POLÍTICA
09/10/2018 13:11 -03 | Atualizado 11/10/2018 18:58 -03

Partido de Bolsonaro é nova cara das bancadas evangélica e da segurança

Bancada BBB 2018: Renovação inclui pastores, policiais linha dura e políticos autores de propostas para limitar o acesso a exposições de arte com “conteúdo imoral”.

Partido de Jair Bolsonaro, PSL cresce de 8 para 52 deputados e renova bancadas evangélica e da segurança.
HEULER ANDREY via Getty Images
Partido de Jair Bolsonaro, PSL cresce de 8 para 52 deputados e renova bancadas evangélica e da segurança.

Apelidada de bancada BBB do boi, bala e Bíblia, as frentes parlamentares evangélica, ruralista e da segurança se fortaleceram nestas eleições. Apesar de terem reeleito cerca de metade dos integrantes, novos nomes eleitos na onda conservadora devem reforçar pautas como flexibilização do uso de armas, limitações a demarcações de terras indígenas, direitos LGBTI e contra a descriminalização do aborto.

O partido do candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, hoje com 8 deputados, elegeu 52. Já a participação de parlamentares que usam patentes militares nos nomes oficiais subiu de 6 para 18 deputados. Pelo menos 15 usam denominações militares e 5 são delegados. Seis usaram "pastor" como nome nas urnas. O PSC (Partido Social Cristão) elegeu 9 representantes.

A bancada evangélica atualmente é composta por 82 deputados, segundo levantamento do jornal O Estado de S. Paulo. Desses 37 foram reeleitos, o equivalente a 35%.

Não há formalmente uma bancada evangélica, mas a Frente Parlamentar Evangélica (FPE), com 182 integrantes. Desse total, 105 pertencem a outras religiões. A reportagem do Estadão chegou ao número de 82 pessoas após conversar com deputados para definir quem de fato tem atuação no grupo.

Segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), a representação evangélica cresceu 108%, de 36 em 2006 para 75 eleitos em 2014. A diferença do cálculo anterior se deve aos critérios de cada levantamento e a mudanças com entradas de suplentes.

Na legislatura atual, a FPE representa 16% da Câmara e conta também com o apoio das frentes "Católica Apostólica Romana" e "Em Defesa da Família e Apoio à Vida", a "bancada da Bíblia".

Os interesses são impedir a legalização do aborto e avanços nos direitos reprodutivos, o debate sobre identidade de gênero nas escolas, o casamento homoafetivo, a liberação dos jogos de azar e a legalização das drogas.

Com o mote "pela vida e pela família", Soraya Manato (PSL-ES) publicou vídeos em que se diz contra o que chama de "ideologia de gênero". Na avaliação dela, é uma corrente de pensamento de acordo com a qual "ninguém nasce menino ou menina".

O termo ganhou força a partir do Escola Sem Homofobia, elaborado pelo MEC (Ministério da Educação) em 2011 e que nunca saiu do papel. O objetivo da proposta era combater a discriminação e não continha conteúdo a fim de influenciar a construção da identidade de gênero de cada criança, mas a iniciativa sofreu resistência de conversadores, como Jair Bolsonaro, e foi chamada de "kit gay".

Em outro vídeo, Soraya Manato afirma ser contra a descriminalização do aborto. "A vida de cada pessoa desde a concepção", disse. A parlamentar é esposa do deputado Carlos Manato (PSL-ES), que perdeu a disputa pelo governo do Espírito Santo. Ele é integrante da bancada ruralista e da evangélica.

As mesmas bandeiras são repetidas pelo cantor gospel e novo deputado Leo Motta (MG-PSL). Vereador em Contagem (MG), ele apresentou projeto de lei que proíbe a entrada de crianças e adolescente em exposições de arte em seu município com "conteúdo libidinoso, imoral, devasso, zoofilia ou pornográfico".

Apresentado por Bolsonaro como coordenador político da campanha presidencial no Nordeste, o novo deputado Julian Lemos (PSL-PB) divulgou uma série de vídeos em que usa a religião para atrair apoio eleitoral. Ele aparece em diversas imagens ao lado do senador e pastor evangélico Magno Malta (PR-ES).

Lemos foi acusado 3 vezes de agressão pela irmã e pela ex-esposa, de acordo com a Folha de S. Paulo. Os casos de violação da Lei Maria da Penha ocorreram em 2013 e 2016. Em um deles, o aliado do presidenciável foi preso em flagrante. Ele nega as acusações.

Bancada da bala

Há hoje 38 deputados atuantes na bancada da bala. Desses, 20 foram reeleitos, o equivalente a 53%, mas há nomes que também integram a bancada da Bíblia ou a ruralista. Criada em 2015 pelo deputado Alberto Fraga (DEM-DF), a Frente Parlamentar da Segurança tem 272 deputados, mas nem todos defendem as mesmas propostas.

No núcleo duro da frente, estão 18 parlamentares que têm carreira policial ou militar e 16 deputados eleitos com ajuda financeira de empresas do setor bélico, como a Forja Taurus e Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC).

Os interesses são direitos e benefícios para as carreiras de policiais e bombeiros, além da flexibilização do comércio e porte de armas. Levantamento do Instituto Sou da Paz mostrou que a maioria dos projetos trata de criminalização e aumento de pena. Foram 463 projetos de lei sobre o tema em 2016 e 116 propostas de emenda à Constituição no mesmo ano.

Segundo deputado com mais votos no Amazonas, Delegado Pablo, do PSL, é um dos novatos que defende a revogação do Estatuto do Desarmamento. "O que eu defendo é o que o cidadão tenha a possibilidade de legalmente adquirir algum instrumento de defesa", afirmou em transmissão nas redes sociais na campanha.

Também do partido de Bolsonaro, Heitor Freire, do Ceará, já publicou nas redes sociais fotos usando armas. O empresário é líder do Movimento Direita Ceará e diz ter como bandeiras "a dignidade e os valores da família". Esse discurso tem sido usado por pessoas contrárias a direitos LGBTI e das mulheres.

Bancada ruralista

Uma das mais fortes na Câmara, a bancada ruralista chega a 119 deputados, segundo levantamento do Estadão. Neste grupo, 54 foram reeleitos, o equivalente a 45%.

A Frente Parlamentar Mista da Agropecuária (FPA) foi criada em 2015, com assinaturas de 198 deputados e 27 senadores, mas nas votações o grupo tem apoio acima desse número. Ela é mantida pelo Instituto Pensar Agropecuária (IPA), responsável pelo lobby do agronegócio no Congresso e que inclui 39 entidades empresariais.

Apesar de não ser ligado ao agronegócio, o empresário Tio Trutis (PSL-MS), eleito na onda de avanço da extrema-direita, é contra a demarcação de terras indígenas, direito garantido pela Constituição. Ele também se declara como anti-aborto, a favor de penas mais duras para crimes como estupro e roubo seguido de morte e do porte de armas. Ele responde a processo por violações de direitos trabalhistas.

Bancada BBB e Bolsonaro

Na última semana, os três setores declararam apoio ao candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL). Em 2 de outubro, a Frente Parlamentar Agropecuária, com 261 deputados e senadores, disse estar ao lado do presidenciável. Lideranças da bancada evangélica e da segurança também assumiram a mesma posição, mas sem formalizar a aliança.

Na avaliação do diretor de Documentação do Diap, Antônio Augusto de Queiroz, há limitações a essa adesão. "Bancada informal não tem obrigatoriedade de votos. O partido que decide para quem o parlamentar vota e ele não pode desobedecer", afirmou ao HuffPost Brasil.

Para o especialista, os discursos têm um peso eleitoral maior do que de voto no Congresso. "Os ruralistas querem rever demarcação de terras indígenas, permitir o uso generalizado de agrotóxicos, botar um freio no MST [Movimento Sem Terra] em relação a invasão e tudo isso coincide com os interesses do Bolsonaro. O cara declara apoio para se legitimar com o eleitor, mas isso não é garantia de voto no Congresso, porque ele depende do partido dele", afirmou.