12/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 13/10/2018 09:30 -03

Cláudia Araújo, a mulher que une forças para espalhar a 'corrente do bem'

Ela transformou a própria casa em uma verdadeira central de doações e atende dezenas de famílias carentes todos os meses. "Não adianta a gente só dizer que o mundo tem que mudar, se não fizer nada."

Cláudia Araújo é a entrevistada 219ª do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Cláudia Araújo é a entrevistada 219ª do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Há seis anos, Cláudia Araújo, decidiu que precisava fazer o bem. Estava casada, tinha dois filhos quase criados, possuía uma confortável casa construída com algum sacrifício em Porto Alegre. Trabalho não lhe faltava: a comerciante mantinha uma loja de roupas.

"Não conheço a Cláudia pessoalmente mas gostaria de conhecer, lhe dar um abraço e lhe dizer obrigado pelos antibióticos que me conseguiu na quinta-feira. Obrigado mesmo eu estava desesperada, a Karina Pereira Alves foi quem entrou em contato com vc." (mensagem postada no grupo "Amor ao Próximo")

Mas havia espaço para mais - espaço na rotina, no coração e na garagem, setor da residência da família hoje tomado por doações de todo tipo, de roupas a cadeiras de rodas. Foi a filha mais velha quem despertou Cláudia, 50 anos, para a caridade após fazer uma visita com a turma do ensino médio ao Educandário São João Batista, na capital gaúcha. Trata-se de uma escola especial e centro de reabilitação para crianças portadoras de deficiência, mantida basicamente por doações e convênios, e dirigida por voluntários.

Não adianta a gente só dizer que o mundo tem que mudar, se não fizer nada.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Ela recolhe lacres metálicos, que troca por cadeiras de rodas.

Impactada pelo relato da filha (hoje, publicitária formada), ela decidiu promover uma ação de caridade na loja: oferecer descontos às clientes que doassem 2 quilos de alimentos, em prol do educandário. Após o sucesso da primeira campanha, pessoas conhecidas começaram a pedir a ajuda dela para beneficiar outras instituições. E foi assim que Cláudia conheceu o lar Dona Nilza, que acolhe quase 40 crianças e adolescentes na zona sul de Porto Alegre. "Foi por ela que eu criei o grupo Amor ao Próximo no Facebook".

Por meio da rede social, Cláudia começou a arrecadar roupas, comida, fraldas e todo o tipo de doações. Recolhe lacres metálicos, que troca por cadeiras de rodas por intermédio do Rotary Club - cada 100 quilos de lacres (ou 100 garrafas pet de 2 litros cheias) valem uma cadeira de rodas. Descobriu o valor das tampinhas de plástico: vende o material a recicladores e usa a renda para comprar leite. No começo do ano letivo, arrecada material para montar kits escolares para crianças carentes. Na Páscoa, distribui cestas em escolas da periferia. Todas as doações e compras feitas são religiosamente registradas por ela, com direito a fotos das notas fiscais, no grupo do Facebook.

"Claudia eu continuo agradecendo pois só fiz um pedido de socorro pra vc... e quando vi nao acreditei vc estava na minha casa... por mais pessoas como vc sou grata... Deus abencoe sempre vc e todos q fazem esse lindo trabalho fazer o bem sem olhar a quem, obrigado. " (mensagem postada no grupo Amor ao Próximo por uma mãe que recebeu doação de comida)

Eu sou a chata, a que só sabe pedir. Mas se eu não pedir, não posso ajudar!

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Nos dias de folga, frequentemente inventa alguma ação para continuar com sua missão.

É uma rotina pesada, já que Cláudia passa boa parte do dia circulando de carro pela cidade, entregando ou recolhendo doações - gasta R$ 1.600 em gasolina por mês. A cada 15 dias, organiza um "lanche solidário" para moradores de rua: a comida é feita por um grupo na casa dela, e distribuída em noites de sexta-feira ou sábado. Nos dias de folga, frequentemente inventa alguma ação: plantão para receber doações na porta de algum supermercado, ou para arrecadar lixo eletrônico no parque para vender a recicladores, por exemplo. E ainda está cursando a graduação em Gestão Pública, à distância. "Durmo quatro horas por noite", diz ela.

Cláudia ajuda regularmente mais de 100 famílias e 80 casas de saúde. Sua prioridade são crianças com necessidades especiais, e é para ajudá-las que decidiu registrar a Associação Beneficente Amor ao Próximo (Abap). O plano é arrecadar doações para construir um centro de reabilitação para crianças e jovens com doenças neurológicas. "Trinta por cento das vagas serão reservadas a crianças especiais com mais de 21 anos. Eles não têm assistência porque são maiores de idade, mas ainda precisam de cuidados, e as mães precisam trabalhar". Não será fácil: embora o grupo online tenha 22 mil membros, menos de 200 se cadastraram como colaboradores.

Tem 22 mil pessoas que me curtem e só 150 que me ajudam.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Cláudia ajuda regularmente mais de 100 famílias e 80 casas de saúde.

Cláudia conta também com a ajuda dos pais, cuja casa virou um centro de coleta. E tem a parceria de um transportador, que leva e traz doações junto com os fretes pelo interior do Estado. Mas admite que é "muito centralizadora". Analisa um a um os cerca de 20 pedidos de ajuda que chegam a cada dia via Facebook. Alguns são descartados, mas para atender muitos outros ela não mede esforços: pega o que tiver na garagem, bota no carro e vai até quem precisa a qualquer hora.

Tem gente que todo mês me pede comida, mas que podia estar trabalhando, fazer um bico. Aí eu não ajudo, precisa aprender a pescar. Sou boazinha, mas às vezes sou carrasca.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, um dos centros de coleta das tampinhas metálicas é a casa dos pais de Claudia: e a rede de ajuda se espalha.

Os pedidos que não pode atender, Cláudia dá um jeito de intermediar. Pela página do grupo Amor ao Próximo no Facebook, busca médicos e dentistas que possam atender alguém de graça, pede doações de remédios ou equipamentos para pessoas que não têm como custear certos tratamentos de saúde. Mobiliza uma rede de pessoas conhecidas ou não para que façam o bem.

"Claudia, você é os olhos da gente. Mostra e vê aquilo que não conseguimos . Nunca pense em desistir o retorno é diário." (comentário postado no grupo Amor ao Próximo).

Em 2016, Cláudia resolveu experimentar a política, por achar que, como parlamentar, pode amplificar o alcance de sua corrente do bem. Filiou-se ao PSD e foi candidata a vereadora em Porto Alegre, mas ficou na suplência. Em 2018, tentou uma cadeira na Assembleia Legislativa gaúcha. Os 7.457 votos que recebeu não foram suficientes, mas ela não vai desistir. Já vai avisando: 2020 é logo ali.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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