POLÍTICA
09/10/2018 19:03 -03 | Atualizado 10/10/2018 11:36 -03

Em jogo, avatar de Jair Bolsonaro espanca mulheres, negros e ativistas

Em "Bolsomito 2k18", o candidato à Presidência tem como aliados para "salvar o Brasil" Oráculo de Carvalho e Alexandre Frete.

O objetivo do jogo é fazer com que o personagem, um avatar do capitão reformado Jair Bolsonaro, "salve o Brasil de uma onda vermelha".
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O objetivo do jogo é fazer com que o personagem, um avatar do capitão reformado Jair Bolsonaro, "salve o Brasil de uma onda vermelha".

"Derrote os males do comunismo nesse game politicamente incorreto, e seja o herói que vai livrar uma nação da miséria."

A frase acima faz parte da descrição do jogo Bolsomito 2k18, da plataforma Steam, da BS Studio, lançado dois dias antes do 1º turno das eleições 2018. No jogo, que custa R$ 8,91, um avatar do candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL), agride mulheres, negros, homossexuais e ativistas de esquerda.

"Esteja preparado para enfrentar os mais diferentes tipos de inimigos que pretendem instaurar uma ditadura ideológica criminosa no País. Muita porrada e boas risadas", finaliza o texto da descrição do jogo. Segundo os criadores, o jogo é inspirado no atual momento político brasileiro e tem como protagonista "um cidadão de bem que está cansado da crescente corrupção e inversão de valores que abala a sociedade".

Criado no formato 2D, o objetivo principal de "Bolsomito 2k18" é fazer com que o personagem, um avatar do capitão reformado Jair Bolsonaro, "salve o Brasil de uma onda vermelha" e "derrotar o comunismo". Para isso, ele conta com a ajuda de conselheiros como "Oráculo de Carvalho", em alusão ao intelectual Olavo de Carvalho, Sargento Fagur e Alexandre Frete, inspirados em Sargento Fahur e Alexandre Frota, eleitos deputados federais no último domingo (7) pelo PSL.

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Reprodução de imagem de abertura do jogo em que avatar de Bolsonaro agride pessoas para "salvar o Brasil".

Quando o jogo começa, o participante é transformado em um "Bolsomito", que deve eliminar seus opositores. Ao agredir integrantes da comunidade LGBT, movimento feminista e militantes de esquerda, o avatar prospera no game, passa fases e, enquanto isso, solta frases de efeito como "estes vagabundos estão tomando conta do país. Temos que limpar a política".

O jogo transforma a deputada Maria do Rosário (PT-RS) em um dos obstáculos do "Bolsomito" e a apelida de "Maria dos Presidiários". A parlamentar já foi xingada de "vagabunda" e ouviu em duas ocasiões do candidato Jair Bolsonaro, que "ela não merecia ser estuprada".

A declaração foi feita em 2003 e repetida em 2014. Na época, Bolsonaro disse que a briga começou ao ouvir que a parlamentar era contrária à redução da maioridade penal. Ele sugeriu então que ela contratasse o Champinha (Roberto Alves da Silva), menor que participou de assassinato em 2003, para ser motorista de sua filha. A conduta levou o presidenciável a se tornar réu no STF por injúria e incitação ao estupro.

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A deputada Maria do Rosário é transformada em "Maria dos Presidiários" por criadores de jogo com avatar de Bolsonaro.

O jogador também tem que derrotar o "Cuspidor Willy", outra referência a um parlamentar, Jean Wyllys, do Psol, que cuspiu no candidato durante a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016, após Bolsonaro dizer que votava "sim" homenageando Brilhante Ustra, 1º militar reconhecido como torturador pela Justiça, e que violentou a então presidente na época da ditadura.

No site da empresa desenvolvedora, o jogo é avaliado positivamente em 80%. E alguns comentários na plataforma elogiam as piadas e a violência retratada. "Adorei os desenvolvedores, as piadas no game e tudo mais. Nunca vou me esquecer da Sandra aquele moça com a placa branca mó roubada", diz um dos comentários.

Outro afirma que "o jogo é dificinho, a Maria dos Otários está arrebentando o Mito", e faz críticas ao jogo: "O Bolsonaro está tirando muita pouca energia dos adversários! Coloca umas magias do Dragon Ball ou Street fight que eu acho que resolve ou até mesmo uma fuzil, pistola, bazuca... menos faca".

Segundo o criminalista Rafael Ariza, em entrevista ao Estadão, o jogo mostra a conduta da empresa e "estaria a configurar, pelo menos em tese, o crime de injúria e mereceria atuação do Estado com instauração do procedimento investigatório competente".

O HuffPost Brasil entrou em contato com o TSE, que disse que não irá se pronunciar sobre o jogo envolvendo a figura do candidato. O Ministério Público Federal disponibiliza um canal para denúncias e cidadãos que se sentirem ofendidos podem recorrer à "Sala de Atendimento ao Cidadão".