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10/10/2018 17:38 -03 | Atualizado Há 15 horas

A violência dos eleitores extremistas e um guia para sobreviver e resistir

Após morte de capoeirista contrário a Bolsonaro, crescem registros de agressões contra mulheres, negros e LGBTs.

“É um momento de extremo desafio porque é o oprimido quem vai precisar dar o salto quântico de sabedoria, enquanto ele devia estar sendo amparado”, afirma especialista em comunicação não-violenta.
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“É um momento de extremo desafio porque é o oprimido quem vai precisar dar o salto quântico de sabedoria, enquanto ele devia estar sendo amparado”, afirma especialista em comunicação não-violenta.

"Estava saindo para almoçar e chegando ao restaurante, quando 3 caras atrás de mim começaram a conversar sobre Jair Bolsonaro e falaram 'isso aí na frente vai acabar porque o Bolsonaro vai matar viado'". Foi após ouvir essa frase na última terça-feira (9), que o produtor de moda Felipe Lago (29 anos) resolveu reunir relatos de agressões motivadas pelas eleições. Registros de violações contra negros, mulheres e pessoas LGBTI têm crescido após o capoeirista Romualdo Rosário da Costa ser esfaqueado por dizer que era contra o candidato do PSL à Presidência da República.

Conhecido como Moa do Katendê, o mestre de capoeira de 63 anos foi morto em um bar em Salvador, na madrugada desta segunda-feira (8), segundo a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA). Horas antes, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) anunciou que Bolsonaro e Fernando Haddad (PT) disputariam o segundo turno da eleição presidencial.

De acordo com testemunhas e com a SSP-BA, o suspeito do crime, Paulo Sérgio Ferreira de Santana, reagiu com violência após ouvir o mestre de capoeira dizer que era eleitor do PT. Paulo foi em casa buscar uma faca e retornou ao bar, onde cometeu o crime, ainda de acordo com as investigações. O suspeito está preso.

O homicídio é o extremo de uma cenário de agressões que têm se multiplicado no País nos últimos dias. Na segunda, uma jovem de 19 anos que usava uma camiseta do movimento #EleNão foi agredida por 3 homens em Porto Alegre (RS), de acordo com a rádio Guaíba. Segundo o boletim de ocorrência registrado, os homens deram socos e fizeram riscos em sua barriga com um canivete similares a uma suástica, símbolo do regime nazista alemão.

Na noite da última terça, um estudante da UFPR (Universidade Federal do Paraná) com boné do MST (Movimento dos Sem Terra) foi agredido em frente ao local onde estuda por um grupo que gritava "Aqui é Bolsonaro!". Ele sofreu lesões na cabeça causadas por garrafas de vidro quebradas pelos agressores, de acordo com o DCE (Diretório Central dos Estudantes) da universidade.

Em Natal (RN), uma médica que trabalha em um hospital público rasgou na última segunda a receita de um paciente de 72 anos, após ele responder que votou em Haddad. O caso foi registrado na 7ª Delegacia de Polícia de Natal e confirmado pela própria médica, a infectologista Tereza Dantas, que disse ter se arrependido, de acordo com o G1.

Violência eleitoral

Irmã da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), assassinada em março, Anielle Franco contou em seu perfil no Facebook que foi xingada após o 1º turno por homens com camisetas de Bolsonaro quando estava com a filha de 2 anos na rua na última segunda. Ao UOL, ela relatou ameaças de morte após reagir à quebra da placa em homenagem à vereadora, negra, lésbica, feminista e nascida na Favela da Maré.

O site Mapa da Violência Eleitoral reúne relatos de violações motivadas pela disputa nas urnas Há um canal direto para denúncias e instruções do que deve ser feito caso você presencie algum crime eleitoral. O cidadão deve procurar a Justiça Eleitoral da zona em que ocorre o episódio. Alguns tribunais têm o serviço online. Caberá então ao Ministério Público a investigação, garantindo o sigilo do denunciante.

O artigo 301 do Código Eleitoral prevê até 4 anos de prisão e multa para quem "usar de violência ou grave ameaça para coagir alguém a votar, ou não votar, em determinado candidato ou partido".

Outra iniciativa é o Mapa da Violência Política, que reúne casos de agressão desde 1º de outubro.

Nesta terça, Bolsonaro lamentou episódios de violência, mas negou qualquer responsabilidade. "A pergunta [feita pelos repórteres] deveria ser invertida. Quem levou a facada fui eu. Se um cara lá que tem uma camisa minha comete um excesso, o que tem a ver comigo? Eu lamento e peço ao pessoal que não pratique isso, mas eu não tenho controle. A violência e a intolerância vêm do outro lado e eu sou a prova disso", afirmou a jornalistas.

Embora afirme que não compactue com a violência, Bolsonaro tem ensinado crianças a usar armas e tem afirmado que encoraja esse tipo de prática para não formar covardes na sociedade. No último dia 26, o filho dele, vereador Carlos Bolsonaro (PSL), usou uma foto de simulação de tortura para ironizar a campanha #EleNão.

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"Tinha um cara lavando carro ao lado e começaram a falar que estavam batendo em viadinho ele não fez nada para ajudar", contou criador de instagram para reunir casos de violência.

Crimes de ódio

Muitas das violações vão além da escolha de candidatos. São voltadas a negros, mulheres e pessoas LGBTI. Além de adeptos do antipetismo, tanto integrantes da campanha quanto parte de eleitores de Bolsonaro são contrários a bandeiras desses grupos, como o casamento homoafetivo, cotas raciais e igualdade de tratamento entre homens e mulheres.

Em Brasília, uma mulher negra com o filho ouviu a frase "esse tempo vai acabar" em uma padaria. Um casal de lésbicas foi vítima de um episódio com policiais militares no fim de semana. Elas desceram de uma viatura, apontaram um arma na direção das duas mulheres, gritaram "Bolsonaro 17", riram e voltaram para o carro.

Com o objetivo de dar visibilidade a esses casos e reunir forças para combater a violência, Felipe criou nesta terça o perfil no Instagram "Ele não vai nos matar", em referência ao movimento #EleNão. "A ideia é unir forças e possivelmente dar algum suporte. Vários advogados e psicólogos estão em contato e nós pretendemos montar um grupo de apoio e não só de denúncia para ajudar as pessoas. O sentimento é que nós precisamos nos unir contra o medo e o retrocesso", afirmou ao HuffPost Brasil.

Um dos casos compartilhados na rede social é de Ariel Enzi, coordenador da Unegro (União de Negros pela Igualdade), agredido em uma van no estado do Rio de Janeiro por ser homossexual. A briga começou quando eleitores começaram a gritar "Bolsonaro neles". Outro rapaz gay disse "deixa pra lá porque eles provavelmente não têm estudo" e levou um tapa.

Na briga, Ariel levou um soco nas costas e disse que revidou com pontapés e socos. "Começaram a xingar e falar que a gente vai morrer", contou. O conflito foi separada por um casal de idosos. "Você acha que não vai acontecer com você e acontece. E a tendência é piorar", completou.

Outro caso relata que homens com camisetas estampadas com o rosto de Bolsonaro tentaram empurrar um casal de lésbicas no vão do metrô. Vídeos de grupos gritando "Bolsonaro vai matar viado" no transporte público também têm circulado nas redes sociais.

O criador do perfil foi vítima de homofobia aos 14 anos, ao sair da escola em Taguatinga, cidade próxima à Brasília (DF). "Tinha um cara lavando carro ao lado e começaram a falar que estavam batendo em viadinho ele não fez nada para ajudar", contou Felipe. A agressão resultou em dois afundamentos no crânio. Na época, o caso foi registrado na delegacia como agressão e pequeno furto, mas as investigações não avançaram.

Para o produtor de moda, frases como "Bolsonaro vai matar viado" reforçam o medo do aumento da violência. "Fiquei com muito medo porque quem é LGBT passa a vida inteira sendo agredido dessa maneira", afirmou.

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Irmã de Marielle Franco (PSOL-RJ), assassinada em março, Anielle Franco relatou ameaças de morte após reagir à quebra da placa em homenagem à vereadora.

Como sobreviver à violência simbólica

O avanço das agressões é uma reação ao avanço dos movimentos negro, LGBTI e feminista, na visão da coach e especialista em comunicação não-violenta (CNV) Carolina Nalon, do Instituto Tiê. "Isso é uma resposta de um ressentimento das pessoas diante da crescente dos movimentos sociais. De repente, o feminismo ganhou um corpo. Tem muito homem reproduzindo um discurso de 'então tudo que os homens fazem é uma merda? Tudo que contribuíram para a sociedade?", afirmou ao HuffPost Brasil.

Para a especialista, a postura do presidenciável reforça essa posição. "Está dando voz a esse ressentimento. Alguém está autorizando e legitimando esse discurso", afirmou.

Nalon ressalta que a atuação de algumas pessoas pode inclusive prejudicar o próprio Bolsonaro. "O potencial de violência, de agressão física está mais concentrado nos eleitores extremistas e talvez eles não tenham nem entendido o que o próprio Bolsonaro quer e precisa. Talvez esses eleitores sejam um obstáculo para ele conseguir governar, se for eleito, ao cometer esses atos que vão cair na conta de um eventual governo Bolsonaro", afirmou.

Sobre a sensação de fragilidade sentida por pessoas que se vêem como alvos dessa violência, a especialista, que é lésbica, destaca a importância de cuidar de si mesmo e procurar pessoas com quem possa se fortalecer. "O mundo vai te agredir mais. Então você tem de ter momentos com pessoas que te compreendem, que têm um entendimento de opressão, para você sentir que você pertence em alguns lugares", afirmou.

É um momento de extremo desafio porque é o momento em que o oprimido vai precisar dar o salto quântico de sabedoria, enquanto ele devia estar sendo amparado.Carolina Nalon, especialista em comunicação não-violenta

Esse comportamento é um primeiro passo também para construir uma comunicação pacífica com o outro lado. "Isso é para quando você for para rua, chegar nesse momento de debater, de discutir, você tenha mais capacidade de fazer isso com discernimento, sensatez, abrindo espaço para o diálogo e com bons argumentos", completo Nalon.

Esse senso de pertencimento não necessariamente precisa vir de familiares, aponta a coach. "O que você quer do seu grupo familiar agora? Qual a necessidade mais profunda? É de conexão e afeto ou respeito e entendimento às diferenças? Dependendo da resposta à sua pergunta, você vai ter um posicionamento diante da sua família e não quer dizer que um é mais certo ou errado do que o outro. Tem que ter consciência daquilo que você está fazendo e cada pessoa tem recursos emocionais para dar a resposta que vai ser melhor para ela."