POLÍTICA
08/10/2018 04:08 -03 | Atualizado 08/10/2018 05:45 -03

O Brasil vira à direita

Antipetismo, rejeição à política e aos partidos tradicionais e vontade de mudança são forças motrizes da candidatura Jair Bolsonaro, favorito do 2º turno.

Apoiadores de Jair Bolsonaro comemoram seu favoritismo no 2º turno.
Adriano Machado / Reuters
Apoiadores de Jair Bolsonaro comemoram seu favoritismo no 2º turno.

A onda conservadora e antipetista que se desenhava nas pesquisas não era uma marolinha. Foi um tsunami que varreu o PT de cargos importantes, mas foi além. Avançou sobre a velha política, representada pelos mesmos partidos de sempre, MDB e PSDB.

"O eleitor está escolhendo algo que não seja o PT ou PSDB. Há uma opção clara por algo que não seja um dos dois partidos que nos últimos 20 anos da vida democrática dominaram a cena no Brasil", resume o cientista político Leandro Machado, cofundador do movimento Agora.

Foi uma renovação à direita, instituindo um novo polo político mais radical, que orbita em torno do favorito no 2º turno das eleições presidenciais, Jair Bolsonaro, e representa a indignação "contra tudo que está aí".

Essa revolta esteve presente nas Jornadas de Junho de 2013, protestos iniciados por um aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus de São Paulo. A raiva dos partidos políticos se materializou ali e tomou várias capitais do País. Evoluiu para movimentos de #NãoVaiTerCopa no ano seguinte, com protestos contra a então presidente Dilma Rousseff (PT). E foi se fortalecendo após a reeleição apertadíssima dela.

As promessas que a ex-presidente não cumpriu, após uma campanha eleitoral eivada por mentiras do Partido dos Trabalhadores contra os adversários Marina Silva e Aécio Neves, alimentaram o ódio contra a legenda já há 12 anos no poder, que se tornariam 16.

Fosse eleita em 2014 a candidata de centro-esquerda, com equipe liberal na economia, ou mesmo o tucano considerado herdeiro de clã político mineiro, talvez o cenário político hoje fosse outro, mais moderado.

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Manifestante faz panelaço contra a presidente Dilma Rousseff em 2016.

Os panelaços contra Dilma começaram em 2015. Aumento de inflação, conta de luz, juros. O brasileiro sentiu no bolso a maquiagem das contas públicas da ex-presidente. Com a recessão, explodiu o temido desemprego. A Câmara conservadora, com quem a petista se recusava a dialogar, fez o possível para travar o governo. Eduardo Cunha, o então presidente da Casa, tornou-se algoz de Dilma.

A Operação Lava Jato, iniciada em 2014, descortinava o maior esquema de corrupção da História recente. Diversos partidos governistas — PT, MDB, PP — e até o oposicionista PSDB — do rival Aécio — estavam unidos no propósito de sangrar a maior estatal brasileira, a Petrobras, para irrigar o caixa de seus partidos e de seus projetos de poder.

O ex-presidente Lula disse mais uma vez que não sabia. Não sabia do mensalão, em 2005, nem do petrolão, 10 anos depois. O discurso de vitimização, de perseguição, só irritava os brasileiros. Para se salvar da prisão, o petista seria nomeado ministro da Casa Civil de Dilma e, de quebra, daria um jeito no impopular governo de sua sucessora.

A sociedade não deixou. Sim, veio de parte organizada da sociedade a orquestração da retirada de Dilma da Presidência.

As redes se organizaram e foram para a rua. Contra o PT. Contra Lula. Contra a corrupção. E também contra a velha política. Aécio foi vaiado. 2016 já era o prenúncio de uma guinada à direita.

O MBL (Movimento Brasil Livre) se tornou um ator político canalizando demandas dos mais conservadores. Os militantes fizeram uma peregrinação até Brasília para pedir o impeachment de Dilma.

Veio de uma advogada e professora da USP crítica do PT o pedido formal para o impedimento da presidente. Janaina Paschoal, outra algoz de Dilma. Cunha levou adiante seu pedido.

Em 2016, o PT se despediu de Brasília. E construiu a narrativa de "golpe", empreendido por elites, Judiciário, imprensa, contra Dilma, Lula e o partido, os defensores dos pobres.

Quem ascendeu ao poder, entretanto, era um escolhido de Dilma. Michel Temer se tornou o presidente mais impopular do País.

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No Congresso, Janaina Paschoal defende o impeachment da então presidente petista.

Jair Bolsonaro, o catalisador

Os indicadores econômicos melhoraram timidamente após Temer mudar os rumos da política econômica errática do governo Dilma. Milhões de desempregados continuam desamparados.

Temer não conseguiu fazer todas as reformas a que se propôs por falta de legitimidade.

Com as eleições presidenciais se avizinhando, o ex-presidente Lula liderava as intenções de voto. Mas no meio do caminho havia uma condenação em segunda instância.

Lula foi preso e emendou mais um capítulo da narrativa de golpe, perseguição. Uma retórica que, se exaure até a esquerda mais consciente (que votou em Ciro Gomes e não em Fernando Haddad), o que dizer daqueles que acumulavam indignação desde 2013?

2013, 14, 15, 16, 17, 2018.

Nesse período, um deputado federal "bocudo", que fala muito, fala grosso, foi ganhando espaço. Nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp.

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Na Esplanada dos Ministérios, Jair Bolsonaro é tratado como celebridade em protesto pelo impeachment em 2016.

Um inimigo do PT. Crítico dos ativistas de direitos humanos. Tachado de machista, racista e homofóbico por suas controversas declarações como parlamentar.

Tornou-se o terror de setores progressistas da sociedade. O pesadelo das esquerdas.

Mas a classe média alta gostava. Homens, brancos, ricos.

A classe média começou a gostar também. Homens, brancos, negros, mulheres.

"O eleitorado do Bolsonaro é muito resiliente, resistente a qualquer tipo de desconstrução com base naquelas características marcantes dele, com falas misóginas e autoritárias", argumenta o coordenador do mestrado profissional em Gestão e Políticas Públicas da FGV-SP, Cláudio Gonçalves Couto. "Tudo isso bate nele e volta; o eleitorado minimiza, acha que ele é um cara muito autêntico, que não há riscos à democracia."

Essa "autenticidade" o tornou um fenômeno nos aeroportos, recepcionado por seu séquito.

Pelos intelectuais não era levada a sério. He is not presidential, como Ciro tentou ser.

Um aventureiro em um partido de aluguel. Sem apoios nem bases.

Após a prisão de Lula, liderava a intenção de votos, mas sempre subestimado por um suposto teto. Que primeiro seria de 20%, depois 25% e até 30%, após ser esfaqueado em um de seus atos de massa.

Mas foi a transferência de votos de seu antípoda — Lula — para Haddad que coroou seu crescimento. Apenas a perspectiva de um possível regresso do PT ao poder foi a senha para Bolsonaro se consolidar como o ímã do antipetismo.

"A eleição se tornou um grande plebiscito contra um lado e contra outro", analisa a diretora-executiva do CLP (Centro de Liderança Pública), Luana Tavares.

Só que as classes baixas também começaram a gostar de Bolsonaro.

Na última semana, a Igreja Universal abraçou a candidatura dele.

"A força evangélica foi muito importante para essa arrancada do Bolsonaro, mas também por conta das pautas que ele vem colocando há tempos: a questão do combate à violência, da moralidade na política e as questões morais, como valores e papel da família", avalia a professora Denilde Holzhacker, coordenadora do Centro de Assuntos Internacionais e Análise de Risco da ESPM-SP.

Virou tsunami.

O resultado: Jair Bolsonaro teve 46% dos votos válidos na disputa presidencial; Haddad, 29%.

A disputa vai para o 2º turno, com amplo favoritismo do candidato considerado de extrema direita.

Paulo Whitaker / Reuters
Jair Bolsonaro é um fenômeno das massas, com adesão popular e irrestrita a suas ideias.

O poder de Bolsonaro

Se Jair Bolsonaro não conseguiu liquidar a fatura na 1ª etapa da eleição, as urnas deram seu recado. Elas querem renovação — e à direita mesmo.

O PSL, partido de Bolsonaro, terá a 2ª maior bancada da Câmara. Elegeu mais de 50 deputados — mais de 6 vezes o número de parlamentares atual.

Em São Paulo, maior colégio eleitoral, Eduardo Bolsonaro, filho do presidenciável, foi o deputado federal mais votado da História, com 1,6 milhão de votos.

Outro filho dele, Flávio Bolsonaro foi o senador mais votado neste ano do Rio de Janeiro.

Em outro recorde, Janaina Paschoal, a advogada que derrubou Dilma, foi a deputada mais votada da História do País.

A ex-presidente impedida, aliás, foi barrada no baile organicamente e ficou sem vaga no Senado.

EVARISTO SA via Getty Images
MBL lidera marcha contra Dilma Rousseff em 2015.

O PT perdeu vagas importantes em Minas, Rio, São Paulo.

E a nova direita, com nomes como o coordenador do MBL, Kim Kataguiri (DEM), e o youtuber Arthur Mamãe Falei, vai representar os paulistas na Câmara Federal e na Assembleia Legislativa.

Autora do livro O Ódio como Política: A Reinvenção das Direitas no Brasil (editora Boitempo), a professora da Unifesp Esther Solano detalha os 3 componentes desse tsunami à direita.

"Tem um antipetismo muito forte, relacionado à crise econômica aguda e à corrupção que foi associada ao partido. Tem um grito antipolítico muito forte, que é a negação da política tradicional. E, principalmente entre os eleitores de Bolsonaro, tem um desejo de mudança muito forte e esperança de que ele vai mudar alguma coisa."

Jair Bolsonaro é a esperança daqueles que se consideram antissistema.

Fernando Haddad, dos órfãos do lulismo e dos que temem o bolsonarismo.

O duelo do 2º turno, de ódio, medo e esperanças, começa agora.