POLÍTICA
08/10/2018 11:25 -03 | Atualizado 08/10/2018 14:39 -03

De nanico ao 5º colocado: Como a 'onda laranja' de Amoedo ultrapassou Marina

Campanha baseada em doações de eleitores, sem fundo partidário, propaganda na TV e outros meios de comunicação, Amoêdo teve 2,5% dos votos.

"Nosso desempenho foi sensacional", disse João Amoêdo, candidato à Presidência pelo Partido Novo em 2018.
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"Nosso desempenho foi sensacional", disse João Amoêdo, candidato à Presidência pelo Partido Novo em 2018.

João Amoedo (Novo) não venceu as eleições presidenciais de 2018, mas conseguiu consolidar um lugar nas urnas. Com uma campanha baseada em doações de eleitores, sem fundo partidário, sem propaganda partidária na TV e meios de comunicação, a "onda laranja" levantada pelo empresário teve cerca de de 2,5% dos votos. Com 99% dos votos apurados neste domingo (7), ele ficou na frente de Marina Silva (Rede), Alvaro Dias (Podemos) e Henrique Meirelles (MDB), chegando perto até mesmo de Alckmin (PSDB).

Responsável pela "onda laranja", impulsionada principalmente nas redes sociais, Amoêdo iniciou a corrida presidencial misturado entre os "nanicos". As intenções de voto estavam com cerca de 3% nos últimos meses, segundo as pesquisas Ibope e Datafolha, e neste domingo (7), o candidato recebeu cerca de 2,7 milhões votos, mais do que rivais que tinham minutos preciosos no horário eleitoral na TV e no rádio -- o que superou as ambições de um partido que teve sua primeira tentativa ao Planalto.

Marina, que já obteve cerca de 22 milhões de votos como 3ª colocada na eleição presidencial de 2014, e chegou a ser considerada uma "terceira via" entre partidos de direita ou esquerda no Brasil, terminou o 1º turno as eleições deste ano em 8º lugar, com pouco mais de 1 milhão de votos.

Esta é a terceira vez em que a candidata concorre ao pleito. Ela somou 3% das intenções de voto nas pesquisas Ibope e Datafolha divulgadas às vésperas da eleição. Com o resultado final, a candidata ficou atrás de Cabo Daciolo (Patriotas) e Henrique Meirelles (MDB), candidatos pela primeira vez.

Entre os "nanicos" a porcentagem de votos foi a seguinte:

Cabo Daciolo (Patriotas), chegou a 1,26% dos votos; Henrique Meirelles (MDB) ficou com 1,2%, Marina Silva (Rede) com 1%, Álvaro Dias (Podemos) com 0,8%, Guilherme Boulos (Psol) com 0,58%, Vera Lúcia (PSTU), com 0,05%, José Maria Eymael (DC) com 0,04% e João Goulart Filho (PPL) com 0,03%.

O crescimento do Partido Novo na Câmara

Adriano Machado / Reuters
Congresso Nacional, em Brasília (DF).

O Novo tem cerca de 25 mil filiados. Em 2016, elegeu 4 vereadores. Nesta eleição, porém, o partido ganhou mais espaço entre deputados federais e estaduais. Nesta eleição, o partido disputou governos do Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Destes estados, chegou a uma disputa de 2º turno pelo governo de Minas Gerais, com Romeu Zema.

A maior vitória deste ano foi no poder Legislativo. Foram eleitos 11 deputados estaduais e 8 deputados federais do partido, e uma deputada distrital. O partido não elegeu nenhum representante para o Senado.

"Nosso desempenho foi sensacional. (...) Isso tudo só para lembrar: sem usar dinheiro público, sem fazer coligação, sem tempo de televisão e sem participar de nenhum debate", disse o candidato na noite de ontem, domingo (7), em uma live em suas redes sociais após o resultado do 1º turno.

Amoêdo também afirmou que os deputados do Novo no Congresso estão "lá para tirar privilégios, para tirar benefícios deles próprios e começar a fazer um Estado diferente, um Estado que vá nos representar, que vá ser menos intervencionista, que vai dar mais liberdade para as pessoas, que vai possibilitar que a gente possa empreender, cada um ter o próprio negócio, trabalhar e pôr o Brasil na rota do crescimento."

O candidato do Novo se manifestou sobre eventual apoio no 2º turno, disputado entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT).

"Certamente a gente já pode adiantar que não vai apoiar o PT. Mas a discussão se existirá ou não um apoio ao Bolsonaro nós ainda vamos decidir. O que a gente sempre busca no Novo é a coerência", disse em entrevista após o resultado.

O partido Novo foi formulado por Amoedo em 2010, mas só saiu do papel 5 anos mais tarde, em setembro de 2015, surfando em um momento de forte crise de representatividade na política e de projeção de crescimento da direita. Baseado em uma economia liberal, com privatização total, credibilidade do Estado, e distanciamento do jogo político, o partido Novo cresceu de forma expressiva de lá pra cá.

Veja abaixo a lista dos deputados federais e estaduais eleitos pelo Novo:

11 Deputados Estaduais + 1 Distrital:

  • 4 em SP - Daniel José / Heni Ozi Cukier / Sérgio Victor / Ricardo Mellao
  • 3 em MG - Laura Serrano / Bartô do Novo / Guilherme da Cunha
  • 2 no RJ - Chicão Bulhões / Alexandre Freitas
  • 2 no RS - Fábio Ostermann / Giuseppe Riesgo
  • 1 no DF - Julia Lucy

8 Deputados Federais:

  • 3 em SP - Vinicius Poit / Adriana Ventura / Alexis
  • 2 em MG - Tiago Mitraud / Lucas Gonzalez
  • 1 no RJ - Paulo Ganime
  • 1 no RS - Marcel Van Hattem
  • 1 em SC - Gilson Marques

De executivo de bancos aos palanques políticos

Rovena Rosa/Agência Brasil
Só em 2016, Amoêdo tirou do próprio bolso R$ 4,5 milhões para viabilizar o partido.

João Dionisio Filgueira Barreto Amoêdo nasceu no Rio de Janeiro, em 22 de outubro de 1962. Filho de Armando Amoêdo, médico, e de Maria Elisa Barreto, administradora de empresas, Amoêdo tem outras duas irmãs.

Antes do Novo, ele nunca teve atuação política ou partidária e fez a sua carreira como executivo de bancos. Foi diretor-executivo do Banco BBA Creditanstalt, vice-presidente do Unibanco e membro do conselho de administração do Banco Itaú BBA.

Amoêdo chamou atenção ao declarar uma fortuna de R$ 425 milhões ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), sendo mais da metade do patrimônio composta por aplicações em títulos de renda fixa. Tem também outros 13 imóveis e uma embarcação avaliada em mais de R$ 4 milhões.

Questionado sobre os altos valores, o candidato não mediu palavras:

"Trabalhei a vida inteira na iniciativa privada. A gente vê as pessoas entrarem na política e ficarem ricas. Eu estou fazendo o contrário: comecei do zero como trainee de um banco, trabalhei bastante e construí esse patrimônio", argumentou em um vídeo publicado em suas redes sociais.

Parte dessa fortuna foi parar na própria campanha. Só em 2016, Amoêdo tirou do próprio bolso R$ 4,5 milhões para viabilizar o partido.

Veja aqui o perfil e a trajetória do candidato publicado pelo HuffPost Brasil.