POLÍTICA
14/10/2018 13:38 -03 | Atualizado 15/10/2018 15:56 -03

'Se PSDB era anti-PT, Bolsonaro é anti-PT ao quadrado', diz cientista político

Em entrevista, Cláudio Couto, da FGV, fala sobre o cenário do 2º turno.

Cientista político considera Bolsonaro um candidato de extrema direita.
Paulo Whitaker / Reuters
Cientista político considera Bolsonaro um candidato de extrema direita.

Em um sistema político democrático a polarização é normal e até desejável. Basta ver como democracias sólidas, como a dos Estados Unidos, se organizam em polos - no caso dos americanos, o eleitorado é composto entre os apoiadores dos democratas ou dos republicanos.

O problema da polarização se dá quando ela vem acompanhada da radicalização. E mais ainda: quando ela vem acompanhada de extremismos.

Essa ideia é defendida pelo cientista político e professor da FGV São Paulo Cláudio Gonçalves Couto. Para ele, desde 2003 o Brasil se divide entre o petismo e o anti-petismo. Nas eleições de 2018, no entanto, esse quadro foi radicalizado com a ascensão da candidatura de Jair Bolsonaro (PSL): "Se o PSDB era o anti-PT, Bolsonaro é o anti-PT ao quadrado. Ele abocanhou o eleitorado que estava tucano, mas que não necessariamente era tucano", argumentou em entrevista ao HuffPost Brasil.

O cientista político considera Bolsonaro um candidato de extrema direita, pois "faz uso não só do discurso da violência, mas também da estética da violência em toda a sua campanha". Couto, ainda, compara o militar da reserva a outros líderes autoritários como Hugo Chávez, da Venezuela, Rodrigo Duterte, da Filipinas, e Viktor Orbán, da Húngria.

"Há motivos para ter receio [sobre um possível governo Bolsonaro]. A questão é: nós temos estruturas institucionais para segurar o radicalismo que está presente no discurso dele? Eu espero que sim", argumenta Couto.

Em pouco mais de 30 minutos de entrevista com o HuffPost Brasil, o especialista em política e processos de governo reflete sobre polarização; o futuro dos partidos tradicionais, como o PSDB; as propostas contraditórias do plano de governo petista e qual será a estratégia utilizada por Fernando Haddad (PT) e Bolsonaro neste segundo turno das eleições.

Assista ao vídeo.

Leia os destaques da entrevista.

1. Disputa no 2º turno

"Não é um resultado surpreendente o Bolsonaro no 2º turno. Quando a gente olha para os estados e vê que tem muita gente decidindo voto nas vésperas, isso não é comum para uma eleição simultânea de presidentes e governadores. Nas eleições presidenciais, a atenção do eleitor é muito grande. É nela que ele está pensando e consequentemente é o voto que ele consegue decidir antes. Então, a gente acompanhou uma curva de crescimento do candidato Jair Bolsonaro na última semana do 1º turno. O eleitor já estava se posicionando em relação ao presidente, e deixou para o fim da semana a decisão para os outros cargos. Por isso tivemos viradas muito grandes nas eleições estaduais."

O Bolsonaro vai muito forte para o 2º turno, porque chegou praticamente na metade dos votos. O grande desafio do PT e de seus apoiadores é a desconstrução do Bolsonaro, que não será uma tarefa simples.

2. O desafio do PT

"Os outros candidatos desidrataram e é ai que temos um ponto interessante dessas eleições porque boa parte dos votos que iriam para Bolsonaro já foram no 1º turno. Isso não quer dizer que deixe ele numa posição desconfortável, mas o fato é que o Haddad tem a possibilidade maior de crescer do que o Bolsonaro. Por isso que o grande desafio é a desconstrução, mas a dificuldade é que o eleitor do Bolsonaro é muito resiliente e resistente a qualquer tipo de desconstrução do candidato com base em suas características marcantes, que são suas falas misóginas, autoritárias. Tudo isso não pega para o eleitorado. O eleitorado minimiza, diz que ele é autentico e sincero, diz que isso não tem risco a democracia e que as instituições podem freá-lo. Por outro lado, tudo que é dito sobre o Haddad é incorporado muito rapidamente por esse eleitorado. Isso não é uma peculiaridade do eleitor do Bolsonaro, todo eleitor vai se identificar mais com o seu candidato."

3. Estratégias para o 2º turno

"O Haddad deu uma declaração dizendo que o 2º turno será baseado no argumento. O problema é: onde se argumenta? Tem um elemento novo que é o seguinte: o Bolsonaro não tinha tempo de TV. Ele teve uma exposição por conta do atentado, e só. Nesse 2º turno, ele vai ter alguns minutos de televisão. O que ele vai fazer com esse tempo? Não da para só mostrar memes ou seguir uma tática de guerrilha online, que foi muito da estratégia do Bolsonaro no 1º turno e que se assemelha a estratégia usada pelo Trump. Por outro lado, o PT não conseguiu se desenvolver nessa área e vai precisar do tempo de televisão para fazer a sua "guerrilha", sobretudo nos debates. Bater nos temas que reforçam os estereótipos do Bolsonaro não funcionam. Onde eles tem que bater, ao meu ver, é na questão de mostrar as políticas públicas e nas propostas de governo, já que o Bolsonaro não formula, só delega."

A estratégia do Bolsonaro no 1º turno e que se assemelha a estratégia usada pelo Trump. Por outro lado, o PT não conseguiu se desenvolver nessa área e vai precisar do tempo de televisão para fazer a sua 'guerrilha', sobretudo nos debates.

4. O apoio do PSDB

"Depende de que parte do PSDB estamos falando. Os fundadores do partido, embora tenham uma relação áspera com o PT, vão se deparar com uma discussão que será posta entre democracia x autoritarismo. É possível que uma parcela dos tucanos vá com o Haddad. Mas eu tenho dúvidas se isso vai acontecer em uma medida institucional. Acho mais provável que isso ocorra em termos individuais. O Sergio Fausto, superintendente da fundação do FHC, escreveu um artigo na revista Piauí fazendo criticas duras ao PT, mas fazendo uma ressalva de que não é possível comparar o partido ao Bolsonaro quando se trata de democracia. Eu entendo que esse tipo de postura será adotada por certos setores. Mas não será nos setores dos mais jovens, como o do João Doria."

5. O futuro dos tucanos

"O PT levou uma surra no sudeste do País. Suplicy, Lindbergh, Dilma, Pimentel. Mas o PSDB também não se deu bem. Por que o PSDB desidrata? Porque ele conseguiu se construir como o anti-PT a partir de 2002. Como a direita tradicional representada pelo malufismo e o carlismo tinham entrando em declínio sobretudo em disputas nacionais, o PSDB ocupa esse espaço e o voto anti-PT virou o voto tucano. Com o desgaste do PT, o PSDB teria uma chance. Mas o PSDB também levou um tombo, assim como outros partidos tradicionais. O PT conseguiu se recuperar nessas eleições no Nordeste, na eleição presidencial, e em algumas conquistas no Legislativo. Isso porque não sobrou alternativa no campo da esquerda. Mas na direita apareceu alguma coisa que era muito mais forte para o antipetismo. Se o PSDB era anti-PT, o Bolsonaro virou o anti-PT ao quadrado. Consequentemente abocanhou esse eleitorado que estava tucano, mas que não era necessariamente tucano, a ponto de carregar várias nomes nas eleições estaduais. Agora é preciso saber como esses nomes vão se sair no legislativo."

Se o PSDB era anti-PT, o Bolsonaro virou o anti-PT ao quadrado. Consequentemente abocanhou esse eleitorado que estava tucano, mas que não era necessariamente tucano

6. Bolsonaro é uma ameaça?

"Vamos analisar como a imprensa internacional está cobrindo a candidatura do Bolsonaro. Talvez o caso mais notável seja o da The Economist. E eu acho que é preciso ver com cuidado essa situação, porque um candidato que tem um discurso de violência, usa, inclusive, a estética da violência, o símbolo da campanha é uma arma e faz o gesto sempre rindo, pega o tripé da câmara e fala que vai metralhar os petistas. Tudo bem, pode ser galhofa, mas vamos dizer que não seja. O voto dele do impeachment, fazendo um elogio claro ao ditador Ustra, que foi um torturador. São diversas declarações e a defesa da ideia da violência, ai não mais como galhofa, de que os policiais sejam estimulados a matar. A gente já tem uma das polícias que mais mata no mundo. Se isso fosse garantia de paz, nós ja seriamos uns dos países mais seguros do mundo. Mas não é. E ele defende que policial não só mate, mas seja condecorado ao matar.

Esses sinais são preocupantes. E isso me faz analisar que ele tem um comportamento muito mais próximo ao Hugo Chávez, Rodrigo Duterte, Viktor Orbán, Recep Tayyip Erdoğan. E em todos os casos tem esse autoritarismo. Então, há motivos para ter receio. A questão é: temos estruturas institucionais para segurar esse radicalismo que está presente no discurso dele? Eu espero que sim. Mas nós vivemos um momento de crise da democracia, crise das instituições, de exageros até por parte do judiciário. Então temos dúvidas se conseguiremos reter esses ímpetos de autoritarismo. Sim, ele tende a moderar o discurso. Mas a questão é: vai ser uma mudança somente para as eleições? Ele vai afastar todo esse discurso que ele construiu ao longo do tempo? Ou isso vai virar a prática, caso seja eleito?"

A questão é: temos estruturas institucionais para segurar esse radicalismo que está presente no discurso dele?

7. As propostas contraditórias do PT

"O plano de governo petista fala sobre o controle de mídia. O Haddad explicou que o que eles estimulam não é o controle dos conteúdos, mas o estímulo a competição. Ter mais veículos para diminuir o monopólio. Ele citou um questionamento sobre as mídias internacionais atuarem no país e disse que não vê o menor problema nisso. Para mim, essa defesa não é uma ameaça a democracia. Mas o fato é que há setores mais extremos do PT que divergem sobre isso, que defendem sim um controle maior, mas não foi esse o posicionamento hegemônico do partido. O que prevaleceu foi essa defesa do Haddad. Se for para estimular o pluralismo, entendo que seria bem vinda.

No caso da constituinte, eu vejo como uma proposta diferente da do Mourão. Mas nenhuma das duas são boas propostas. O Mourão entende que o presidente vai chamar um grupo de notáveis, pessoas próximas a ele, e vão construir um texto que será levado a plebiscito, sem passar por nenhum outro órgão. Isso é perigoso. Isso é o que fazem os governos autoritários. é o que chamamos de bonapartismo. Esses líderes ganham o poder e fazem um plebiscito para aumentar o seu próprio poder. Isso foi o que o próprio Chavez fez, ele convoca uma constituinte que dissolve os outros poderes e ela se impõe ao resto do país.

Essa constituinte do Haddad é uma ideia ruim que acabou entrando no plano de governo por pressão do PCdoB. É uma ideia antiga que vem da ideia de fazer uma constituinte exclusiva para fazer uma reforma política. A gente discutiu isso no Brasil há uns 4 anos. A ideia é: os políticos não fazem a reforma política porque vai de encontro aos interesses deles. Então, a gente convoca a constituinte para tornar a reforma real. É uma saída ruim e desnecessária. Nós temos no 105 emendas constitucionais aprovadas no Brasil. Isso dá em media 3 emendas por ano. E porque a gente emenda tanto a Constituição? Porque a nossa Constituição versa muito sobre políticas públicas que se tornam obsoletas rapidamente. Então, você precisa emendá-la. Não é difícil emendar a constituição quando você tem maioria no Congresso. Se é para reformar a Constituição, vamos fazer por meio do processo que tem sido feito até então. Apresenta-se uma proposta, discute-se com o Congresso e se achar que tá tudo bem, criamos a emenda constitucional. Chamar uma constituinte exclusiva, mais do que tudo, gera um receio nas pessoas do que está por vir. E essa mensagem não é boa. Cria intranquilidade. O País está polarizado, há radicalização no debate, e esse não é o momento. A nossa Constituição permite as emendas e ela será ajustada ao longo do tempo. Não é preciso uma constituinte."

Se é para reformar a Constituição, vamos fazer por meio do processo que tem sido feito até então, que são as emendas constitucionais.

Em entrevista ao Jornal Nacional no dia 8 de outubro, contudo, os candidatos negaram as propostas de Constituintes.

Jair Bolsonaro desautorizou o seu vice, general Mourão. "Jamais posso admitir nova Constituinte e não entendo o que ele quis dizer com autogolpe. Se estamos disputando as eleições, aceitamos o voto popular", declarou.

Fernando Haddad afirmou que revisou o plano de governo. "Nós revimos nosso posicionamento [sobre Constituinte] e vamos fazer as reformas por emenda", esclareceu.

8. Polarização na política

"A polarização é normal e é até desejável em uma democracia. Toda democracia tem uma polarização. Veja os EUA, Argentina, Inglaterra. A polarização permite o antagonismo que o eleitorado vai se identificando. O problema é quando a polarização vem acompanhada da radicalização. E mais ainda: quando ela vem acompanhada de extremismo. E eu entendo que a nossa polarização caminhou para o extremismo. Mas não são dois extremos. São dois polos e há um candidato de extrema direita, por conta de todo o seu discurso. O PT é um partido de esquerda, mas não de extrema esquerda, basta ver como foram os seus governos. Eu não vejo práticas autoritárias, vejo corrupção. Mas se corrupção fosse elemento de extremismo precisaríamos dizer que o MDB é extremista, e não é isso que acontece. Eu não vejo o PT como um partido chavista. O chavismo é extremista. Mas no caso do Bolsonaro eu vejo isso. E isso é um perigo. O adversário deixa de ser adversário e vira inimigo. Esse discurso é perigoso porque cala qualquer possibilidade de diálogo. E esse cenário vai permanecer após a eleição, seja qual foi o presidente eleito. O próximo presidente, espera-se que ele busque estabelecer o diálogo. Se for o Bolsonaro, que ele se modere. Se for o Haddad, que tenha um discurso em busca de união. Precisamos da acomodação com o centro, com o PSDB e principalmente com a sociedade. Se não buscarmos essa conversa, a gente parte para um cenário de conflagração."

O problema é quando a polarização vem acompanha da radicalização. E mais ainda: quando ela vem acompanhada de extremismo.