MULHERES
10/10/2018 20:00 -03 | Atualizado 10/10/2018 20:06 -03

Como o assassinato de uma mãe em um vilarejo transformou sua família em ativistas

No Canadá, a violência doméstica é um segredo sombrio em comunidades afastadas.

Charlotte Wolfrey em sua casa, no dia 23 de março de 2018, depois de falar sobre o dia em que sua filha Deirdre foi assassinada.
Darren Calabrese/HuffPost Canada
Charlotte Wolfrey em sua casa, no dia 23 de março de 2018, depois de falar sobre o dia em que sua filha Deirdre foi assassinada.

Deirdre Marie Michelin estava com medo de morrer, então fez o que a maioria das pessoas faria numa situação daquelas: ligou para a polícia.

Mas 25 anos atrás no vilarejo de Rigolet, uma comunidade inuit numa área remota do Canadá, separada do resto do mundo por um mar de pinheiros e água salgada, ligar para a polícia não significava que a ajuda chegaria, pelo menos não rapidamente. O policial mais próximo estava em Happy Valley-Goose Bay, a cerca de seis horas em um snowmobile.

Quando a polícia canadense finalmente conseguiu enviar um avião, o parceiro de Michelin, Jobe Wolfrey, já tinha terminado de cometer seus crimes. Os quatro filhos do casal estavam na cama quando ouviram os tiros. Wolfrey matou a mulher e depois se matou.

O assassinato de Michelin acabou por levar a Royal Canadian Mounted Police a Rigolet, um antigo entreposto comercial onde casos de violência doméstica eram um segredo sombrio, que as famílias mantinham em segredo. Em 2006, 13 anos depois da morte da jovem mãe, a polícia nacional canadense finalmente destacou dois oficiais para o vilarejo, que tem 310 habitantes.

Arquivo Pessoal
Foto fornecida pela família mostra Deirdre aos 18 anos, segurando sua filha Heidi.

"Fiquei com muita raiva porque minha filha, e várias outras mulheres daqui, não tinham o que muitos canadenses tomam como certo: proteção e segurança em nossa comunidade", disse a mãe de Michelin, Charlotte Wolfrey, que fez lobby durante anos para que a polícia tivesse presença local em Rigolet.

O caso de Michelin transformou a família em um grupo de ativistas, pressionando por melhorias em uma região do Canadá em que o isolamento, o alcoolismo e a falta de serviços muitas vezes significa que as mulheres são vítimas de crimes violentos e têm poucas chances de sair dali. Embora as coisas tenham melhorado em Rigolet, a família afirma que ainda falta muito para resolver os desafios das remotas comunidades inuit no que diz respeito à violência doméstica.

O isolamento das terras inuit complica o problema, pois o policiamento é esparso e as comunidades têm desconfiança histórica do governo. Muitas famílias inuit dizem que tem lembranças doídas das escolas residenciais. O sistema, criado pelo governo do país no século 19 para forçar a aculturação da população nativa, separava as crianças de suas famílias e as colocava para estudar em internatos. A última escola residencial fechou em 1996.

Naquela região, vítimas de violência doméstica que fazem denúncias são obrigadas a esperar anos até os casos serem resolvidos. Tribunais temporários são montados nos vilarejos inuit somente algumas vezes por ano, um processo que acarreta lentidão no sistema judiciário.

Darren Calabrese/HuffPost Canada
Meninas caminham por uma das ruas principais de Rigolet, vilarejo remoto na Província de Terra Nova e Labrador, no norte do Canadá, 22 de março de 2018.

Embora existam poucos dados relativos aos crimes cometidos nas comunidades, os índices de violência doméstica são muito mais altos no vasto território ocupado pelos 50 000 inuits que vivem no Canadá, em comparação com a média do restante do país. Mais de metade das as vítimas de crimes violentos registrados aqui são mulheres jovens, segundo a Statistics Canada.

"Muita coisa acontece entre quatro paredes", diz Desiree Wolfrey, irmã de Michelin e diretora executiva da Kirkina House, um abrigo para mulheres em Rigolet.

O abrigo é um espaço em que as mulheres do vilarejo podem falar do abuso que sofrem em casa, diz Wolfrey, que tinha oito anos quando a irmã foi assassinada. Ela se pergunta se um abrigo como a Kirkina House poderia ter salvado a vida de Deirdre.

Até alguns meses atrás, a Kirkina House tinha recursos para funcionar somente alguns dias da semana, o que significa que as mulheres buscando abrigo muitas vezes tinham de voltar para casa no final de semana – ou seja, voltar para os maridos de quem estavam fugindo.

A falta de recursos é um problema constante para os abrigos, afirma ela, porque essas comunidades não recebem recursos federais. Das 53 comunidades inuits que vivem no extremo norte do Canadá, somente cerca de 15 contam com abrigos para mulheres, o que significa que muitas delas têm de abandonar suas famílias e seus vilarejos se quiserem proteção.

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Desiree Wolfrey na cozinha comunitária do abrigo Kirkina House, decorado com fitas roxas, símbolo da conscientização da violência contra as mulheres.

Em Rigolet, que fica num morro perto do mar e durante os longos invernos tem o ar constantemente entrecortado pelo ruído das motos de neve, é cada vez mais difícil para as vítimas fugirem. Não há estradas que liguem o vilarejo a outras cidades, e, por causa da mudança climática, as trilhas sobre o mar congelado nem sempre são seguras. A maioria da população não pode pagar 400 dólares por uma passagem de avião para Goose Bay, um voo de cerca de 45 minutos.

Quando as lojas ficam sem estoque de cerveja, um produto entregue uma vez por ano de barco, Desiree sabe que os moradores passam a tomar destilados – a troca é visível no rosto das mulheres que aparecem na porta da Kirkina House.

"Passamos por períodos em que você não tem como sair, em que você se sente presa [por causa do inverno]. Aumenta o consumo de álcool e drogas, e aumentam os problemas", afirma ela. "Antes do Natal é uma época em que não dá para sair da cidade. Não dá para ir para lugar nenhum por causa do gelo [frágil]. É quando vemos um aumento na violência."

Distantes do movimento global do #MeToo, Charlotte e Desiree Wolfrey são parte de um pequeno grupo de ativistas inuits que tenta melhorar as coisas para as mulheres da região. Elas são parte de uma longa história de mulheres inuits que aprenderam a cuidar de si mesmas em uma região remota e inóspita na qual muitas famílias levavam uma vida nômade até os anos 1960, quando o governo forçou o assentamento em comunidades costeiras.

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A Kirkina House, abrigo para vítimas de violência doméstica em Rigolet, Labrador, em 23 de março de 2018.

A Kirkina House, que opera numa casa térrea e pode abrigar oito mulheres, foi batizada em homenagem a Kirkina Mucko, parteira e enfermeira local que perdeu as duas pernas por causa de queimaduras de frio nos anos 1890. O pai dela teve de fazer a amputação com um machado, segundo a lenda local. Uma foto branco-e-preto de Mucko está pendurada em uma parede do abrigo.

"As mulheres inuit são fortes e resilientes, aguentamos praticamente tudo", diz Desiree, olhando para a foto da parente distante.

A Justiça ainda é problemática

Antes da abertura da Kirkina House, duas enfermeiras locais acolhiam as vítimas de violência doméstica em suas próprias casas, o que significava risco de retaliação e aumento das tensões em uma comunidade em que as relações familiares têm intersecção com tudo, diz Wolfrey.

A presença da polícia e do abrigo ajudam a conter a violência doméstica, afirma ela. Mas o sistema judicial ainda é problemático em vilarejos remotos como Rigolet. Como não há tribunais que funcionem o ano inteiro, juízes e advogados fazem visitas regulares – que muitas vezes são adiadas por causa de nevascas e problemas de agenda. Centros comunitários e igrejas são adaptados para funcionar como tribunais. Advogados se reúnem com clientes em banheiros. Procedimentos que levariam meses são espremidos em alguns dias de audiências.

"Há inconsistências no sistema judicial daqui. A população indígena tem um padrão de serviço mais baixo", afirma Desiree.

Por causa desses obstáculos, casos de violência doméstica podem levar anos para ser resolvidos, em comparação com meses em grandes centros do resto do país. Os advogados reclamam que o sistema judicial de Labrador – que tem de levar a justiça a um território vasto e esparsamente habitado– prejudica as vítimas e também os acusados, que às vezes são obrigados a esperar anos até receber uma sentença e ter acesso aos serviços sociais que podem interromper o ciclo da violência, como programas para dependentes de álcool e drogas.

As mulheres inuit são fortes e resilientes, aguentamos praticamente tudo.Desiree Wolfrey

A perspectiva de enfrentar uma maratona judicial desanima algumas mulheres inuits. A polícia costuma liberar os agressores, mediante a promessa de que eles não vão contatar as vítimas – o que é um problema em vilarejo minúsculos. Há inúmeras oportunidades e tempo para o casal se reconciliar antes de o caso chegar à mesa de um juiz.

"Não estamos falando de ficar um mês sem ver sua mulher. Estamos falando de ficar um ano ou mais sem ver a mulher", diz Mike McKee, um dos dois policiais de Rigolet.

O policiamento é diferente no vilarejo, diz ele. Durante a maior parte do ano, o patrulhamento é feito com motos de neve, e McKee já foi obrigado a transportar os suspeitos detidos em trenós acoplados ao snowmobile – com McKee deitado em cima do preso para que ele não escapasse.

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Mike McKee, um dos dois policiais de Rigolet, em sua moto de neve, na frente do posto policial do vilarejo, em 26 de março de 2018.

A polícia ainda trabalha para avançar em uma comunidade em que o instinto é resolver os problemas internamente, afirma o policial. Para derrubar essas barreiras, McKee tenta se integrar à vida da comunidade, jogando cartas com os idosos no centro da terceira idade e organizando atividades comunitárias. Mas ainda há muita desconfiança em relação às autoridades.

"Houve ocasiões em que acusados foram indiciados e desde o princípio a vítima criava obstáculos. No fim das contas, a queixa acabou sendo retirada. Há um certo 'o que acontece dentro de casa fica dentro de casa'", diz McKee.

"Tem coisas que nem sequer chegamos a saber. As pessoas não nos procuram porque não querem que a informação se espalhe."

Outras mulheres não fazem denúncias porque têm medo que assistentes sociais levem seus filhos embora, diz Charlotte Wolfrey. Crianças locais separadas das suas famílias muitas vezes são colocadas sob os cuidados de famílias distantes e não-inuits. Isso traz memórias do sistema de escolas residenciais, uma ferida ainda aberta para as gerações mais velhas.

Há um certo 'o que acontece dentro de casa fica dentro de casa'.Mike McKee

Outro agravante, afirma Wolfrey, são os "círculos de cura", um sistema que leva em conta a herança indígena. Embora ela concorde em princípio com essa justiça alternativa, na prática ela afirma que os agressores acabam recebendo "penas" mais leves.

"Demorou muito para que a violência doméstica fosse considerada um crime. Agora querem resolver com uma punição leve", afirma Wolfrey, que anos depois acabou se casando com um parente do genro que assassinou sua filha. "O problema é que numa cidade tão pequena todo mundo é parente de todo mundo."

Wolfrey conhece o drama das vítimas. Ela foi espancada pelo primeiro marido e viu os hematomas e olhos roxos de Michelin. Ela sabia que havia problemas, mas a filha tentava escondê-los. Quando foi assassinada, Michelin estava planejando abandonar o marido.

"Anos atrás, alguns homens inuit achavam que bater na mulher era certo. E essa atitude ainda existe", diz ela. "As pessoas ainda têm medo de se pronunciar. Violência familiar é quase vista como problema de ninguém."

Ela concorda que as coisas tenham melhorado desde a chegada da polícia, pelo menos em comparação com os tempos em que os moradores do vilarejo tinham de se virar para lidar com emergências. Muitas mulheres ficavam com seus parceiros porque não tinham alternativa. Outras perambulavam pelas ruas à noite, até seus companheiros dormirem bêbados. Ordens de restrição não faziam muito sentido numa comunidade em que não havia polícia para garantir que elas fossem cumpridas.

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Charlotte Wolfrey chora ao lembrar de Deirdre, assassinada pelo marido há 25 anos na comunidade inuit de Rigolet.

"Antes da chegada da polícia, se você denunciasse um crime eles poderiam aparecer uma vez a cada três meses para tratar do assunto. Mas aí tudo já teria passado, você já tinha voltado para seu parceiro. A vida era assim", afirma ela.

"Se você precisasse de ajuda imediatamente, eles teriam de arrumar um avião e um piloto. Levava no mínimo quatro ou cinco horas para a polícia chegar."

Quando Michelin foi assassinada, Wolfrey decidiu dar um basta. Ela e outras mulheres fizeram lobby durante anos para o estabelecimento de um posto policial no vilarejo, aparecendo em todas as reuniões do governo, fossem elas relacionadas a segurança ou não.

Acompanhada de grupos de vítimas, Wolfrey abordava as autoridades que passavam por Rigolet e contava as histórias aterrorizantes de abuso. Muitas vezes esses encontros aconteciam em segredo, pois muitas mulheres tinham medo que seus parceiros descobrissem.

A luta para levar a polícia a Rigolet consumiu sua vida, admite ela.

"Eu aparecia em reuniões de pescadores em dizia: 'Precisamos de polícia em Rigolet'. Aparecia em todos os lugares em que haveria uma autoridade federal para falar da morte da minha filha. Dizia que aquilo não estava certo, que precisávamos de uma solução", afirma Wolfrey. "Depois do assassinato da minha filha, eu tinha uma missão. Só pensava nisso... Mas acho que as mulheres contando suas histórias ajudou muito, porque isso provou a existência do problema."

Eu aparecia em reuniões de pescadores em dizia: 'Precisamos de polícia em Rigolet'.Charlotte Wolfrey

Anos se passaram até Wolfrey superar a raiva que sentia pela morte da filha – e pela sensação de que a morte poderia ter sido evitada. Ela ainda se emociona ao lembrar de Michelin, uma mãe alegre e ativa que instalou um balanço no quarto das crianças para que elas pudessem brincar dentro de casa durante o inverno.

Wolfrey sabe que outras comunidades inuit de Labrador não tiveram a mesma sorte de Rigolet. "Aqui conseguimos avançar", afirma ela. "Mas foi graças a uma batalha longa e dura."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Canada e traduzido do inglês.