15/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 15/10/2018 16:07 -03

Cafira Foz, a cozinheira que prepara comida, experiência e memória

“A gente tenta se colocar aqui [no Fitó] como cozinha brasileira e afetiva. O cardápio veio disso. Junção de técnicas com experiências de vida e um olhar para frente”, afirma em entrevista ao HuffPost Brasil.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Cafira Foz é a 222ª entrevistada do

Tem aquele cheiro de comida de casa de família. Cheiro de comida boa. Uma carne daquelas bem temperadas, arroz, feijão e nem sei mais o quê. Não tem como não se envolver pelo aroma do restaurante. Era hora do almoço dos funcionários. Ou melhor, das funcionárias, porque quem faz a coisa funcionar ali é uma equipe composta totalmente por mulheres. E, na chegada, nada melhor do que se deparar com esse cheiro tão familiar de comida de casa. Coisa de essência. Algo universal e particular ao mesmo tempo. Era justamente isso que Cafira Foz, 34 anos, queria no Fitó. Esse clima intimista que já começa pelo nome do restaurante. Fitó é seu apelido de infância, dado pela mãe. Nada mais família do que isso. "É tudo sobre o restaurante e quer dizer nada. É uma palavra que não existe", define.

Há pouco mais de um ano, o Fitó abriu as portas em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Uma imagem de casa sertaneja por fora com seus grandes janelões azuis. Dentro, madeira, plantas, cimento, obras de amigos e uma grande luminária feita por seu pai. Um local construído aos poucos, com esses toques bem pessoais. E foi assim, partindo de suas experiências de vida, que Cafira entrou nessa área de forma profissional. Até alguns anos atrás, a comida não estava nesse lugar profissional. "Eu não fiz escola de gastronomia, mas sempre fui uma 'gastróloga', sou aficionada por comer [risos]. No nordeste a gente ajuda em casa, essas tarefas fazem parte da educação, era algo natural e o Fitó veio da minha experiência de vida de olhar e falar 'acho que sou cozinheira, é minha profissão'", conta Cafira.

Sempre fui uma gastróloga, sou aficionada por comer. No nordeste a gente ajuda em casa, essas tarefas fazem parte da educação.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
E foi assim, partindo de suas experiências de vida, que Cafira entrou nessa área de forma profissional.

Nascida em Fortaleza e criada no Piauí, grande parte de suas memórias de infância e de sua família estão relacionadas com a comida. "A gente tinha um sítio que ficava a uns 30 km de Teresina, já no Maranhão, e nesse sítio passávamos finais de semana muitos festivos e fartos, com muita carne. Esses momentos muito legais e minhas memórias afetivas vêm muito desse sítio. Era comida, cachaça, piscina e briga. Era muito divertido, era massa. E sigo na busca dessa memória..."

Antes de criar o projeto do restaurante, Cafira nunca tinha pensado em ser cozinheira. Trabalhou com moda e na área do varejo e a comida fazia apenas parte do dia a dia e das funções domésticas. Até que durante uma viagem a França teve uma experiência que mudou as coisas. "Fui num restaurante de referências asiáticas e fiquei tão fascinada com aquilo, achei tão incrível e reconheci ingredientes nordestinos, a presença dos caldos, pimenta, coentro. Achei incrível e comecei a pensar nos ingredientes, diversidade. Foi super bonito, fiquei emocionada o dia inteiro e comecei meus estudos. Foram quatro anos desse dia até eu abrir o Fitó". Uma faculdade da vida, digamos assim.

Minhas memórias afetivas vêm muito desse sítio. Era comida, cachaça, piscina e briga. Era muito divertido, era massa. E sigo na busca dessa memória...

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Uma imagem de casa sertaneja por fora com seus grandes janelões azuis. Dentro, madeira, plantas, cimento.

Nessa época. Cafira já morava em São Paulo – está na cidade há 10 anos. Antes disso, morou em Florianópolis. Ela saiu de casa aos 19 anos para viver sua vida a acabou na capital paulista. Aqui, foi iniciando seus estudos e construindo a ideia de trabalhar com comida. O conceito surgiu da mistura de sua origem, seu dia a dia e sua memórias afetivas. "Eu não me coloco como nordestina, mas como brasileira e por acaso sou nordestina, minha matriz de cozinha é o que eu comia no nordeste e o que é acessível. Essa referência eu coloco como vivência diária. O referencial é da minha vida, do que escuto, do que ouvi porque não sou acadêmica. Queria algo que fosse confortável com o que eu fazia, que sempre foi uma cozinha doméstica, e a partir dessa vivência colocar técnica e essência para essa cozinha".

Foi o que fez em seu restaurante. Junto desse conceito, Cafira busca ainda fortalecer a identidade brasileira. "A gente tenta se colocar aqui como cozinha brasileira e afetiva. O cardápio veio disso. Junção de técnicas com experiências de vida e um olhar para frente. Tentar trazer o que é o povo brasileiro, sem levantar bandeira de regionalização, acho que somos todos brasileiras e ainda temos pouco acesso a se alimentar bem".

Com essa ideia, além de trazer os ingredientes típicos, Cafira queria também buscar ingredientes possíveis, sempre pensando no dia a dia de quem cozinha. "Sempre penso nisso, escolho ingredientes que a dona de casa pode usar, penso na falta de recurso. Como cozinhar com um recurso em um país que é abundante, mas não tem acessibilidade ou [há ingredientes] pouco acessíveis. Penso em algo que seja possível de valor, sabor, gosto e vivência. Quero que as pessoas se reconheçam no dia a dia, das suas matrizes que não acessaram por suas avós, mas sabem que está dentro deles. Quero que aqui ele perceba um pouco do que é o Brasil e o nordeste".

Eu não me coloco como nordestina, mas como brasileira e por acaso sou nordestina, minha matriz de cozinha é o que eu comia no nordeste e o que é acessível.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Há pouco mais de um ano, o Fitó abriu as portas em Pinheiros, zona oeste de São Paulo.

Para além da cozinha e do conceito da casa, outro ponto que o restaurante busca fortalecer é a presença das mulheres nesse espaço. Além do sócio de Cafira, todas as demais funcionárias são mulheres. "São 33 funcionárias que se identificam assim". Na equipe há mulheres trans e cis e essa é uma forma de construir o negócio também. "Na verdade eu venho de uma família em que as mulheres têm uma representatividade grande. [Fora isso], temos um cenário em que as mulheres ganham menos, deixam de entrar no mercado e ainda há um tabu para quem vai contratar então resolvi olhar para a desigualdade como algo que temos que olhar porque ela só acontece porque a gente não pratica. A gente coloca essas mulheres lá no fundo e não olha para elas e demoniza essas mulheres achando que estão em um lugar que não é delas... A mãe, a jovem mulher, a trans e se você traz pra si você vê que é uma viagem. Mostramos aqui que é possível trabalhar com uma estrutura que envolve as mulheres sim".

Mostramos aqui que é possível trabalhar com uma estrutura que envolve as mulheres, sim.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Penso no Fitó como um espaço de experiência e a comida é prioridade."

E é com todo esse staff que Cafira comemora esse mais de um ano do Fitó. Lembra que foi um período maravilhoso, mas de muito trabalho, desafios e aprendizado. Agora, ela está focada em desenvolver novos pratos e finaliza uma pequena reforma para oferecer mais mesas para os clientes. Se prepara, então, para a missão de manter a casa cheia. Talvez esse seja o grande desafio do negócio – fazer as pessoas escolherem o seu restaurante para comer – mas, ao mesmo tempo, uma das mais prazerosas. "Eu gosto muito de receber. Botar a comida no seu prato, gosto da expressão das pessoas quando estão comendo... observo muito a expressão das pessoas quando estão comendo".

A gente tenta se colocar aqui como cozinha brasileira e afetiva. O cardápio veio disso. Junção de técnicas com experiências de vida e um olhar para frente.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Antes de criar o projeto do restaurante, Cafira nunca tinha pensado em ser cozinheira. Trabalhou com moda e na área do varejo.

Isso porque Cafira sabe que se alimentar não é apenas comer. Há todo um ritual em torno disso, todo um sentimento. É mais do que simplesmente comer, por mais que o principal, é claro, seja ter comida boa. "Penso no Fitó como um espaço de experiência e a comida é prioridade, mas entra em vários valores então é trabalhar para que tenha sempre esse padrão, para que você encontre o que a gente anuncia como afeto. E sai um pouco somente da cozinha e entra em várias questões. Mas para comer, tem que ter comida boa".

Aquela comida de casa. Com aquele cheiro. E isso tem de sobra.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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