COMIDA
15/10/2018 16:56 -03 | Atualizado 15/10/2018 16:56 -03

Abri mão da cafeína há 12 semanas: Foi exaustivo e difícil, mas valeu a pena

Foi uma dor de cabeça diferente de qualquer outra.

Não me lembro de quando tomei minha última xícara de chá preto. Eu não sabia que seria a última. Não foi algo pensado ou planejado. Se tivesse sido, talvez eu tivesse feito um pouco mais de cerimônia, demorado um pouco mais para curtir aquele sabor familiar abiscoitado e o calor do chá descendo por minha goela.

Eu poderia até ter escolhido uma bolachinha para acompanhar o chá, em vez de esquecer da bebida e deixá-la esfriar.

Mas me lembro bem demais de três dias subsequentes de dores de cabeça lancinantes; ibuprofeno não ajudava em nada. Numa vida passada, eu não teria me visto como viciada em cafeína – tomava três xícaras de chá preto por dia (o Serviço Nacional de Saúde britânico diz que quatro por dia não são problema) e café muito de vez em quanto --, mas meu corpo contava uma história diferente.

Viktor Potapov via Getty Images

Isso foi 12 semanas atrás. Não tomei uma gota de cafeína desde o dia daquela decisão possivelmente inesperada, considerando que iniciei meu jejum de cafeína sem razão ou plano prévio. No meu íntimo, porém, eu já vinha questionando havia tempo minha relação com a cafeína: ela me ajudava a acordar, mas também me fazia sentir sono outra vez no meio da tarde; podia estar exacerbando meus problemas de pele mensais causados por hormônios; estava ajudando a drenar minha conta bancária.

Durante muito tempo foi fácil fazer pouco caso desses problemas, mesmo porque vivemos em uma sociedade em que nosso dia é pontuado por bebidas quentes e os relacionamentos são consolidados pelo ato de tomar um chá com nosso interlocutor. Mas depois daquele primeiro dia sofrendo sintomas de abstinência de cafeína (desejo intenso, dor de cabeça, exaustão, sentindo ódio ao mundo e todos que vivem nele), eu me convenci de que precisava seguir adiante sem ela.

No segundo e terceiro dias, as dores de cabeça pulsantes não tinham se acalmado. Sem a cafeína correndo no meu sangue eu me sentia exausta, o que me deixava ainda mais frustrada. Quando uma colega bem intencionada me incluía no grupo dos tomadores de chá, colocando uma caneca de chá preto delicioso em cima de minha mesa de trabalho, eu estaria mentindo se dissesse que não ficava tremendamente tentada.

Mas, pensei comigo mesma, se meu corpo estava sofrendo efeitos colaterais tão debilitantes pela ausência de alguma coisa que eu não encarava como problema, talvez o melhor seria eu continuar vivendo sem meu chá preto.

Eu estaria mentindo se dissesse que não penso em tomar um chazinho preto de vez em quando...

No quarto dia a dor de cabeça já tinha quase desaparecido, mas eu estava sentindo falta do ritual de fazer e tomar meu chá. Colocar a chaleira para ferver assim que eu entrava em casa. Minhas manhãs de sábado passadas tomando xícaras e mais xícaras de chá na cama. Preparar um chá para outras pessoas é um daqueles atos de amor imperceptíveis, mas significativos, dos quais participamos como sociedade. E eu estava cansada de ficar derramando chá na pia sigilosamente, sem ninguém perceber, porque as pessoas me ofereciam uma xícara apenas para ser simpáticas.

No final da primeira semana, porém, percebi que eu não estava mais sentindo quedas de energia ao longo do dia. Meu corpo já devia estar funcionando com suas próprias reservas, em vez de esperar por um backup. Eu não estava mais ficando inchada depois de comer, as dores de cabeça tinham desaparecido e minha pele estava muito melhor (era irritante, mas era verdade).

A decaf tea (honestly).

Isso não quer dizer que todo o mundo terá os mesmos resultados que eu ou que todos devam abrir mão da cafeína. Victoria Taylor, diretora de nutrição da Fundação Cardíaca Britânica, diz que alguns adultos são mais sensíveis aos efeitos da cafeína que outros (fato confirmado por inúmeros estudos). Um consumo médio – quatro a cinco xícaras por dia de chá preto ou café – não deve ser prejudicial à saúde da maioria das pessoas.

Mas, segundo a nutricionista Charlotte Stirling-Reed, outras pessoas têm baixa tolerância à cafeína. As pessoas que sofrem taquicardia, ansiedade ou qualquer sensação de mal-estar depois de tomar café talvez se beneficiem se reduzirem sua ingestão da bebida.

A nutricionista explica: "Existem muitas pesquisas sobre os efeitos positivos e negativos da cafeína, e é difícil chegar a uma conclusão firme, já que os prós e contras são tão variáveis, dependendo da reação individual de cada um. Em última análise, o que se recomenda é consumir cafeína com moderação e que cada pessoa se conscientize de seus próprios limites."

Creio que encontrei o meu limite. Tendo começado a notar os efeitos positivos de abandonar a cafeína, me engajei com a causa com ainda mais entusiasmo – e resolvi que era hora de testar o chá descafeinado de saquinho. Para mim, o "Tasty Decaf" da marca PG Tips e o Yorkshire Tea Decaf são os melhores. Eles me ajudaram a chegar a três meses sem ingerir cafeína.

Será que abandonei a cafeína definitivamente? Quem sabe. Ainda não tive que enfrentar uma mega ressaca depois de uma festa de casamento me fortificando apenas com chá de camomila; talvez esse seja o maior teste de minha determinação. Por enquanto, em todo caso, meu experimento de viver sem cafeína continua firme.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.