LGBT
08/10/2018 21:22 -03 | Atualizado 09/10/2018 19:24 -03

Erica Malunguinho: A 1ª deputada estadual transgênera eleita em São Paulo

Ela é a única transexual eleita na lista das 55 candidaturas divulgada pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

Malunguinho foi eleita com 55,2 mil votos no último domingo (7).
Reprodução/Facebook/EricaMalunguinho
Malunguinho foi eleita com 55,2 mil votos no último domingo (7).

Um símbolo ancestral. A representação do trabalho pela lei e pela justiça. Nas mãos de um orixá, o pedido de que o caminho se abra e ultrapasse encruzilhadas. "Laroyê", a saudação a Exu como forma de agradecimento pelo início de uma nova jornada, longe da invisibilidade e perto da representação: foi assim que Erica Malunguinho da Silva, 1ª transexual eleita deputada estadual em São Paulo em 180 anos de existência da Casa, agradeceu os mais de 55,2 mil votos que recebeu neste domingo (7).

"A Alesp, daqui para frente, contará com um rosto que não é um rosto só, é o rosto de muitas gentes", escreveu em suas redes sociais. E esta é a proposta de Malunguinho: ocupar um espaço para promover "verdadeira alternância de poder" onde corpos dissidentes como o dela são invisibilizados. "Povo pretoindio, mulheres cis e trans, homens cis e trans, gentes que amam iguais e/ou diferentes, migrantes e imigrantes que aquilombaram seus votos neste rosto, que é a soma de todos os rostos que existem na resistência."

Mulher, negra, natural de Pernambuco, mestra em estética e história da arte pela USP, ela mora há cerca de 15 anos em São Paulo, cidade que escolheu para estudar e montar seu ateliê. Localizado em Campos Elíseos, seu refúgio hoje é compartilhado e conhecido como "Aparelha Luzia", um centro centro cultural e político, considerado um dos locais de manifestação da resistência negra mais importantes da cidade.

"Com suas grandes dimensões a cidade esconde sob suas vestes uma sofisticada perversidade que resulta em violências físicas e simbólicas, impedindo o desenvolvimento saudável das pessoas. Mas nunca senti medo, sempre tive substância para o afronte", disse em entrevista à revista Trip.

Nós vamos enfrentar uma bancada que é representante desses poderes estruturais.

Não à toa, a estrutura opressora a qual a cidade se submete não impediu ela de querer fazer mais: ocupar a Assembleia Legislativa do Estado que escolheu para se estabelecer. Atualmente, na Assembleia Legislativa de São Paulo, dos 94 parlamentares, somente 4 são negros, ou seja, o equivalente a 4,2% dos eleitos. O número de representantes transexuais é zero.

"Nós vamos enfrentar uma bancada que é representante desses poderes estruturais, mas por isso a necessidade de estar lá dentro para disputar essas narrativas e propor novos centros de inteligência e novas formas de fazer política", afirmou Erica, em entrevista à plataforma Gênero & Número.

Malunguinho, aos 35 anos, foi a única trans eleita entre as 55 candidaturas divulgadas pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), e validadas pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), incluindo candidatos e candidatas trans que solicitaram a utilização do nome social nas urnas, conforme decisão do tribunal em março deste ano. Mas outros dois nomes também entraram oficialmente com mandatos coletivos: Erica Hilton, em São Paulo, pela Bancada Ativista, e Robeyoncé Lima, em Pernambuco, pelo Juntas. As candidaturas são do Psol.

Dentro dos meus trabalhos artísticos e dentro da educação, o fazer política era uma pauta constante.

Sua militância é antiga. Além do "Aparelha Luzia", ela também já atuou na área de educação, voltada para a capacitação professores da rede pública e privada. Hoje, ela tem como objetivo levar a luta por direitos humanos e representatividade de pessoas negras e LGBTQ+ para o campo da política, na prática. Ela leva o conceito de "quilombo" como uma tecnologia social em sua candidatura.

"Dentro dos meus trabalhos artísticos e dentro da educação, o fazer política era uma pauta constante. (...) A política foi se desumanizando a ponto das pessoas não acharem que quem está às representando e assinando papéis são pessoas, mas uma máquina e poder metafísico fora da humanidade. Precisamos pensar como a política está mais próxima da gente do que imaginamos", disse ainda em entrevista à Gênero & Número.

Malunguinho pretende, em seu mandato, retirar aos poucos a desumanização que foi imposta à política e trazê-la para a realidade. Para isso, entre seus planos, além de combater a violência contra a mulher de diversas formas e exigir o aprimoramento de dispositivos de inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho, também está um projeto para incentivar o turismo social em quilombos e territórios indígenas como estratégia de combate ao racismo. "Laroyê", disse Erica, em agradecimento a um caminho aberto.