07/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 07/10/2018 00:00 -03

Débora Câmara, a nutricionista que defende alimentação como autocuidado

Nutricionista soteropolitana acredita que comer não é apenas alimentar-se: "Não é só comida. É como a gente conversa com a gente", conta em entrevista ao HuffPost Brasil.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Debora Câmara é a 214ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Quando Débora Câmara, de 26 anos, começa a falar sobre seu amor à natureza, é notório o modo peculiar com que lida com sua profissão: ela vê a nutrição como uma forma de amar - inclusive e principalmente a si mesma -, e de estar em contato com a natureza, celebrando a própria vida. "Alimentação não é só comida, é respirar, é estar em contato com o sol. Toda a natureza nos alimenta. O planeta nos oferece tudo o que a gente precisa!", afirma em entrevista ao HuffPost Brasil, enquanto mostra os brotos de trigo que ela mesma plantou, e dos quais irá se alimentar em seguida.

A nutricionista nasceu em Pojuca, interior da Bahia. Mas já morou em Feira de Santana antes de se mudar definitivamente pra a capital, Salvador, com o objetivo de estudar Nutrição na Universidade Federal da Bahia (UFBA. Mas seu amor pela área vem de berço: quando criança, seu principal passatempo era observar outras pessoas cozinhando. Ela conta que alimentação, para ela, sempre significou autocuidado e acolhimento. "Na minha casa não havia dieta vegana ou vegetariana, nem se cultivava o que chamamos hoje de 'alimentação viva', mas toda refeição era uma oportunidade de união e encontro", lembra.

Eu gostava de ver os outros cozinharem, então passei a gostar de cozinhar também.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Além de observar, ela passou a preparar pratos como forma de experimentação desde cedo.

Além de observar, ela passou a preparar pratos como forma de experimentação desde cedo. "Eu gostava de ver os outros cozinharem, então passei a gostar de cozinhar também. Já comecei pelos pratos não tradicionais, porque inovar e experimentar é o que eu realmente gosto de fazer na cozinha". Priorizando pratos que conservem o que chama de "energia fluida", Débora defende uma alimentação sem sofrimento animal e sem agrotóxicos, preferencialmente de pequenas plantações, mas não é dada a radicalismos- enxerga a alimentação como um modo de interagir com o corpo e com os desejos, ouvindo-os e domesticando-os, e usando os ingredientes que estão ao nosso alcance.

Ela diz que prescrever dietas não funciona a longo prazo, porque a alimentação é parte de nossa rotina e de nossos desejos e necessidades, e precisa se adequar a eles. "Cada pessoa tem uma vida, uma rotina, um corpo. Esses corpos precisam ser compreendidos, e não enquadrados", aponta. Débora opta por preparar para seus pacientes planos alimentares baseados em seus gostos pessoais, em sua cultura e nas necessidades de cada corpo, investigadas através da técnica da anamnese.

Em suas pesquisas sobre alimentação vegetariana e vegana, ela descobriu a alimentação viva, constituída de alimentos crus, germinados ou hidratados, e tida como uma maneira de aproveitarmos mais eficientemente os nutrientes oferecidos pelo planeta através dos alimentos. Além disso, a prática favorece quem deseja acompanhar o próprio processo auto-nutricional. "Quando você pode cultivar o seu próprio alimento, vê-lo crescer e germinar, você desenvolve outro tipo de relação com a sua nutrição: você conhece o que você está comendo. Não é difícil, mas é preciso paciência", afirma.

Fome não é só de comida, a gente tem fome de muitas coisas.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Débora está desenvolvendo um projeto no campo da alimentação viva para o mestrado no qual pretende ingressar em breve.

A paciência é, na verdade, a grande chave do minucioso trabalho de Débora: a atenção a si mesma, à natureza ao redor e à forma como o corpo reage aos alimentos que lhe são oferecidos é imprescindível para que se possa cuidar da alimentação com eficiência e sem dor. Ela se posiciona contra a demonização do que chama de "comer emocional". Explica que, às vezes, comemos para satisfazer outro desejo que não é a fome, mas que é também legítimo, e que, portanto, o comer emocional não é necessariamente ruim, desde que não se torne um hábito.

A nutrição da prática de Débora não é uma nutrição de regras e proibições, ao contrário, está situada no campo educacional. "As pessoas precisam aprender que preparar a própria comida não precisa ser trabalhoso, é uma rotina agradável e potencialmente prática", garante. Pensando em transmitir esses saberes a outras pessoas que desejam cuidar da própria nutrição em tempos de fast-food, ela é precursora de um curso de alimentação vegana e vegetariana no Museu de Arte da Bahia, que se propõe a não enquadrar alimentos nas categorias "saudáveis" e "não-saudáveis", mas explorar didaticamente nossa relação com a nutrição e com a natureza. O ponto é: descomplicar.

Quero transmitir a outras pessoas a importância de dar valor aos vegetais.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Para ela, a alimentação é parte de nossa rotina e de nossos desejos e necessidades.

Débora conta que o desejo de oferecer o curso partiu da percepção de que a nutrição estava, muitas vezes, associada puramente à estética, além de estar muito distante da realidade das pessoas de modo geral. "Não adianta só teorizar: cozinha se aprende fazendo, tocando. É isso que eu gosto de ensinar às pessoas", aponta. Para ela, a alimentação não está situada apenas no campo do corpo, mas nas trocas energéticas que fazemos com o planeta, de modo que cuidar da própria nutrição não é necessário apenas por estética, mas também por saúde, bem-estar e espiritualidade, para os que creem."Não tem nenhum problema em querer se alimentar bem por estética, a estética também é uma parte de nós, mas é preciso se perguntar: até onde você é capaz de ir para corresponder a um padrão estético?", questiona.

É possível curar a si mesmo apenas se alimentando.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil

Atualmente, Débora está desenvolvendo um projeto de pesquisa no campo da alimentação viva para o mestrado no qual pretende ingressar em breve. Suas pesquisas no campo da nutrição dão conta de associar diretamente a alimentação à regeneração de diversas funcionalidades do corpo humano, sobretudo do corpo feminino. "É preciso conhecer o que o planeta nos oferece pronto, em forma de cura. As raízes, por exemplo, nutrem o nosso útero. É possível curar a si mesmo apenas se alimentando", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Nathali Macedo

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.