MULHERES
18/10/2018 10:13 -03 | Atualizado 18/10/2018 10:13 -03

O movimento que as vítimas de Brett Kavanaugh iniciaram não termina agora

“Eles pensam que saíram ganhando”, disse ativista. “Mas, basicamente, desencadearam um movimento que nunca vai parar.”

ANDREW CABALLERO-REYNOLDS via Getty Images
Manifestantes detidas fazem gesto de protesto no prédio do Senado durante manifestação contra a indicação de Brett Kavanaugh a juiz da Suprema Corte dos EUA.

Semanas de protestos contra o juiz Brett Kavanaugh, indicado à Suprema Corte dos Estados Unidos, deixaram vítimas de violência sexual se sentindo frustradas e totalmente exaustas. Mas isso não impediu muitas de continuar a protestar contra um governo que parece estar determinado a silenciá-las.

"Acho que neste momento nenhuma de nós quer se calar, nem pretende se calar, mesmo depois de ele ter sido aprovado", disse ao HuffPost a sobrevivente de um estupro Robyn Swirling, que recentemente confrontou o senador Lindsey Graham (republicano da Carolina do Sul) em público.

"A Suprema Corte é uma instituição tremendamente importante em nossa democracia", ela explicou. "É preciso que nossas vozes sejam ouvidas a cada minuto, alertando que a legitimidade dessa instituição está em risco."

Muitas vítimas de violência sexual que falaram com o HuffPost manifestaram preocupação semelhante, dizendo que a legitimidade do supremo tribunal do país está em jogo. É por isso que elas se recusam a deixar esse assunto de lado e não recuam.

"Vamos lutar até o fim – porque acreditamos que podemos ter um impacto sobre esse processo e acreditamos que é crucial que os senadores entendam o trauma e o impacto da agressão sexual", disse Jess Davidson, sobrevivente e diretora executiva da organização de defesa de vítimas de violência sexual End Rape on Campus (Acabar com o Estupro nas Universidades).

Vamos lutar até o fim.Jess Davidson, diretora executiva da "End Rape on Campus"

Desde que o presidente Donald Trump indicou Kavanaugh para a vaga na Suprema Corte norte-americana, em julho, três mulheres acusaram o juiz de agressão sexual ou má conduta sexual; uma delas, a Dra. Christine Blasey Ford, fez um depoimento emotivo diante do país inteiro, acusando Kavanaugh de ter tentado violentá-la quando ambos eram estudantes secundaristas e entrando em detalhes sobre o que ocorreu.

Desde o depoimento dela, milhares de manifestantes saíram às ruas em Washington e outras cidades norte-americanas. Centenas de manifestantes foram detidas em outubro por participarem de uma "manifestação ilegal" diante do Senado. E dezenas delas ocuparam os gabinetes de senadores, repetindo seus relatos sobre violência sexual sofrida até forçarem os parlamentares a ouvi-las.

Em 5 de outubro, Kavanaugh parecia ter conseguido os votos necessários para ter sua indicação confirmada. A votação final no Senado aconteceria no sábado, 6. Mas as sobreviventes de violência sexual sabem que o movimento que elas desencadearam já se alastrou pelo país.

"Não importa o que aconteça com a nomeação de Kavanaugh, nós já teremos vencido", disse Thenmozhi Soundararajan, diretora executiva da organização de justiça social asiática meridional Equality Labs.

POOL New / Reuters
A Dra. Christine Blasey Ford presta juramento de dizer a verdade antes de depor diante do Comitê do Senado para o Judiciário, em 27 de setembro de 2018. .

Soundararajan disse que a manipulação psicológica de sobreviventes de violência sexual por políticos, visando fazê-las questionar o valor de suas próprias memórias e reivindicações, será lembrada. Os partidários de Kavanaugh podem ter poder político, ela disse, "mas não têm o poder popular".

"Eles pensam que estão vencendo, mas basicamente o que fizeram foi desencadear um movimento que nunca vai acabar", ela comentou. "Todas nós vamos nos recordar de ter visto [o senador] Orrin Hatch mandando vítimas de violência sexual agir como adultas. Todas vamos nos recordar de ver {o senador] Mitch McConnell defendendo o perpetrador, Kavanaugh. Todas vamos lembrar como os republicanos optaram por enviar uma promotora para interrogar Ford, mas assim que a promotora procurou fazer o mesmo com Kavanaugh, eles a colocaram de escanteio, e a partir daquele momento foram apenas homens fazendo discursos de louvor a Kavanaugh, dizendo que ele é um sujeito ótimo. Não existe maior evidência de patriarcado que essa."

Eles pensam que estão vencendo, mas basicamente o que fizeram foi desencadear um movimento que nunca vai acabar.Thenmozhi Soundararajan, diretora executiva da Equality Labs.

Embora tenham esperanças de que as coisas mudem, as vítimas de violência sexual ainda sofrem os efeitos inevitáveis de serem forçadas a defender sua humanidade inúmeras vezes. Essa dor só cresceu quando Donald Trump, ele próprio acusado de agressão sexual por mais de 20 mulheres, zombou e caluniou vítimas de agressão sexual duas vezes nesta última semana.

"Ver a Dra. Ford desacreditada, ironizada e humilhada trouxe recordações dolorosas de volta para mim e para milhares de outras pessoas pelo país afora", disse Morgan McCaul, estudante na Universidade do Michigan e vítima de Larry Nassar, ex-treinador das atletas da equipe americana de ginástica olímpica e da Michigan State University. "Não é fácil ver o sofrimento de outra vítima ser tratado como algo que merece menos atenção que uma nomeação política."

Drew Angerer via Getty Images
Manifestantes protestam contra Kavanaugh no átrio do edifício do Senado, no Capitólio, 4 de outubro.

Robyn Swirling conta que viu sobreviventes de todos os gêneros, mas especialmente mulheres, serem "ativamente retraumatizadas" por todo o processo das audiências de confirmação de Kavanaugh.

"É profundamente desalentador e francamento muito sofrido ver meu governo ser tão explícito ao mostrar que não dá a mínima para o que viveram as vítimas de agressão sexual", ela disse.

Alison Turkos, que sobreviveu a vários estupros, disse que está literalmente lutando por sua sobrevivência.

"Já tive que resistir antes", ela disse. "Isto daqui não é novidade para mim. Eu me recuso a ficar em silêncio, como se minha voz não tivesse importância."

Amanda Nguyen, fundadora da ONG nacional de defesa dos direitos civis Rise e criadora da Sexual Assault Survivors' Bill of Rights, ou Carta de Direitos dos Sobreviventes de Violência Sexual, manifestou espírito semelhante de resistência.

"Muitas vítimas e aliados talvez estejam desanimados hoje, mas já pude ver em primeira mão o que a perseverança em enfrentar a injustiça é capaz de fazer", disse Nguyen, ela própria sobrevivente de estupro, ao HuffPost. "Vamos levar nosso trabalho adiante para que ninguém mais tenha que enfrentar a luta que eu enfrentei."

Soundararajan disse ao HuffPost que, não importa o que aconteça com Kavanaugh, as sobreviventes vão levar sua luta adiante.

"Se é esta a batalha que eles querem escolher, eles vão perder a guerra", ela concluiu.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.