05/10/2018 09:59 -03 | Atualizado 05/10/2018 12:11 -03

Tetê Purezempla, a palhaça musical que espalha graça por onde passa

Mineira encontrou no circo o palco para suas apresentações musicais e abordagens cômicas por onde passa. “Tem pessoas que não suportam ver a gente nesse lugar de poder e liberdade."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Tetê Purezempla é a 212ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

"Ei, povo", disse com seu fantoche ao pular de baixo da mesa da sala de aula, onde estava escondida. Tinha entre 8 e 9 anos. As crianças riram. Ela continuou, saindo um pouco do script e do roteiro combinado com os demais colegas para aquele teatro de fantoche da escola. "Foi a primeira vez que eu me lembro em que o riso do público me seduziu. Achei maravilhoso", lembra Tereza Gandra, a Tetê Purezempla, palhaça musical, 28 anos.

Nascida em Diamantina, interior de Minas Gerais, conta que sempre teve muito contato com a música e que toca flauta doce desde pequena - hoje toca muitos outros instrumentos além da flauta. Mas essa atividade de encenar também a encantou muito cedo e viu uma forma de, no palco, juntar seus gostos e habilidades. "Faz parte de minha vida desde criança e eu cantava em coral, comecei a solar e declamar poema e achei que queria ser atriz porque dava para fazer tudo que eu gostava ao mesmo tempo". Assim, partiu para estudar artes cênicas em Belo Horizonte. Era apenas o começo de suas andanças por aí.

Você só ri com o que você se identifica. Se não fez sentido pra você, você não ri e a palhaça tem essa habilidade de fazer o público se identificar com a falha, com o defeito.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Foi a primeira vez que eu me lembro em que o riso do público me seduziu. Achei maravilhoso."

Na faculdade, intensificou o contato com a palhaçaria, mas quando era adolescente já havia aprendido a andar de perna de pau, fazer alguns malabarismos e atuar como palhaça. Fez com os amigos uma apresentação circense para a feira de cultura do colégio e, após o evento, o grupo, animado, partiu para um dos dois semáforos da cidade para ganhar mais um dinheiro com umas apresentações de rua. Com o movimento meio em baixa, foram parar na praça dos bares da cidade, cheia. Faziam uma pirâmide humana quando algo não saiu bem como o planejado. "Minha amiga do alto da pirâmide desequilibrou e na queda puxou o guarda-sol que ficava em cima das mesas e caiu tudo, comida, bebidas e todo mundo saiu correndo, ficou só eu ali. Fiquei paralisada, ri, aceitei aquela situação, agradeci e sai". Já estava ensaiando para seus próximos atos.

Queria viajar para ter experiência de vida porque é isso que faz a gente interessante como artista, a vida.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Quando era adolescente já havia aprendido a andar de perna de pau, fazer alguns malabarismos e atuar como palhaça.

Mas ainda levou um tempinho para encontrar seu lugar como palhaça e como artista de rua. Após a faculdade, entrou em um grupo de teatro e foi para a Itália trabalhar com eles. "Foi muito legal porque deu tudo errado", brinca. Segundo Tetê, ela não conseguia se encontrar muito na parte cênica do grupo. Mas se identificou com o segmento musical do trabalho – algo que era muito forte nesse projeto. Logo percebeu que a música, que estava um pouco de lado em sua vida desde a entrada no teatro, precisava voltar ao palco. E sua vontade era continuar na estrada. "Foi muito bom perceber que eu estava investindo em algo que não era minha essência. Voltei de lá depois de 3 meses e voltei rejeitada, sem saber quem eu era, o que estava fazendo e queria viajar para ter experiência de vida porque é isso que faz a gente interessante como artista, a vida. Hoje já vejo que não precisa viajar, mas naquele momento eu precisei".

Ao voltar para o Brasil, partiu para Olinda acompanhar um amigo que estava indo para lá fazer teatro de rua. Eles faziam cenas curtas em bares da cidade, passavam o chapéu e iam embora. "Vi que servia para trabalhar com teatro de rua, improviso, vi que dava certo, que eu encontrava poesia, conseguia fazer cena, colocar a música no meio, circo, conectei tudo".

Vi que servia para trabalhar com teatro de rua, improviso, vi que dava certo, que eu encontrava poesia, conseguia fazer cena, colocar a música no meio, circo, conectei tudo.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Tetê algum tempo no México, outro na Argentina e passou oito meses em um motorhome, sempre atuando e vivendo de sua arte.

Após essa temporada em Olinda, o grupo foi chamado para um sarau no Rio de Janeiro, e essa se tornou a nova casa de Tetê por alguns anos. Lá, especializou-se ainda mais em palhaçaria e durante uma visita a São Paulo se arriscou no palco mais livre de todos. A rua. "Fui no semáforo com o saxofone aqui em São Paulo. Fui como palhaça e me diverti muito e vi que funcionava e que podia ser um meio de vida, que podia ser uma vida inteira e não só meio, na verdade". Ainda morando no Rio de Janeiro, fez dessa atuação parte de seu trabalho cotidiano e ia para a rua se apresentar, sempre misturando música e a arte circense.

Assim seguiu seu caminho por outras estradas. Morou algum tempo no México, outro na Argentina e passou oito meses em um motorhome, sempre atuando e vivendo de sua arte. Ao fim dessa aventura – quando a casa/carro parou de funcionar – resolveu mudar para São Paulo, onde está desde fevereiro deste ano.

Aqui, faz um pouco de várias coisas. Está na fanfarra Cumbia Calavera, além de atuar com a ONG Palhaços sem Fronteiras e fazer parte da banda do Sarau do Circo que acontece no Centro de Memória do Circo, toca de vez em quando na Charanga Mutante e participa de shows de varietés. Fora isso, fez sua estreia recentemente como diretora musical e se apresenta no metrô e nas ruas da cidade. "O bom da rua é que você pode ir para qualquer lugar e você se vira. No metrô faço música, mas minha abordagem é cômica. Gosto de fazer uma diferença na vida das pessoas, nem que seja um segundinho. Acredito no poder de transformação da arte. Converso muito, faço brincadeiras, vou por esse viés". No fim, passa o chapéu, gesto tão importante para os artistas de rua, mas não tão bem visto, na opinião de Tetê. "O público no Brasil não se entende como patrocinador da arte. São poucas as pessoas que frequentam teatro. É cinema e olhe lá. Então as pessoas veem o chapéu como esmola e eu explico que não é esmola, é uma cultura milenar e isso dá liberdade, o poder e o direito de investir no que você está gostando. E se não gostar, não é obrigado a pagar, essa é a magia da coisa".

É um embate mulher artista trabalhar na rua porque tem pessoas que não suportam ver a gente nesse lugar de poder e liberdade.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Acredito no poder de transformação da arte."

E na rua aprendeu ainda mais a lidar com o imprevisto. Isso faz parte de seu dia a dia e lida, ainda, com mais um desafio: é uma mulher nesse papel. "É um embate mulher artista trabalhar na rua porque tem pessoas que não suportam ver a gente nesse lugar de poder e liberdade. Tem situações de machismo muito fortes".

Quando começou suas apresentações, em 2013, fazia junto com um amigo e lembra que se sentia mais segura. Só com o tempo passou a se sentir tranquila para enfrentar carreira solo. "Aos poucos ganhei espaço e fui trabalhar sozinha, mas é sempre um limite. [O que me move] é que me fortaleço na minha arte, sei que o que eu faço, por mais que esteja em um lugar socialmente marginalizado, tem um valor incrível, é lindo e tem gente que vai saber apreciar e vai mudar a vida dessas pessoas, como muda a minha própria".

E parte da força que a fez encontrar seu espaço veio do circo. Tetê lembra que quando começou a estudar palhaçaria ela questionava o fato das mulheres nesses ambientes aparecerem, historicamente, sempre com pouca roupa. "Não por pudor, mas por questionar se tinha que ser sempre assim. E o que eu entendi vivenciando é que é além. É porque elas podiam e queriam. E a gente pode. É uma liberdade dentro de uma estrutura em que te mandam tampar. A mulher é porque ela quer, ela pode e ela se sente bem e é isso".

O público não se entende como patrocinador da arte, então as pessoas veem o chapéu como esmola e não é esmola, é uma cultura milenar e isso dá liberdade, o poder e o direito de investir no que você está gostando.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
E parte da força que a fez encontrar seu espaço veio do circo.

E foi na palhaçaria musical que Tetê encontrou a sua força. Essa atuação e relação com o circo foi justamente o que possibilitou que ela unisse de verdade todos os mundos que ama tanto: a música e o riso. "Você só ri com o que você se identifica. Se não fez sentido pra você, você não ri e a palhaça tem essa habilidade de fazer o público se identificar com a falha, com o defeito. Aceitar essa falha dá uma leveza que é maravilhosa". Claro, sabe que nem sempre todo mundo vai se identificar e rir. Mas já está preparada. "Quando não dá certo é muito difícil, mas por outro lado a gente não mata ninguém, né? Isso é bom, ninguém morreu porque eu errei". E sabe bem onde quer chegar com seu trabalho e sua arte. "Você fala de você, o trabalho da palhaçaria é esse, mas é tão sincero e profundo que você acaba falando do universal e é aí que as pessoas se identificam e daí que vem o riso. E quando está todo mundo rindo, com o coração aberto, entra a música. E aí o povo chora! É lindo. É bonito".

Missão cumprida. Já pode reverenciar o público e passar o chapéu.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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