levou a procurar um terapeuta, mas muitos já citaram que viram o movimento no noticiário, basicamente dizendo que sentem que chegou a hora de alguma coisa mudar e de os agressores serem mais responsabilizados por seus atos", comenta.

Coles disse que ouvir os relatos de vítimas nunca é fácil, mas que o fato de sentir que suas pacientes progrediram nos últimos 12 meses a motiva a continuar trabalhando nessa área.

"Faço questão de cuidar de mim mesma", acrescentou. "Estamos vivendo em tempos difíceis, sim, mas meu trabalho mostra todos os dias que há esperança de que as coisas se transformem e que a imensa maioria das pessoas está motivada a criar uma vida melhor para elas mesmas e as que as cercam."

Você já não sente tanto que está gritando dentro de um buraco negro, porque de repente muita gente está falando disso.Rachel Krys

Este ano vem sendo igualmente difícil, mas recompensador, para Rachel Krys, co-diretora da coalizão End Violence Against Women (Fim à Violência contra as Mulheres), e para a ativista Paola Diana, autora do livro 'Saving The World. Women: the XXI's Century Factor For Change' (Salvando o Mundo. Mulheres: o Fator de Transformação do Século 21). As duas são gratas ao movimento #MeToo porque ele, aliado ao diálogo contínuo em torno da violência sexual, vem amplificando sua militância em torno desse problema.

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Participantes da Marcha pelo Fim da Cultura do Estupro

"Você já não sente tanto que está gritando dentro de um buraco negro, porque de repente muita gente está falando disso", explica Krys, que trabalha para a coalizão há dois anos e meio.

"No primeiro ano e meio que trabalhei aqui, muitas vezes eu tinha dificuldade em fazer as pessoas entenderem como é amplo e comum o assédio sexual e a violência sexual contra mulheres e qual o impacto que isso pode ter. Eu passava muito tempo tentando convencer as pessoas de que isso ainda acontece.

"A gente tinha que falar da prevalência da violência sexual, apenas para fazer essa discussão ser ouvida. Mas, agora que podemos passar menos tempo falando disso, temos mais tempo para discutir algumas das causas estruturais do assédio e violência sexual e procurar maneiras de combatê-los."

Diana concorda: "O movimento #MeToo criou todo um novo campo de consciência dos direitos e da igualdade das mulheres, algo que não havíamos visto até agora. Eu me sinto mais empoderada pessoalmente por saber que esse problema não está mais sendo ignorado."

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Kristen Stewart diante de uma muralha de fotógrafos homens em Cannes.

Nova pesquisa divulgada esta semana pela The Fawcett Society confirmou uma mudança cultural palpável nos últimos 12 meses. Metade dos jovens de 18 a 34 anos dizem que desde que a campanha #MeToo começou eles estão mais dispostos a abrir a boca para criticar o assédio sexual – e isso inclui 58% dos homens jovens.

Mas ainda é preciso fazer mais. A mesma pesquisa constatou que os homens mais velhos – justamente os que mais frequentemente ocupam posições de poder nas empresas – deixam a desejar em relação às gerações mais jovens. Apenas 16% dos homens com mais de 55 anos já conversaram com outros homens sobre assédio sexual, comparados com 54% dos homens na faixa dos 18 aos 34 anos.

Adams acha que existe mais apoio visível hoje para as mulheres do que existia quando ela foi estuprada, oito anos atrás, mas receia que os serviços de emergência não têm acesso aos recursos necessários para prestar atendimento às mulheres que denunciam ter sofrido violência sexual.

Se há uma coisa que o #MeToo deixou claro, é a intensidade com que os homens poderosos defendem seu poderSophie Walker

Diana também defende que seja promovida uma revisão do sistema de justiça britânico, explicando que os baixos índices de condenação de acusados de estupro desencorajam as mulheres de denunciar seus agressores. Os números mais recentes mostram que menos de um terço dos homens processados por estupro no ano passado na Inglaterra e no País de Gales foram condenados.

Para Sophie Walker, líder do Partido de Igualdade das Mulheres, "o #MeToo precisa virar #WeToo".

Ela disse ao HuffPost Reino Unido: "Tem sido altamente motivador ver quantas mulheres estão vindo a público relatar o que viveram. Agora precisamos organizar o próximo nível, para que as mulheres possam enfrentar e lutar contra os interesses arraigados dos homens poderosos.

"Isso significa buscar e divulgar as vozes de mulheres que ainda não foram ouvidas – estou pensando especialmente nas mulheres negras, lésbicas e trabalhadoras --, para que este possa ser um movimento verdadeiramente representativo. E precisamos apoiar essas mulheres para que se candidatem a cargos políticos em todos os níveis."

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Sophie Walker, líder do Partido da Igualdade das Mulheres

Walker acha que o feminismo precisa se politizar agora para contestar a desigualdade embutida em nossos governos, economias e culturas, e que precisamos de um movimento de massas para conquistar avanços reais.

"Se há uma coisa que o #MeToo deixou claro, é a intensidade com que os homens poderosos defendem seu poder. As reações negativas contra mulheres que desafiaram seus assediadores e agressores vêm sendo tremendas", diz Walker. Ironicamente, ela comenta, o fato de o #MeToo ter sido descrito como "cultura das vítimas" elevou à condição de vítimas "os homens privilegiados e indignados que conservaram seus empregos e seu status".

"Desde o juiz Brett Kavanaugh, cuja indicação à Suprema Corte foi aprovada, não obstante o depoimento profundamente convincente de Christine Blasey Ford, até Johnny Depp conseguindo páginas na revista 'GQ' para se posicionar como vítima e até Cristiano Ronaldo empregando o termo perverso 'fake news' para fazer pouco-caso da mulher que o acusa de estupro, estamos vendo o comportamento e o discurso de Trump sendo repetido em toda parte."

"As mulheres estão iradas. Agora precisamos canalizar essa ira para derrubar todas as instituições desiguais."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Reino Unido e traduzido do inglês.