08/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 08/10/2018 00:00 -03

Adriana Cavalcanti, a administradora que não tem medo de mudar

Após enfrentar muitos preconceitos em 27 anos de carreira, Adriana espera ajudar a quebrar estereótipos: “Meu desejo é tentar colocar oportunidades iguais para todo mundo”

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Adriana Cavalcanti é a 215ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Durante três anos, Adriana Cavalcanti, 46 anos, administradora, pegava um voo na sexta feira em São Paulo com destino a Recife. Passava o fim de semana lá e retornava à capital paulista. Tudo para ficar perto da filha, hoje com 26 anos. Foram tempos difíceis, ela bem lembra. Só ela sabe. Mas encarou a rotina pesada das viagens. Na época, passava por uma separação difícil e a guarda da filha estava em disputa na justiça, então ela não pode levar a menina com ela quando resolveu sair de Recife. Mas mudou. Porque, apesar de tudo, Adriana não tem medo de mudar. "Ainda bem que tenho uma força de carcará, sou nordestina e segurei a onda e deu tudo certo, depois consegui trazer ela pra cá. E quando vim não tinha um puto. A decisão era sair já do casamento e sem nada mesmo. Não trouxe nem as minhas roupas. Não trouxe nada. Aquela expressão do 'sair com a roupa do corpo' para mim foi totalmente aplicado", lembra hoje com bom humor. Precisava mudar. E encarou.

O mesmo aconteceu recentemente, em um contexto totalmente diferente. Explica que depois de uma certa idade, as coisas entram em outra sintonia. Inicia-se uma fase de mudança em que o olhar se volta mais para transformações externas. Faz com as mãos um gesto de abertura e crescimento, como uma mímica de uma árvore. O que é curioso. Bem em sua frente, na sala de sua casa, uma foto enorme de uma árvore, cheia de galhos e ramificações. Parece que é disso que ela está falando. Mas a mensagem é que resolveu se dedicar a atividades que possam, de alguma forma, ajudar os outros. Mas deixa claro que não quer mudar o mundo não. "Mas se eu puder fazer alguém acreditar que o mundo pode mudar, para mim já vai ser de grande valia. Acho que posso contribuir com alguma coisa que seja, um pensamento de mudança, uma inspiração".

A mulher sempre acha que não está preparada. A gente sofre de síndrome de impostor e a gente precisa parar com isso, tem que arrancar do DNA.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Adriana resolveu se dedicar a atividades que possam, de alguma forma, ajudar os outros.

Após 27 anos dedicada a sua carreira empresarial, ela decidiu pedir demissão. Estava no cargo mais alto de sua trajetória. Era country manager da Air France (começou na empresa aos 18 anos fazendo no check in do aeroporto em Recife). Decidiu parar. Muito satisfeita, ela frisa. Mas resolveu abrir espaço para criar e investir em outras coisas. Hoje, atua como presidente do conselho de administração da WTM, uma feira de turismo. Conseguiu, dentro da sua área, aquela atuação que pode ajudar a transformar a vida de outras pessoas. E foi. Sem medo de mudar. Mais uma vez.

Adriana foi guiada por uma motivação ideológica após ver sua filha deixar o Brasil por causa de dificuldades no mercado de trabalho. "Não tinham uma abertura para pessoas com orientações sexuais diferentes, tinha que ser dentro do padrão para ter cargo interessante e ela não conseguia alcançar o objetivo dela. Sempre tinha uma desculpa. E surgiu a ideia de ir para a Holanda fazer um MBA lá. Ela fez, se saiu super bem e acabou contratada por lá".

Foi na Holanda também que a jovem conheceu a mulher e se casou. Um "casamento lindo", diz, orgulhosa Adriana. "O pai dela, pernambucano, tem as raízes dele e as crenças dele, não aceita e não foi ao casamento. Ela acabou entrando comigo e foi uma cerimônia muito linda. As duas estão muito felizes e estão construindo a vida delas lá porque aqui não seria possível". Diante desse cenário, Adriana começou a pensar de que forma poderia fazer algo para reduzir preconceitos e ampliar a diversidade no mercado de trabalho. "Lá ela teve oportunidade, as pessoas estavam mais preocupadas com o trabalho do que com a vida particular dela. Aqui, às vezes é frustrante e desestimulante porque tem gente cheio de energia para fazer coisas que acaba barrado nos estereótipos e nesses padrões ofensivos".

Ainda bem que tenho uma força de carcará, sou nordestina e segurei a onda.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Adriana foi guiada por uma motivação ideológica após ver sua filha deixar o Brasil por causa de dificuldades no mercado de trabalho.

Foi quando surgiu a oportunidade de atuar no conselho de administração. "O conselho de administração é um desses mecanismos [de mudança] e ele ajuda a criar uma lisura no processo de contas, no processo financeiro para impedir situações de corrupção e trabalha também com a perenidade daquela empresa. Uma das funções é trabalhar estratégia e hoje não tem como fugir da questão da diversidade. A sociedade está aí e somos compostos por um monte de pessoas, essa é nossa sociedade e temos que entender como vamos trabalhar isso e tirar da diversidade o melhor possível". Uniu várias ramificações de sua vida e suas vontade aí. "Meu desejo é tentar colocar oportunidades iguais para todo mundo".

E essa vontade não tem relação apenas com a história da sua filha, mas tem também tudo a ver com a sua trajetória. Nascida no Recife, não fez uma grande faculdade (um preconceito que ainda vê dentro das empresas na hora do recrutamento) e começou a trabalhar aos 18 anos no ckeck in da Air France nos turnos da madrugada e dos finais de semana. "Lá fui eu trabalhar de madrugada de 5ª a domingo. Chegava em casa 7h e tinha que estar às 8h no colégio. Estudava até umas 13h e ia para casa dormir. E assim foi. Eu trabalhava no check in. Era tudo no aeroporto, com selinho, colava no cartão de embarque, era tudo assim, bem raiz".

Não tinham uma abertura para pessoas com orientações sexuais diferentes, tinha que ser dentro do padrão para ter cargo interessante. E [minha filha] não conseguia alcançar o objetivo dela.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"A sociedade está aí e somos compostos por um monte de pessoas, essa é nossa sociedade e temos que entender como vamos trabalhar isso e tirar da diversidade o melhor possível"

E quando a Air France fechou em sua cidade e houve a oportunidade de mudar para São Paulo, ela estava em um processo de separação difícil e com a filha pequena. Mas viu uma oportunidade de refazer a vida e enfrentou todas as dificuldades para isso. "Sofri muito preconceito. Me chamavam de 'baiana' e 'Paraíba' e aquelas brincadeiras... ouvi muita brincadeira de mau gosto, muita coisa". Mas foi dando seu jeito. No início, em São Paulo, atuava com vendas e sempre tinha que estar na rua. "Fiquei muito tempo sem carro e eu fazia as visita de ônibus, de tailleur, salto, tudo na pastinha e chegava esbaforida, de meia fina e suando! Eu chegava antes e entrava ou em banco ou loja com ar condicionado para dar aquela organizada. E sempre dava certo, chegava toda arrumadinha e fechava meus contratos [risos]".

E foi crescendo na empresa, mudando de função até que chegou ao cargo mais alto de liderança no Brasil – algo difícil de ocorrer já que as companhias de outros países costumam colocar profissionais também estrangeiros nesses cargos. Mas ela venceu mais essa estatística e se consolidou na função até ano passado, quando decidiu mudar de rumo. "Tenho orgulho da minha carreira, saí bem, contente, mas resolvi parar. Cheguei naquele momento da transformação, vi que precisava fazer alguma coisa, mudar, ainda estou com energia, então vamos lá. Respirei fundo, pedi demissão e estou feliz. Acho que todo mundo merece uma pausa na vida. E se forem conscientes melhor ainda". Foi o que ela pode fazer. E hoje se dedica, com muito ânimo e disposição, daqueles que só um novo projeto injeta nas pessoas, a essa nova função no conselho de administração. "E estou estudando justamente para me preparar. Mulher tem mais isso que a gente tem que desmistificar. A mulher sempre acha que não está preparada. A gente sofre de síndrome de impostor e a gente precisa parar com isso, tem que arrancar do DNA. A gente está pronta! E o que não souber fazer a gente vai aprender e vai fazer".

A sociedade está ai e somos compostos por um monte de pessoas, essa é nossa sociedade e temos que entender como vamos trabalhar isso e tirar da diversidade o melhor possível.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
E foi crescendo na empresa, mudando de função até que chegou ao cargo mais alto de liderança no Brasil.

No conselho, Adriana pode, entre outras coisas, ajudar a acolher melhor os funcionários e a pensar em estratégias para barrar comportamentos preconceituosos. "Uma das coisas é fazer uma mentoria reversa. As empresas chamam alguns representantes para falar com o conselho e a diretoria para saber o que está funcionando, se tem preconceito, como lidar, o que pode melhorar e fazem com vários grupos...pessoas trans, mulheres, negros, quem não fez faculdade grande. E essas empresas crescem muito em diversidade, satisfação das pessoas em trabalhar lá porque não adianta estar só no código de ética [que não tem preconceito] porque continua tendo brincadeirinha no banheiro, palavrinha mal colocada e se você tem consciência de que aquilo não é aceitável na empresa, isso é vivido de forma diferente."

Sofri muito preconceito. Me chamava da 'baiana' e 'paraíba' e aquelas brincadeiras... ouvi muita brincadeira de mau gosto, muita coisa.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Acho que todo mundo merece uma pausa na vida."

No futuro, ela realmente espera que as empresas possam refletir em seus quadros de funcionários o que é e sociedade. Um lugar diverso, formado por todo tipo de pessoa, vindo de diversos lugares e com suas contribuições a fazer. Pode parecer um tanto romântico. Talvez ela seja um pouco assim. Ou talvez seja apenas uma pessoa positiva. "Aquela história do beija flor no meio do incêndio, sabe? Não vou apagar o fogo, mas estou fazendo minha parte. E se eu puder inspirar outras pessoas a fazer a mesma coisa aí vamos ter uma corrente de mudança muito poderosa". As suas sementes ela plantou. Resta permanecer ali, firme, para dar base aos ramos e novos galhos que, com paciência, hão de surgir também.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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