11/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 11/10/2018 09:50 -03

A luta não acaba: A voz de Bárbara Penna, sobrevivente de tentativa de feminicídio

Ela quer contar sua história para que ela não volte a se repetir: "Se na época em que eu estava passando por aquilo eu tivesse mais informação, talvez tivesse conseguido sair daquele relacionamento."

Barbara Penna é a 218ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Carolina Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Barbara Penna é a 218ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Se você acredita em milagres, Barbara Penna, de 24 anos, é um. Há 5 anos, ela foi vítima de violência doméstica e é sobrevivente de uma tentativa de feminicídio. Em 7 de novembro de 2013, ela foi queimada viva e atirada do terceiro andar de seu prédio, em Porto Alegre, por seu companheiro. Ela ficou quatro meses no hospital, sobreviveu a três paradas cardíacas, múltiplas fraturas, um coma de 38 dias e mais de 200 cirurgias. Acima de tudo, sobreviveu à perda de seus 2 filhos. Hoje, ela quer contar a sua história para que ela não se repita novamente. "Não posso deixar que meu medo me paralise", afirma.

Tudo aconteceu em novembro de 2013. Depois de 2 anos e meio de "idas e vindas", Barbara e João Guatimozin Moojen Neto, seu companheiro à época, já não moravam juntos - ele vivia com a avó, e ela, com a sogra. Naquele dia, Barbara pernoitaria na casa dele, mas dormiria na sala, após mais uma briga. Nessa noite, ela acordou com socos. Agredida violentamente, ela desmaiou e acordou com o corpo encharcado de álcool. João ateou fogo à jovem e ao apartamento. Na tentativa de fugir do agressor, Barbara correu para a área de serviço, de onde ele a empurrou.

Ainda no hospital eu resolvi que ia melhorar e ia lutar por justiça. Não posso deixar que meu medo me paralise.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Ela carrega fotos e a saudade de Isadora, de 2 anos, e de João Henrique, quatro meses.

No incêndio, morreram os dois filhos de Barbara, Isadora, de dois anos (de um relacionamento anterior), e João Henrique, quatro meses, filho dela com João. Um vizinho, Mario Ênio Pagliarini, de 76 anos, que tentou acudir a família, também morreu asfixiado. João foi preso em flagrante e está preso desde então (ele vai a júri popular por três homicídios e uma tentativa de homicídio triplamente qualificados). Bárbara, com 40% do corpo queimado e quase todos os ossos fraturados da cintura para baixo, ficou quatro meses no hospital. Os jornais tanto impressos quanto televisivos, à época, amanheceram com a notícia.

Eu não tinha ninguém para conversar, a não ser o agressor. E ele sempre tinha uma desculpa. Eu achava que era a culpada mesmo.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, Luisa é o que mantém Barbara firme para seguir em sua luta.

O ciclo vicioso que a levou à quase morte, é a história que Barbara quer contar, para que não se repita. Ela conheceu João pelo Orkut, quando tinha 17 anos. Havia perdido o pai há três meses, estava grávida e longe da família. Logo foi morar na casa do novo namorado e, com ele, teve outro bebê. Segundo Barbara, João não permitia que ela trabalhasse nem estudasse. Ela e os filhos dependiam em tudo da família dele. "Ele não queria que eu emagrecesse, que fosse ao médico, nem levar as crianças na creche", conta em entrevista ao HuffPost Brasil. As surras eram constantes, mas a família dele fingia que nada acontecia. "Eu sempre achava que amanhã ia ser melhor, que tudo ia se resolver. Confundia amor, apego, com dependência", lembra.

Toda vez que eu tentava acabar, apanhava. Teve gente que me falou: quando ele fizer isso de novo, vai lavar uma louça pra te acalmar, que tudo vai ficar bem.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu confundia amor, apego, com dependência", conta Bárbara.

Barbara não quer esquecer a tragédia daquela noite. Ainda em processo de recuperação física e psicológica, decidiu transformar a dor imensurável em trabalho para prevenir que outras mulheres sofram o que ela sofre. Fundou o Instituto Barbara Penna que leva seu nome e, com a bandeira da proteção à mulher, candidatou-se a deputada federal nas últimas eleições (teve 16.075 votos, insuficiente para conquistar uma cadeira na Câmara). "Eu quero falar, dar entrevistas, porque, se na época em que eu estava passando por aquilo eu tivesse mais informação, talvez tivesse conseguido sair daquele relacionamento. Eu não sabia nada sobre Lei Maria da Penha. Faz pouco tempo, mas quase não se falava em violência contra a mulher. Essas tragédias só se via no [programa do] Marcelo Rezende ou do Datena. Tive a infelicidade de aparecer nestes dois", lamenta.

A Justiça entende que é a mulher agredida que tem de se esconder, abandonar sua casa, ir para um abrigo, enquanto o agressor fica livre.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Ela o Instituto Barbara Penna que leva seu nome e, com a bandeira da proteção à mulher, candidatou-se a deputada federal nas últimas eleições.

Ainda hoje, diz Barbara, as maiores repercussões são com casos em que a vítima morre. Poucas são as sobreviventes, como ela, que vão para a rua. Barbara sentiu o poder que sua história tinha em maio de 2014, seis meses após a tentativa de feminicídio, quando reuniu centenas de pessoas em um ato no Parque da Redenção - lugar que escolheu para a sessão de fotos que ilustram esta reportagem. Além da enorme e natural repercussão que a história dela teve na mídia nacional, Barbara nunca se privou de usar as redes sociais para comunicar-se. Desta forma, angariou apoio, carinho, e fez amigos - incluindo o atual marido, Robson.

Ficar forte é uma luta diária. Todos os dias eu me sinto fraca e busco um motivo para me sentir forte, tento pensar em algo bom.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Ainda hoje, diz Barbara, as maiores repercussões são com casos em que a vítima morre. E isso é algo que ela quer mudar.

Jornalista, Robson cobriu a tragédia para um canal de TV em 2013. Manteve contato com Barbara via Facebook até receber permissão de visitá-la no hospital, após uma das tantas cirurgias, no dia 12 de outubro de 2014. "Eu não queria me apaixonar. Tinha medo que fosse mais um louco na minha vida, até o dia em que deixei ele ir ao hospital, porque me sentia sozinha, queria alguém para conversar". Três meses depois, começaram a namorar; mais três, e Barbara engravidou. Luisa não foi planejada, "foi um presente", e sua existência foi ocultada da mídia por um ano e meio, pois Barbara temia - e ainda teme - pela própria vida. Sente-se ameaçada pela família do ex-companheiro (obteve duas medidas protetivas contra o pai dele, ambas já expiradas). É ela a bonequinha guardiã dos retratos dos dois irmãos que não conheceu no pingente que Barbara leva no pescoço.

Robson é um alicerce para Barbara. Com o novo amor, ganhou confiança para realizar coisas simples, como tomar banho de pé, e grandiosas, como tentar uma vaga na Câmara. Mas a construção da confiança foi um processo difícil, explica ela: "Eu tinha medo que tudo se repetisse. De dar uma opinião e ele discordar, brigar". Só no começo deste ano, a base de remédios, Barbara começou a dormir à noite. O acompanhamento psicológico, ao qual ela resistiu logo após a tragédia, hoje é semanal.

O atendimento na delegacia da mulher é ruim. Uma vez cheguei lá e a pessoa falou, na minha frente: "delegada, olha a queimada lá do Lindoia!"

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Bárbara, ao lado de seus dois alicerces.

Ele é também o vice-presidente do instituto, cuida da agenda da esposa e a acompanha nas palestras. Enquanto fala à reportagem do HuffPost Brasil, a todo momento Barbara busca o olhar ou a mão do marido. É dolorido falar, mas é o caminho que ela escolheu. "É gratificante. Recebo relatos de mulheres e até de homens que mudaram sua condição de vida ao conhecer a minha história. Prefiro sofrer de alguma forma, mas saber que estou ajudando".

Barbara sonha em ver sua história publicada em livro e rodada em filme. Mas aguarda que o ex-companheiro seja julgado, para que a narrativa tenha um ponto final. De vez.

Não silencie!

"Foi só um empurrãozinho", "Ele só estava irritado com alguma coisa do trabalho e descontou em mim", "Já levei um tapa, mas faz parte do relacionamento". Você já disse alguma dessas frases ou já ouviu alguma mulher dizer? Por medo ou vergonha, muitas mulheres que sofrem algum tipo de violência, seja física, sexual ou psicológica, continuam caladas.

Desde 2005, a Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, funciona em todo o Brasil e auxilia mulheres em situação de violência 24 horas por dia, sete dias por semana. O próximo passo é procurar uma Delegacia da Mulher ou Delegacia de Defesa da Mulher. O Instituto Patrícia Galvão, referência na defesa da mulher, tem uma página completa com endereços no Brasil. Clique aqui.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

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