POLÍTICA
06/10/2018 11:24 -03 | Atualizado 06/10/2018 12:10 -03

'Somos invadidos por medos e paranoias', afirma psicanalista Maria Homem sobre o voto em 2018

O ódio cego, ocasionado por um desamparo não elaborado, sustenta um desejo de destruição que não considera a situação do País.

A psicanalista Maria Homem analisa o contexto da campanha eleitoral de 2018 no Brasil.
Alf Ribeiro
A psicanalista Maria Homem analisa o contexto da campanha eleitoral de 2018 no Brasil.

Uma eleição pautada por medos, teorias conspiratórias e desilusão. Os votos dos brasileiros em 2018 parecem ser decididos mais a partir de uma validação de informações controversas, notícias (muitas vezes falsas) veiculadas em grupos no aplicativo de mensagens e opiniões inflamadas do que da discussão de projetos de governo e do acompanhamento do debate de ideias.

Como efeito, percebe-se agressividade na discordância, difamação em comentários e o fechamento em grupos de "nós" contra "eles". A polarização se apresenta com frequência nos discursos, e as nuances ora são ignoradas ou negligenciadas: 13 candidatos acabam se resumindo a 2 já no primeiro turno.

Para tentar a entender algumas das motivações do eleitorado, conversamos com a psicanalista Maria Homem, pesquisadora do Núcleo Diversitas da USP (Universidade de São Paulo), professora da FAAP, mestre em Psicanálise e Estética pela Universidade de Paris VIII e doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP.

Leia a íntegra da entrevista:

HuffPost Brasil: Podemos dizer que o desamparo, o desespero e o ódio estejam orientando os votos das eleições de 2018?

Maria Homem: Seria interessante que somente o desamparo, que nos constitui, orientasse nossos atos. Quando deixamos de elaborar este lugar de desamparo estrutural, que é próprio da condição humana, somos invadidos por medos e paranoias, que muitas vezes esbarram no imaginário. Por exemplo: o medo de um monstro sagrado chamado "comunismo" é algo para ser estudado, ainda mais em uma era em que a China opera um estilo bem particular de capitalismo e o Brasil do lulismo foi igualmente muito favorável, talvez em demasia, a setores do capital. E como consequência lógica, o medo e a paranoia passam a construir inimigos, como o PT, por exemplo, sobre o qual se deposita um desejo imenso de destruição. O partido a quem outrora entreguei minha confiança e agora me traiu deve morrer, deve ser destruído, deve ser massacrado. Mesmo que a custo de um regresso imenso em conquistas importantes da civilização. Não importa. Neste momento de ódio cego, o que preciso é que se destrua aquilo que me fez mal, e ao qual atribuo toda a responsabilidade pelas frustrações que circundam minha vida, e o caos pelo qual atravessa o País.

Qual o peso do voto hoje para o brasileiro e como você avalia os expressivos números de intenções de votos brancos e nulos detectados pelas pesquisas?

Talvez devamos operar com duas hipóteses, que não são excludentes: em parte as pessoas estão profundamente cansadas de terem sua confiança e seu interesse traídos, e respondem dizendo "não quero mais saber de nada deste universo que só me engana, onde todos roubam, onde não se faz nada, tal". Por outro lado, há um esvaziamento do espaço público clássico e da discussão propriamente política, no sentido de debater diretrizes e políticas públicas que seriam beneficiadoras da maioria, e pelas quais o coletivo deveria discutir as formas de pagamento. Parece que a confusão entre público e privado que as novas formas de comunicação engendram coloca o outrora cidadão numa posição de espectador e avaliador (like x dislike) das inúmeras e não-embasadas opiniões à sua volta. Ainda há muito para se pensar e estudar sobre as transformações profundas na esfera pública e política de nossas vidas. Não diria que caminhamos para algo necessariamente mais interessante.

O partido a quem outrora entreguei minha confiança e agora me traiu deve morrer, deve ser destruído, deve ser massacrado. Mesmo que a custo de um regresso imenso em conquistas importantes da civilização.

Em anos que não são de eleição, é comum vermos uma recusa do brasileiro de falar sobre política. Em que consiste a política e por que a vemos em situações extremas, tanto como algo que é rejeitado e tratado como distante, mas também como fonte de brigas inflamadas?

Como todo campo da vida, a política toca em aspectos reais e simbólicos. Reais, no sentido de trazer consequências absolutamente materiais para as vidas de muitas pessoas; e simbólicas no sentido de poderem significar várias coisas e carregar diversos valores. Assim, sobre polos da política (direita ou esquerda, candidato x ou y), projetamos coisas profundas e muitas vezes inconscientes de nós. Os conflitos e desavenças revelam-se de forma cristalina.

Terra plana, Nazismo de esquerda, ditadura militar que não existiu. O debate atual sobre política e sociedade já não é de documentação, projetos e argumentos, mas sim de opiniões e de teorias construídas em torno de ameaças. De que maneira isso ameaça a democracia e nosso convívio?

Os efeitos imaginários da comunicação via internet e a disseminação da fantasia (o que comumente se chama fake news) acabam por criar espaços de proteção contra a realidade, bolhas defensivas e falsas que encobrem o que efetivamente se vive e os mecanismos intrincados pelos quais os eventos se causam e se interconectam. Quanto menos compreendo a realidade, e mais complexa ela se revela para meu entendimento, mais eu ativo um mecanismo de defesa fantasmática que nega tudo aquilo que colocaria em xeque minha visão de mundo anterior. Prefiro nem saber e nem entender. Então, tudo isso que está acontecendo ou que me dizem que aconteceu, se servir para reiterar minha visão de mundo — independentemente de ter de fato acontecido ou não — me servirá de escudo para seguir minha batalha quixotesca contra os moinhos de vento que me farão herói e não deixarão meu mundo ser destruído.

Quanto menos compreendo a realidade, e mais complexa ela se revela para meu entendimento, mais eu ativo um mecanismo de defesa fantasmática que nega tudo aquilo que colocaria em xeque minha visão de mundo.

Você menciona que é necessário os brasileiros fazerem um luto da classe política confiável. Quais perdas esse luto processa e de que maneira podemos recuperar nossa imaginação política, no sentido de vislumbrar um futuro?

Essa a pergunta que todos gostaríamos de ver respondida, para quem sabe poder reconstruir o campo do político. Eu diria que não há como começar sem ser por uma educação política ampla, geral e irrestrita. Aulas de política nas escolas já. É absolutamente necessário entender minimamente o que é Estado e quais as camadas de organização da estrutura complexa que nos administra. É impossível viver sem se ater ao real. Vide as perguntas anteriores e se perceberá claramente a urgência do projeto.

De que maneira o brasileiro encara as relações de poder quando o assunto é política? Há identificação com os poderosos?

Todos temos nossos lados infantis, e os núcleos infantis que buscam proteção no mais forte e identificação com ele estão aí, pulsando de peito aberto, para todo mundo ver. Cada vez que me alinho a um discurso de força, revelo angelicalmente a fraqueza em que me encontro, e o pânico que habita meu peito.

Sobre polos da política, direita ou esquerda, candidato X ou Y, projetamos coisas profundas e muitas vezes inconscientes de nós. Os conflitos e desavenças revelam-se de forma cristalina.

Hoje presenciamos a prevalência das emoções em muitas das decisões que exigem racionalidade. Por outro lado, as questões emocionais dos seres humanos continuam sendo relegadas ao segundo plano, como se fossem um indício de fraqueza e de vulnerabilidade em um mundo que exige vitórias constantes. O que explica essa polarização?

Ha pelo menos 3 milênios estamos num embate entre Logos e Pathos. Logos como aspecto da razão, lógica, pensamento; pathos como emoção, afeto, aquilo que pode me afetar, e que, por outro lado, me move para fora (da etimologia de emoção, ex motion). A filosofia teve que nascer se opondo a Pathos e fazendo o elogio radical de Logos. Estamos assim de Platão a Kant. Mas digamos que, desde o século 19, de forma mais ou menos sistemática, estamos podendo entrar em contato com nosso universo subterrâneo, emocional, pulsional, que, afinal, é o que de mais profundo nos move. E infelizmente move, de forma não tão consciente, nosso país.

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