MULHERES
06/10/2018 22:42 -03 | Atualizado 06/10/2018 22:45 -03

Associar #EleNão ao crescimento de Bolsonaro é reducionista, afirma Flávia Birolli

A relação entre o crescimento do apoio ao candidato do PSL ao efeito reverso do movimento de mulheres é equivocado, segundo a pesquisadora e cientista política da UnB.

Ueslei Marcelino / Reuters
O ex-capitão passou de 18% das intenções de voto das brasileiras em 26 de setembro para 24% na pesquisa de segunda-feira, 1 de outubro.

No último sábado (29), milhares de mulheres ocuparam as ruas de mais de 30 cidades brasileiras para ecoar a voz do movimento que já vinha se mobilizando nas redes sociais há algumas semanas: "ele não", elas diziam, em rejeição ao candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL). Mesmo após a mobilização contrária, o ex-capitão cresceu nas pesquisas de intenção de voto, inclusive entre o eleitorado feminino e a tese de que as manifestações causaram esse aumento ganhou força ao longo da semana. Mas essa relação, na visão da cientista política e professora da Universidade de Brasília Flávia Biroli, é equivocada.

A quantidade de pessoas que participaram dos protestos no último sábado é incerta. A Polícia Militar não divulgou a estimativa oficial de público nas principais cidades. A organização do evento no Rio de Janeiro estimou a presença de 50 mil pessoas na Cinelândia no início da concentração da passeata no último sábado. Em São Paulo, a estimativa das organizadoras era de que 500 mil pessoas tinham participado do ato no Largo da Batata.

O que houve foi uma frustração com o fato de que essas manifestações massivas contra ele não tenham conseguido reduzir a curva de crescimento nas pesquisas de intenção de voto.Flávia Birolli, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Mesmo sem os números oficiais, o movimento #EleNão de 29 de setembro foi considerado a maior manifestação liderada por mulheres da história do País. "A gente pode dizer com bastante tranquilidade que as mulheres lideraram uma grande manifestação em defesa da democracia. Não foi só uma manifestação contra um candidato", avalia Flávia.

Após os atos, a semana começou com a notícia de que as intenções de voto em Bolsonaro haviam crescido entre o eleitorado feminino. Sondagem divulgada pelo Ibope no dia 1º de outubro mostrava uma alta de 6 pontos percentuais neste grupo. O ex-capitão passou de 18% das intenções de voto das brasileiras em 26 de setembro para 24% na pesquisa de segunda-feira. Na terça-feira, 2 de outubro, o resultado foi confirmado pela pesquisa Datafolha. O candidato havia crescido de 21% para 27% entre as mulheres.

As pessoas que estão declarando voto no Bolsonaro parecem não ser sensíveis aos argumentos que estão sendo utilizados na campanha contra ele.Flávia Birolli, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Rapidamente começaram a se levantar hipóteses de que a "culpa" do avanço do ex-capitão nas pesquisas era das mulheres que foram às ruas se manifestar contra ele no sábado. Para a cientista política, no entanto, as relações de causalidade podem ser muito mais complexas. "O que houve foi uma frustração com o fato de que essas manifestações massivas contra ele não tenham conseguido reduzir a curva de crescimento nas pesquisas de intenção de voto", pondera. "E aí existe um elemento central. As pessoas que estão declarando voto no Bolsonaro parecem não ser sensíveis aos argumentos que estão sendo utilizados na campanha contra ele."

Para Flávia, o antipetismo é um fator fundamental nesse cenário e ele se cruza com a divisão de gênero presente nessa eleição. Ela afirma que, desde 2014, vem sendo estabelecida, por parte dos opositores, uma relação entre a agenda da igualdade de gênero e o PT. "A ideia de que feminismo e petismo caminham juntos. A ideia que existe uma pauta gay e feminista radical do PT. O que é muito curioso, porque da parte dos movimentos feministas e LGBT, a reclamação era justamente que o PT encampou cada vez menos essas pautas, porque aceitou todas as barreiras colocadas pela bancada religiosa. Mas esse argumento vem sendo construído desde aquela época", explica.

"Então por que aquelas imagens falsas sobre as manifestações de sábado pegaram tão forte nas redes sociais e no Whatsapp? Porque já havia algo sendo construído previamente", diz a professora da UnB. Ela se refere ao fato de que diversas imagens que não eram dos atos do movimento #EleNão se espalharam nas redes - como as fotos de mulheres destruindo imagens sacras em protesto durante a Marcha das Vadias em 2013, no Rio - e acabaram sendo usadas para endossar o discurso moralista de que as mulheres que foram às ruas no último sábado "não eram de família".

Esse discurso ganhou força no Whatsapp, onde eleitores de Bolsonaro têm engajamento expressivo. Segundo o Datafolha, a taxa dos que pretendem votar no ex-capitão e que compartilham conteúdo político pelo aplicativo de mensagens instantâneas é o dobro da verificada entre os eleitores de Fernando Haddad (40% contra 22%, respectivamente). E é aí, neste contexto, em que se proliferam as notícias falsas com mais rapidez. Também pesou, na avaliação da cientista política, o apoio de líderes evangélicos à campanha do Bolsonaro nos últimos dias. "Recebi informações de falas nos cultos das igrejas no Distrito Federal que reverberam o que já estava na internet sobre a manifestação de sábado. Toda essa ideia de que não são 'mulheres de família'", comenta.

"Depois que ficou claro que as mulheres compunham uma voz pública contra a candidatura do Bolsonaro, houve uma utilização da campanha juntando as duas coisas de novo, o antipetismo e o feminismo", explica a pesquisadora. "Isso teve o efeito de produzir uma barreira, para que os argumentos das mulheres que estavam na rua no Brasil inteiro não chegassem a mulheres que já estão predispostas ao antipetismo, ao antifeminismo."

Eu não acredito que a gente possa dizer que todas aquelas milhares de mulheres fazem parte, por exemplo, de movimentos feministas.Flávia Birolli, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Levantamento realizado pelo Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação da USP (Universidade de São Paulo), em São Paulo, mostrou que há certa limitação no alcance da mobilização contra o parlamentar. De acordo com a pesquisa, a maioria dos manifestantes presentes no Largo da Batata no último sábado eram mulheres (62%), entre 18 e 34 anos (58%) e brancas (62%). Também foram observados elevado nível de escolaridade (86% com Ensino Superior) e renda, que se concentrou na faixa de 3 a 10 salários mínimos. Foi a manifestação em que esses dois últimos indicadores atingiram níveis mais altos entre todas medições em protestos feitas pelos pesquisadores desde 2015.

O desrespeito aos direitos humanos (50%) e às mulheres (29%) foram as motivações determinantes para os participantes da manifestação. Quanto à orientação política, 80% se declararam como de esquerda. Já 89% disseram ser feministas. Para Flávia, porém, a realidade em São Paulo pode não ser a mesma das outras cidades do País em que houveram atos contra Bolsonaro. "Eu não acredito que a gente possa dizer que todas aquelas milhares de mulheres fazem parte, por exemplo, de movimentos feministas. Não me parece que seja isso. São mulheres que foram sendo ativadas, porque se identificaram com uma agenda que pode ser definida como de esquerda, mas que é sobretudo uma agenda de direitos fundamentais", aponta.

Vale lembrar que mesmo com o crescimento, o candidato continua tendo a maior rejeição entre as mulheres. Segundo pesquisa Datafolha, divulgada recentemente, metade do eleitorado feminino disse que não vota em Jair Bolsonaro de jeito nenhum. A rejeição do segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto, o candidato Fernando Haddad (PT), é de 35% entre as brasileiras.

Novos atos pelo Brasil

NELSON ALMEIDA via Getty Images
Manifestantes ocupam Avenida Paulista, em São Paulo, no sábado (6), em segundo ato #EleNão, organizado por mulheres.

Na véspera das eleições, mais um ato contra Jair Bolsonaro aconteceu hoje em São Paulo, desta vez na Avenida Paulista. A concentração foi marcada para às 15h, no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (MASP) e seguiu em caminhada até o Anhangabaú, terminando no Teatro Municipal. Organização do protesto estimam que 20 mil pessoas compareceram ao ato; Polícia Militar não divulgou números oficiais. O evento no Facebook tinha mais de 40 mil confirmados e 170 mil interessados. A manifestação foi organizada coletivamente por mulheres de diversas orientações políticas. Algumas delas, estiveram na mobilização do primeiro ato.

O coletivo responsável pelo evento se manifestou sobre as acusações de que o ato das mulheres no último sábado foi responsável pelo crescimento de Bolsonaro nas pesquisas e repudiou o que chamou de "tentativa de desqualificação" do que foi a "maior manifestação organizada por mulheres da história do Brasil". "Escolher culpabilizar a primavera feminista pela ascensão do fascismo é mais um expressão do machismo da sociedade brasileira", disseram as organizadoras.

No Rio de Janeiro, o grupo de mulheres que organizou o evento do dia 29 soltou uma nota nesta sexta-feira, informando que não há nenhuma manifestação convocada por elas após a do último sábado. "Identificamos alguns perfis "pró" Bolsonaro convocando um suposto ato "contra" Bolsonaro e nos preocupamos com a segurança das pessoas que desavisadamente possam participar. Estamos sim mobilizadas caso Bolsonaro dispute o segundo turno e nessa eventualidade faremos um segundo ato e divulgaremos mais informações na página oficial da organização", diz o comunicado.