ENTRETENIMENTO
12/10/2018 00:42 -03 | Atualizado 12/10/2018 00:52 -03

A longa e frustrante jornada política de Taylor Swift

Está surpreso? Não deveria. A era de 'Reputation' tem sido um longo experimento para uma Swift mais sincera.

Getty

"I stay out too late, got nothin' in my brain" (fico na rua até muito tarde, não tenho nada no cérebro), canta Taylor Swift no hino dos descomprometidos, Shake It Off.

"That's what people say" (é o que dizem).

O que a popstar não menciona na longa lista de críticas que recebeu são as acusações de que ela é a "deusa ariana da alt-right" (direita alternativa), apoiadora enrustida do presidente Donald Trump, capitalista inescrupulosa que precisa de uma bússola moral e estrela pop que merece culpa, pelo menos em parte, pela ascensão dos valores conservadores nos Estados Unidos. Sendo justos, essas acusações são um pouco mais difíceis de refutar na duração de uma música música.

Mas aí ela postou seu apoio aos candidatos do Partido Democrata do Tennessee nas eleições para o Congresso no mês que vem: o ex-governador Phil Bredesen, para o Senado, e o deputado Jim Cooper para a Câmara. Swift diz apoiar os direitos humanos para todos e fez menção especial à comunidade LGBT, à igualdade de gêneros e à justiça racial. A cantora também revelou que "relutava" em compartilhar suas posições políticas, mas decidiu fazê-lo em nome dos seus mais de 100 milhões de seguidores.

Alguns conservadores reagiram ao post pedindo que os fãs boicotassem as músicas dela, afirmando que Swift deveria calar a boca e se limitar a cantar (porque deu tão certo da última vez), renovando o compromisso com o #TeamKanye e até mesmo expressando desdém, como o previsível tweet do ex-governador do Arkansas Mike Huckabee.

Mas a decisão também surpreendeu os liberais, que há muito tempo tinham relegado Swift à Sibéria da política por causa do silêncio da cantora durante a eleição presidencial de 2016.

"Ei, @taylorwsift13 –

Você acaba de apoiar um democrata na eleição para o Senado do Tennessee com uma declaração ridícula, afirmando que Marsha Blackburn, uma mulher, é contra as mulheres

Você não faz a menor ideia do que está falando

Sua carreira nunca se recuperou desde que Kanye deu um fim nela."

"@taylorswift tem todo o direito de ser política, mas não vai ter impacto na eleição, a menos que meninas de 13 anos possam votar. Ainda estou com #Marsha Blackburn."

As manchetes descreveram a declaração de Swift como "sua primeira incursão na política" e um "mergulho nas águas da política". Mas a ideia de que Swift tenha sido apolítica até o momento de clicar em "postar" no Instagram é um pouco infundada.

Ao longo dos anos, Swift e sua equipe vêm se manifestando com cada vez mais frequência – para o bem e para o mal – a respeito de várias questões políticas. E, como seus críticos mais ferozes não deixam de lembrar, o silêncio dela tem implicações perigosas.

Em retrospecto, a era de Reputation tem sido um grande teste para uma Swift mais cândida e política. Sua jornada até chegar ao status de ""finalmente acordada" teve vários obstáculos, mas a cantora vem caminhando para essa "saída do armário" desde pelo menos a metade do ano passado. Devíamos estar preparados.

Time
The cover of Time magazine's 2017 Person of the Year issue including Taylor Swift among women who had spoken out in the Me Too movement.

No mensagem em que anunciou seu apoio aos candidatos, Swift deixou isso bem claro, fazendo referência a "eventos na minha vida e no mundo" que motivaram esse despertar político.

Embora não tenha dado detalhes, não é exagero imaginar que ela estivesse se referindo ao julgamento em que recebeu indenização simbólica de 1 dólar por ter levado uma passada de mão de um apresentador de rádio de Denver, em 2013. Swift foi elogiada por sua postura durante o julgamento, que ocorreu antes das acusações contra Harvey Weinstein, origem do movimento #MeToo. Mais tarde, Swift seria reconhecida como uma das "Rompedoras do Silêncio" na edição de "Pessoa do Ano" publicada anualmente pela revista Time. Swift figurou na capa da edição, ao lado da atriz Ashley Judd e outras mulheres que simbolizaram o movimento.

"Não aceite a culpa que os outros vão tentar colocar nas suas costas", escreveu Swift na entrevista publicada pela Time. "Você não deveria ser culpada por esperar 15 minutos, 15 dias ou 15 anos para denunciar abuso ou assédio sexual, ou pelo que acontece com a pessoa depois de ele ou ela decidirem assediar ou abusar sexualmente de alguém."

Desde então, Swift deixou aparente seu apoio a outras causas progressistas, inclusive algumas que não têm relação imediata com sua vida. Em março, ela anunciou uma doação à campanha antiarmas March for Our Lives, liderada por adolescentes que sobreviveram ao massacre na escola Marjory Douglas High School, na Flórida. Ela defendeu "reforma" das leis relativas às armas nos Estados Unidos, seu primeiro comentário público sobre o tema.

Meses depois, em um show, ela celebrou o mês do orgulho LGBT, fazendo um discurso sobre "amor" e "respeito" para os fãs queer e usando um vestido com as cores do arco-íris.

"É muito corajoso ser vulnerável sobre seus sentimentos em qualquer sentido, em qualquer situação", disse ela à plateia. "Mas é ainda mais corajoso ser sincero sobre seus sentimentos e sobre quem você ama quando se sabe que isso pode ser recebido com adversidade pela sociedade."

Era uma Swift que não tínhamos visto até então. Ela estava marcando posição em questões que poderiam aliená-la da base conservadora que lançou sua carreira na música country, anos atrás.

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Taylor Swift performs onstage during the Arlington, Texas, stop of the Reputation tour.

Mas também houve passos em falso. O deslize que mais chamou atenção veio junto com a rejeição das acusações de que ela dera apoio tácito a supremacistas brancos. Em resposta a um artigo de 2017 que falava da popularidade da cantora junto à alt-right, advogados de Swift rejeitaram o que dizia o texto e divulgaram uma carta, "mais uma denúncia inequívoca da sra. Swift contra o movimento supremacista branco e a alt-right".

A carta, entretanto, chamou a atenção da ACLU, uma das principais ONGs que defendem as liberdades civis. Os advogados da entidade saíram em defesa da autora do artigo, Meghan Herning, e acusaram a equipe de Swift de tentar silenciá-la. Foi como a ocasião em que ela condenou a mídia, no ano passado: pegou mal. Swift não estaria denunciando os nazistas, mas sim se defendendo.

O gesto mais recente da cantora é mais objetivo. Ela anunciou o apoio ao candidatos democratas sem que parecesse resposta a alguma coisa. Ela preferiu não se manifestar sobre a indicação do juiz Brett Kavanaugh para a Suprema Corte ou sobre as declarações do presidente Donald Trump a respeito da controvérsia. Em vez disso, ela preferiu falar de uma eleição num estado, incentivando seus jovens fãs – alguns dos quais ainda não podem votar, mas devem atingir a idade mínima antes da eleição presidencial de 2020 – a comparecer às urnas.

Para pelo menos 1,6 milhão de pessoas, a mensagem mereceu um "like". Para outros, foi no mínimo um "eu te disse" para os detratores que, numa piada, chamaram seu disco de "Republican".

Mas não podemos nos esquecer de quem estamos falando aqui. É de Taylor Swift, a mais sagaz das sobreviventes do pop, que driblou várias de suas concorrentes com um entendimento preciso de relações públicas e construção de imagem. Sua reputação, com exceção de alguns buracos do tamanho de uma Kim Kardashian, segue em boa parte imaculada justamente por causa disso.

Antes de se posicionar no Instagram, ela encerrou a turnê mais recente – que passou por vários dos estados mais conservadores dos Estados Unidos --, o que significa que ela não tem mais um disco para promover. Sua nêmesis de longa data, Kanye West, convenientemente se jogou de cabeça no território Trump, atraindo muitas reações negativas. Para Swift, parecer engajada sem usar o famoso boné pró-Trump "Make America Great Again", de repente virou um excelente negócio.

O verdadeiro teste desse novo capítulo da celebridade de Swift é como e se ela vai continuar se envolvendo com essas questões quando elas não forem mais comercialmente viáveis.

Não há dúvidas de que ela tenha uma plataforma enorme e que ela tem a capacidade de converter ouvintes apáticos em eleitores. A pergunta é: será voltar a contar com as graças do público é seu objetivo político ou a Taylor que conhecemos passou por uma transformação?

*Este texto foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.