17/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 05/11/2018 20:31 -02

Iara Lobo, a advogada que combate a violência para honrar a memória de seus pais

Militantes contra o regime, os pais de Iara foram mortos na ditadura militar. Aos 40 anos, ela se formou em Direito e trabalha pelo fim da violência. "É preciso ternura para acreditar no ser humano", afirma.

Iara Lobo é a 224ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Iara Lobo é a 224ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

A violência pode marcar a vida de uma pessoa para sempre. O caminho a seguir depois de entrar em contato direto com ela é o que pode fazer diferença no caminho. Para a brasiliense Iara Lobo, 50 anos, esta realidade chegou cedo. Seus pais foram torturados e assassinados no período da ditadura militar no Brasil. Ela tinha apenas 3 anos e cresceu com esta sombra difícil de carregar, mas conseguiu encontrar seu propósito ao honrar a memória de seus pais trabalhando com mediação familiar, vítimas de crimes violentos e mulheres que sofrem violência doméstica.

A clareza em contar a própria história, o riso fácil, a empolgação ao falar do trabalho, mostram a paixão e o acolhimento que emana de Iara. Como ela mesmo se define, é uma mulher "sujeita à paixões". Se formou em Arte Cênicas no Rio de Janeiro, trabalhou como atriz, se mudou para Brasília e se tornou professora, teve uma confeitaria e, com 40 anos, se formou em Direito. "Fui estudar para fechar um ciclo com a questão de direitos humanos e entender a minha própria complexidade familiar, além de poder ajudar nas questões de outras pessoas", conta em entrevista ao HuffPost Brasil.

Fui fazer estudar para fechar um ciclo com a questão de direitos humanos e entender a minha própria complexidade familiar.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Raimundo Gonçalves Figueiredo e Maria Regina Lobo Leite Figueiredo foram presos, torturados e assassinados durante o regime militar.

Iara tinha 2 anos quando o pai morreu e 3 na morte de sua mãe. "Quando minha mãe escutou que meu pai tinha sido baleado, ela fez uma carta, anotou todas as vacinas que a gente tinha tomado e colocou a gente num ônibus sozinhas no Recife para ir para o Rio de Janeiro. Ela ficou na clandestinidade por mais um ano depois disso, mas precisou abrir mão da gente com medo do que poderia acontecer". Raimundo Gonçalves Figueiredo e Maria Regina Lobo Leite Figueiredo foram presos, torturados e assassinados durante o regime militar. Ela e a irmã, Isabel, foram criadas pela tia e a história da família foi contada aos poucos para as duas.

Ela só foi se dar conta de tudo o que tinha acontecido aos 13 anos e foi desenrolando os fatos em busca de respostas. "Carreguei durante muito tempo dentro de mim coisas que eu escutava na minha infância, do tipo 'olha, lá vem a filha de comunista', ou outras percepções que foram muito ruins, até eu consegui construir uma imagem dos meus pais e conseguir ver coisas positivas foi difícil, porque as pessoas tem necessidade de jogar a pedra", lembra.

Eu não quero semear o ódio. Desde pequena, eu faço esse exercício da não-raiva.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"A ditadura tem muito a ver com o que estamos vivendo hoje."

Grande parte da história dos pais de Iara foi sendo revelada pela Comissão da Verdade. E foi um processo dolorido entrar em contato com os arquivos dos dois. "A ditadura tem muito a ver com o que estamos vivendo hoje porque tudo foi jogado debaixo do tapete, está tudo na porta dos esgotos e como a gente não fez uma limpeza, vamos acabar pagando por isso", aponta. "Sei que meus pais entraram pra luta armada, mas ao meu ver, se acontecer outro golpe militar no Brasil tenho convicção de que a gente não pode partir pra violência, de nenhuma parte. A gente não pode entrar na deles".

É preciso ter ternura para continuar a acreditar no ser humano.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"É muito mais fácil ensinar o amor do que o ódio."

"Eu sou uma ativista da cultura da paz. Acho que a gente tem que trabalhar a nossa tolerância, de fato, avaliar se vamos alimentar o diabinho ou o anjinho que vive dentro da gente, olhar para as pessoas e entender que existem muito mais coisas boas do que ruins. É muito mais fácil ensinar o amor do que o ódio. Fiz questão de não cultivar o ódio aos militares, tenho amigos inclusive que são e tenho honra disso. Eu gosto é do ser humano. Mais do que a ausência de papai e mamãe, o que mexe comigo foi a forma como eles morreram", comenta.

Para Iara, na vida "não existem coincidências, mas providências" que a levaram a trabalhar na implementação do programa Pró-Vítima, em 2009, que promove o acolhimento e a proteção de vítimas de violência. "Faz muita diferença a pessoa ter um atendimento qualificado e humanizado na hora de uma dor tão profunda. Fui a primeira advogada a atender no DF, então não dava para ficar pensando muito, o negócio era agir". O trabalho também fez ela olhar para sua própria história. "Foi só depois de um tempo que eu estava lá que caiu a ficha na minha cabeça que eu também era uma vítima de violência".

A história dos meus pais é uma grande colcha de retalhos pra mim, tem muita coisa bonita, mas muita coisa triste também.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
O trabalhar com casos de violência também fez Iara olhar para sua própria história.

Ela trabalhou em muitos casos de feminicídio e violência contra crianças. Quando começou a ir para o tribunal defender seus casos percebeu a batalha que teria que travar para trazer mais humanização para as vítimas, muitas vezes desacreditadas pelo próprio sistema judiciário. "Fiz vários tribunais de júri onde a vítima é assassinada novamente pelo réu porque a pessoa revive tudo. Se uma criança sofreu abuso com cinco anos, ela só vai ser ouvida por um juiz quase dois anos depois e não fazemos uma coisa chamada de prova antecipada que facilitaria muito", aponta. "E a vítima precisa reviver tudo. Participei de uma caso de abuso com crianças de 6 e 9 anos que tiveram que contar tudo na frente do juiz, foi quase uma sessão de tortura. A gente ainda tem muito que andar na justiça brasileira", completa Iara.

Nem tudo o que é legal é legítimo. Fui muito pro Direito para tentar entender isso.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"A gente ainda tem muito que andar na justiça brasileira."

Iara também foi coordenadora da Casa da Mulher Brasileira que atendia mulheres vítimas de violência doméstica, e que teve suas atividades suspensas neste ano. "Era um trabalho que envolvia muitas áreas diferentes, secretarias, defensoria, delegacia e sentia que ali eu vivia desatando nós. Até um dia que uma assessora minha me viu desanimada e disse que eu fazia muito isso sim, mas também criava laços muito bonitos, aquilo me emocionou tanto de ouvir, aquela era mesmo uma habilidade que eu queria ter quando comecei a trabalhar", conta com os olhos cheios de lágrimas.

Sou uma batalhadora para garantir os direitos das vítimas de violência.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Iara também foi coordenadora da Casa da Mulher Brasileira que atendia mulheres vítimas de violência doméstica, e que teve suas atividades suspensas neste ano.

"Aprendi muito na minha profissão. Vi o quão complexo é a questão da violência doméstica, o quanto é importante olhar no olho, dar atenção para as mulheres, entender de que lugar tudo isso vem", diz. Iara acredita que é preciso trazer informação e diálogo entre as mulheres sobre abusos e os sinais de alerta, uma conversa que ela tem com a própria filha, Marina.

"Quando ela tinha 12, 13 anos, eu dizia: 'não existe príncipe, é tudo sapo'. Precisamos conversar com as nossas filhas. Se vigiou seu telefone, reclamou da roupa, já suspeite. As mulheres se apegam ao cuidar, de sempre tentar e ceder. Temos que dizer assim 'não, basta!', se tá te incomodando, tem que parar", aconselha. E é com este trabalho "de formiga" que Iara honra a memória de seus pais.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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