COMPORTAMENTO
11/10/2018 16:57 -03 | Atualizado 11/10/2018 16:57 -03

5 maneiras para lidar com a culpa que acompanha a maternidade

Dica: tire a palavra ‘deveria’ do seu vocabulário

Ariel Skelley via Getty Images

Em julho, a tenista superstar Serena Williams tuitou que sua filha, Alexis Olympia Ohanian Jr., tinha dado seus primeiros passos – e que isso aconteceu quando Williams estava treinando. Um mês depois, ela postou uma foto no Instagram e escreveu na legenda que estava achando que "não era uma boa mãe".

"Trabalho muito, treino e estou tentando ser a melhor atleta possível", escreveu ela. "Mas isso significa que, apesar de estar com [Olympia] todos os dias da vida dela, não sou tão presente quanto gostaria."

Se você é mãe – famosa ou não --, já foi vítima desse tipo de sensação de inferioridade, também conhecida como culpa da mãe. O tweet de Williams recebeu mais de 3 000 respostas, muitas de mães admitindo que também perderam momentos marcantes das vidas dos filhos e que entendiam o que a tenista estava sentindo. Seja por causa do tempo que você não passa com as crianças (por causa do trabalho ou por outro motivo), a comida extraordinariamente saudável que você não está servido para elas ou as fotos perfeitas que você não está postando no Instagram, hoje em dia fácil achar que de alguma maneira você está em falta com seus filhos.

Perguntamos a mães e pesquisadores do tema que falassem sobre esse sentimento tão comum -- e como combatê-lo.

Lembre-se: separar um tempo para você também é uma vitória para a família.

Quando perguntamos quando foi a última vez que sentiu culpa de mãe, Ardenia Gould, que atua como coach para mães que trabalham, admitiu que estava sentindo naquele exato instante. Ela iria viajar com amigos no dia seguinte e estava se culpando por causa das perguntas da filha, que tem sete anos. Mas explicar para a filha ajudou a entender que tirar um tempo para si mesma seria uma vitória para ambas, diz Gould.

"Digo para minha filha: 'Sei que ver eu cuidando de mim mesma não deve ser a coisa mais divertida do mundo para você, mas prometo que sou uma mãe melhor quando tenho tempo para recarregar as energias e cuidar de mim, porque daí vou cuidar melhor de você'", disse Gould ao HuffPost.

Em agosto, Maya Vorderstrasse, conhecida por suas mensagens engraçadas sobre maternidade, contou no Instagram que ficou 19 meses sem ir ao cabeleireiro porque, toda vez que pensava no assunto, se sentia culpada. Quando ela finalmente decidiu ir, lembrou da importância de cuidar de si mesma – por ela e pelas crianças.

"Acreditei que deixar meus filhos para fazer algo para mim era negligência", escreveu ela. "Tinha ficado invisível para mim mesma, e essa é uma armadilha perigosa."

Se você trabalha, seu motivo para sair de casa é válido.

Para as mães que voltam ao trabalho depois de dar à luz, a culpa pode ser um "conflito enorme", diz Michelle Kennedy, fundadora e CEO da Peanut, empresa que produz um app que conecta mães.

"Quero estar com meu filho, mas quero mostrar para ele que a mamãe vai trabalhar como o papai", disse ela ao HuffPost.

Kennedy diz que adora o trabalho, mas odeia a ideia de não estar presente em alguns momentos importantes da vida do filho. Isso é acentuado quando ela tem de viajar a trabalho. E a culpa não para por aí.

"Sinto culpa no trabalho porque quero mostrar que sou a Michelle de sempre", afirmou ela. "Ajo como se a maternidade não tivesse mudado nada, mas na verdade tudo mudou."

Kennedy incentiva as mães a parar de ficar remoendo a decisão de voltar ao trabalho se é isso o que elas querem fazer. Ser mãe não é 100% da sua identidade.

"Ser mãe tornou-se parte de quem você é", disse ela. "Pode ser a melhor parte, mas não é a única."

Pare de tentar ser a mãe "perfeita" de Hollywood.

Questionada sobre a pressão que as mulheres colocam sobre si mesmas, Liz O'Donnell, autora de Mogul, Mom & Maid: The Balancing Act of the Modern Woman (magnata, mãe e empregada: o equilibrismo da mulher moderna, em tradução livre), sugere dar uma olhada na mãe "perfeita" retratada na mídia popular.

"Somos bombardeadas por essa imagem. Se você olhar para as sitcoms, as mães são sempre perfeitas", diz O'Donnell.

Mais recentemente, Hollywood tem se afastado da imagem da mãe perfeita que não trabalha fora e em vez disso vem perpetuando a ideia da mulher que "conseguem tudo" – ou seja, ela alcança o equilíbrio perfeito entre família e carreira. Katrina Alcorn, autora de Maxed Out: American Moms on the Brink (no limite: mães americanas à beira do precipício, em tradução livre) e do blog Working Moms Break, diz que sempre teve problema com essa frase.

"Parece que estamos pedindo algum tipo de indulgência maluca, como se o plano fosse ficar no sofá fazendo maratona de 'The Americans' comendo bombons, quando na verdade só queremos conseguir trabalhar e cuidar da família, disse ela ao HuffPost. "O problema de 'conseguir tudo' é que, para muitas mulheres, isso significa 'fazer tudo'. E o fato é que ninguém consegue fazer tudo sozinha. Precisamos de apoio."

Nicole Rodgers, fundadora e diretora executiva da Family Story, uma organização que promove as várias maneiras diferentes de ser uma família, dá um conselho parecido, que ela ouviu da sua mãe.

"Minha mãe sempre dizia que a melhor maneira de sobreviver e avançar como mãe que trabalha é aceitar o fato de que você não vai conseguir dar 100% o tempo todo. Lembre-se de que 80% costuma ser suficiente", disse Rodgers. "Basicamente trata-se de jogar fora a ideia de perfeição."

Lembre que há muito mais por trás daqueles posts perfeitos nas redes sociais

O'Donnell também tem um site chamado Working Daughter(filha que trabalha), que dá dicas para mulheres que tentam equilibrar o trabalho com a família. Ela observa que as redes sociais provavelmente levam muitas mães a se comparar umas com as outras. Celebridades mostram seus corpos depois de dar à luz, e nossas amigas postam fotos perfeitas de festinhas de aniversário no Instagram.

"Agora vemos os melhores momentos das nossas amigas", disse O'Donnell. "Estamos voltando para casa depois do trabalho, colocando pijama de flanela, jantando cereal, exaustas. E nossa amiga acabou de fazer uma festinha de aniversário. Você se pergunta: 'Por que não consigo?' Não estamos nos comparando com celebridades, mas sim com nossas amigas e vizinhas."

Eis um dos conselhos prediletos de O'Donnell para as mães: tirem a palavra "deveria" do seu vocabulário.

"Tudo começa com 'deveria'", afirma ela. "Eu deveria estar fazendo um bolo, ou eu deveria estar sendo promovida no trabalho, ou eu deveria pegar aquele projeto no escritório."

Seal Press/Routledge
Maxed Out and Mogul, Mom, & Maid are two books that offer research and insight on how working moms face immense pressure.

Gina Cicatelli Ciagne, conselheira certificada em aleitamento materno e educadora de saúde, tem opinião semelhante sobre a influência das redes sociais na maneira como as mães se sentem em relação a seus filhos.

"São muitos sorrisos e dias ensolarados, mas também são [muitas] noites sem dormir, roupas babadas e choro", disse ela ao HuffPost por e-mail. "Tudo faz parte da jornada chamada vida. Muitos querem apenas mostrar os momentos lindos. Lembre-se, todo mundo passa pelos momentos difíceis também. Quando as mães veem momentos marcantes ou outras experiências, isso pode causar competição e sentimentos de inadequação."

Permita-se fazer tudo errado.

Gould se lembra de uma época em que estava consumida pela culpa da mãe. Quando sua mãe foi diagnosticada com câncer pancreático no estágio 4, Gould a ajudou durante a quimioterapia, viajando entre Dallas e Houston. Muitas vezes ela tinha de deixar a filha com um parente.

"Sentia muita culpa", disse ela. "Dizia para mim mesma: 'Não sei se estou fazendo isso direito. Minha filha está confusa. Estou longe de casa. Tenho uma mãe idosa e uma filha pequena, e não tenho certeza se estou fazendo as coisas certas. Estou só tentando tomar as melhores decisões a cada dia."

Gould disse que aprendeu a se permitir a tomar decisões sem ter medo de se achar uma mãe terrível. Dias atrás, ela contou no Instagram que chegou a um recital de sua filha cinco minutos do fim, por causa de uma reunião de trabalho. Em vez de se torturar, ela concedeu a si mesma o crédito que merecia.

"Cheguei bem no finalzinho", disse ela ao HuffPost. "Pensei: 'OK, perdi, mas tentei'. Me esforcei. Eu queria que ela me visse ali e dei um abraço apertado nela. Ela disse: 'Mãe, você perdeu'. E eu respondi: 'Eu sei, filha, mas estou aqui agora'".

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.