POLÍTICA
06/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 06/10/2018 00:00 -03

Manuela D'Ávila: 'As mulheres brasileiras não darão nenhum passo atrás'

Em entrevista ao HuffPost Brasil, vice de Fernando Haddad diz que brasileiras foram às ruas contra um "tirano" pela defesa da democracia e que PT precisa vencer a eleição "para barrar o ódio".

Adriano Machado/Reuters

Manuela D'Ávila (PCdoB), candidata a vice-presidente na chapa de Fernando Haddad (PT), está otimista. "Nós não abrimos mão de vencer as eleições", diz. Pesquisas indicam que o ex-prefeito de São Paulo deve passar para o segundo turno contra Jair Bolsonaro (PSL), mas o temor de uma derrota no primeiro turno assombra a campanha petista.

Para Manuela, a divisão que esta eleição impôs à sociedade vai além da polarização entre esquerda e direita. "De um lado, a democracia. De outro lado, os tiranos", disse em entrevista ao HuffPost Brasil. "Quem quer acabar com a democracia e quem defende a tortura não está do nosso lado."

Aos 37 anos de idade e 14 anos de vida parlamentar, Manuela diz acreditar que as mulheres têm um papel essencial em 2018 e podem decidir a eleição. Mas não só.

Ela diz que o movimento #EleNão, que no dia 29 levou milhares às ruas do País contra Bolsonaro, representa "o que há de mais novo" na sociedade brasileira: a reação das mulheres à desigualdade de gênero. "Quem acha que é uma questão eleitoral não entendeu nada do que está acontecendo".

Neste sábado (6), que antecede o 1º turno das eleições, as mulheres prometem ir às ruas novamente em São Paulo. O segundo grande ato de "Mulheres Contra Bolsonaro" terá concentração no vão do Masp, na Avenida Paulista, a partir das 15h. Em outras capitais, como Salvador e Brasília, o protesto será realizado entre os dias 15 e 29 deste mês.

Nesta entrevista, Manuela reafirma ser a favor da descriminalização do aborto, mas ressalta que algumas mudanças dependem de mobilização popular para serem concretizadas.

A candidata também diz que, se eleitos, ela e Haddad formarão um governo com "os melhores quadros do Brasil", ainda que isso signifique se aliar àqueles que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff (PT). "A gente precisa encerrar esse ciclo de guerra política que começou com o golpe."

Leia os principais trechos da entrevista:

HuffPost Brasil: Quando foi lançada a 'chapa tripla' – Lula, Haddad e Manuela –, muita gente duvidou que você seria vice de fato. Você acreditava?

Manuela D'Ávila: Não é questão de acreditar. Sempre houve um acordo político, um pacto entre nós, e nunca existiu a hipótese de eu não ser vice.

Como foi costurada essa aliança?

Foi um debate político e programático. Minha candidatura [à Presidência, inicialmente] foi centrada desde o início em algumas questões: a ideia de construir um projeto de saída para a crise; a ideia de que é preciso combater a desigualdade – e que essas desigualdades se estruturam no Brasil a partir das questões de gênero e raça, por exemplo; e a necessidade que nós temos de vencer as eleições.

Eu sempre disse: nós não abrimos mão de vencer as eleições. Nós precisamos vencer a eleição para barrar o ódio, para barrar essa crise crescente que retira direitos das mulheres, dos trabalhadores. Então nós sempre colocamos a unidade no centro da nossa atuação política. Várias vezes eu disse que poderia não ser candidata para a unidade acontecer. Não só candidata a presidente, mas a vice também e o que quer que fosse.

Há sempre uma leitura de que os temas da mulher estão dentro de uma caixa onde está escrito 'mulher'. Para mim não existe uma única área do desenvolvimento do País que prescinda de nós, mulheres. Assim como não pode prescindir dos negros e das negras.

O mais importante para nós do PCdoB sempre foi unir forças para vencer as eleições. E nós estávamos certos, nós vamos vencer as eleições.

Paulo Whitaker/Reuters
Ao anunciar o aliança com o PT, o PCdoB de Manuela definiu que ela seria vice em qualquer hipótese.

O PCdoB incorporou propostas ao programa do PT?

Sim. Nós já tínhamos muitos pontos em comum, debatemos e fizemos ajustes. A gente tem uma relação muito antiga, nossa relação com o PT tem 30 anos, desde 1989 nós estamos juntos. É uma relação fluida, não é uma relação artificial de época de eleição. Sempre defendemos a unidade e conseguimos construí-la.

Dos temas que vocês levaram, o que você destacaria?

Tem uma parte expressiva com relação à indústria nacional, que a gente conseguiu tratar. E tem algo que não está escrito, que é o esforço que a gente fez para contextualizar a questão das mulheres em todas as áreas. Há sempre uma leitura de que os temas da mulher estão dentro de uma caixa onde está escrito 'mulher'. E para mim nunca foi assim, para mim não existe uma única área da retomada do desenvolvimento do País que prescinda de nós, mulheres. Assim como não pode prescindir dos negros e das negras.

Haddad é um homem parceiro dessas lutas. E ele tem uma qualidade grande, que é a capacidade de ouvir.

Nós vamos revogar a reforma trabalhista. Então vamos entender que é uma reforma que pune sobretudo as mulheres e sobretudo as mulheres negras. Nós também vamos revogar a Emenda Constitucional 95 [teto de gastos]. Quem são os principais punidos pelo fim dos investimentos públicos no Brasil? Alguma mulher pode dizer que existe investimento público suficiente em creche?

É um olhar que a gente tentou imprimir na etapa anterior, na minha pré-candidatura, e o Haddad é um homem parceiro dessas lutas. E ele tem uma qualidade grande, que é a capacidade de ouvir e a tranquilidade de se posicionar.

Essa visão não é nova, mas soa como nova. Nós reconhecemos o papel central das mulheres e sabemos que a desigualdade as atinge em diversos sentidos, mas isso deve soar como novidade para o Congresso. Como vocês pretendem dialogar com o Congresso caso vençam a eleição, inclusive em temas como a legalização do aborto?

Quando a gente tem um programa e consegue pactuá-lo com a sociedade, a tendência do Congresso é levá-lo adiante. Então a gente precisa conseguir estabelecer esse grau de diálogo. Existem temas que são polêmicos. A sociedade brasileira terá vontade de enfrentá-los? O que a gente viu sábado nas ruas [protestos contra Bolsonaro] foi a vontade da sociedade de enfrentar um tema imprescindível, que é a questão democrática. É o maior dos temas. De um lado, a democracia. De outro lado, os tiranos.

O que a gente viu nas ruas [protestos contra Bolsonaro] foi a vontade da sociedade de enfrentar a questão democrática. De um lado, a democracia. De outro lado, os tiranos.

A sociedade vai querer discutir esses temas? Se a sociedade quiser discuti-los, o Congresso discutirá. Eu fui deputada federal por 8 anos, sou parlamentar há 14 anos, não há tema que a sociedade queira debater que o Congresso não debata. Tu citaste o tema do aborto, mas a sociedade terá que fazer sua parte.

A gente tem visto que a demanda pela legalização do aborto existe, as mulheres têm pedido esse debate, mas existe uma ofensiva do Congresso contra o tema.

O Congresso aprova e derrota matérias. Eu tenho compromisso com a democracia e vou sempre respeitar o que nos dizem as regras democráticas, independentemente de opinião ou vontade pessoal. E essa não é a única pauta polêmica que o Brasil tem que enfrentar.

Mas o governo de vocês vai defender a legalização do aborto?

Eu tenho uma opinião que vocês conhecem, eu defendo o aborto como tema de saúde pública. Não conversei com o Haddad a respeito da opinião dele, esta é a minha, mas nós dois sabemos que o governo terá que debater isso com o Congresso. O nosso compromisso é com a democracia, por isso que é uma relação tripartite.

Eu tenho uma opinião que vocês conhecem, eu defendo o aborto como tema de saúde pública. Não conversei com o Haddad a respeito da opinião dele, mas nós dois sabemos que o governo terá que debater isso com o Congresso.

Quais são os temas que governo, Congresso e população debaterão? Esse tema vai surgir? Vai surgir como tema de saúde pública, pela população, pelo Congresso? Dois anos atrás surgiu pelo Congresso de forma péssima, tentando criminalizar a interrupção da gravidez de mulheres vítimas de estupro. Quem barrou? As mulheres na rua, no 'Fora Cunha'. 'Lute como uma garota' é desse momento da história – e das ocupações nas escolas.

É muito fácil para um candidato dizer 'sou a favor disso', mas, na vida real, é preciso deixar um recado para a sociedade, para as mulheres e para os setores organizados: esse nível de mobilização que nós conquistamos no dia 29 é imprescindível para qualquer mudança significativa no Brasil. Não só para temas dessa natureza, há outras mudanças que, para ir adiante, precisam de gente.

É preciso deixar um recado para a sociedade, para as mulheres: esse nível de mobilização que nós conquistamos no dia 29 é imprescindível para qualquer mudança significativa no Brasil.

Será fácil revogar a reforma trabalhista e a Emenda Constitucional 95? Eu acredito muito que a gente vive uma etapa da política em que a mobilização social fará parte do nosso caminho daqui para a frente.

AFP/Getty Images
Haddad e Manuela em ato de campanha na Rocinha, no Rio de Janeiro.

Como você vê o movimento do dia 29 e a organização das mulheres a partir de agora?

Eu fui com a Laura, fomos na passeata aqui de São Paulo, tinha muita gente com filho, muita mulher com criança. Eu fiquei olhando muito para o passado e vi que as mulheres lutam há muitos anos, então eu vi o dia 29 como fruto de uma luta longa das mulheres. Para mim foi emocionante viver aquilo.

E acho também que foi uma prova significativa de que a luta das mulheres não é uma luta pelas mulheres. Porque essa é uma disputa que aconteceu: 'vocês ficam de mimimi, só querem saber das coisas de vocês'. Quem levou o tema mais importante da eleição para as ruas? As mulheres, os gays, os negros e as negras que estavam lá. Qual era o tema mais importante? A democracia.

As mulheres brasileiras não darão nenhum passo atrás. Quem acha que é uma questão eleitoral não entendeu nada. É muito mais profundo, muito mais bonito, é o que há de mais novo na sociedade brasileira: a reação das mulheres à desigualdade.

Eu tive vontade de ficar sentada olhando as pessoas passarem. Meninas muito novas, de 16, 17, 18 anos, que têm a exata noção de que existe gente que ameaça a nossa dignidade. Não é uma diferença entre esquerda e direita, é uma diferença entre quem defende a nossa existência e a nossa dignidade e quem não defende.

Para mim foi um dos dias mais bonitos que eu vivi na vida, de olhar para o passado e ver que isso cresceu. A gente fala em 'primavera das mulheres', e tem um momento da primavera em que a gente anda na rua e todas as árvores estão floridas. Foi tipo isso que aconteceu.

Essa mobilização pode causar impacto na eleição?

Acho que já causou. Não apenas na eleição, é uma coisa mais profunda. As mulheres brasileiras não darão nenhum passo atrás. Quem acha que é uma questão eleitoral não entendeu nada do que está acontecendo. É muito mais profundo, muito mais bonito, é o que há de mais novo na sociedade brasileira: a reação das mulheres à desigualdade que as mulheres vivem.

A turma do lado de lá acha que é algo eleitoral, mas eles não entenderam nada. Sabe o que é ouvir o que o Mourão [general Hamilton Mourão, vice de Bolsonaro] disse sobre nós? Vocês convivem com alguma mulher que não tem o registro do pai na certidão de nascimento? Eu sou uma mãe privilegiada, tenho um marido com quem divido 100%, tenho creche, tenho uma comunidade de amigos que cuidam da minha filha, tenho o meu partido, que me acolhe – se acostumou com isso e se educou para isso depois que eu impus, mas que me acolhe. Eu fico imaginando como é ser sozinha.

Foi divulgado que você pediu proteção à Polícia Federal. Está sofrendo ameaças?

O nosso foco é a denúncia de uma rede de fake news que fez uma ilação grave, disse que eu tenho envolvimento no atentado contra o Bolsonaro. Já foram reconhecidos os IPs dos computadores, e agora o caso está na fase de identificação dos responsáveis. Mas não foi um pedido de segurança, foi um pedido para que houvesse esse desdobramento, porque não é qualquer coisa dizer que eu articulei o atentado com o agressor.

Eu judicializo todas essas questões. Fotos da minha filha, por exemplo. Agora mesmo deve ter uns 400 indo para o Ministério Público por divulgar foto de menor, foto com montagem falsa. Tem que judicializar porque alguém paga para essas fake news terem esse alcance, e eu quero saber quem está pagando.

O Haddad se aproximou durante a campanha de alguns quadros do MDB, e por isso tem sido bastante criticado pela esquerda. Não é contraditório se aliar a partidos que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff?

As pessoas tentam dar uma opinião como se o Brasil fosse um país uniforme na sua diversidade, na sua representação política. O Brasil é gigantesco. A gente está falando, por exemplo, de um País que tem o Roberto Requião no Paraná [do MDB], uma das vozes mais firmes contra o impeachment. A gente está falando de Kátia Abreu [vice de Ciro Gomes e hoje no PDT], que até ontem era do MDB e que recebeu uma punição pela sua lealdade [com Dilma], pelos seus méritos, pelas suas qualidades.

O Haddad tem se manifestado de forma muito firme e tem dito que nós vamos governar com os melhores quadros do Brasil. Isso para mim é um excelente sinal, significa que as pessoas poderão contribuir para executar o programa que, no primeiro turno, uniu PCdoB, PT e PROS.

A gente precisa encerrar esse ciclo de guerra política que começou com o golpe. Nosso clima era de divergências civilizadas. Quem começa esse clima de guerra política que afunda a economia é a turma do golpe.

É dessa forma que a gente deve governar. A política deve ser feita a partir de pactos estabelecidos em cima de programas. Uma das questões que eu acho imprescindível para o novo ciclo do Brasil é resgatar a capacidade de convívio com a diferença – das diferenças democráticas, porque quem quer acabar com a democracia e quem defende tortura não está do nosso lado.

E só faz isso quem tem firmeza. Só escuta muito e respeita as diferenças quem é firme naquilo em que acredita. O Brasil precisa de alguém com essas características para retomar o crescimento econômico. A gente precisa encerrar esse ciclo de guerra política que começou com o golpe. Nosso clima era de divergências civilizadas. Quem começa esse clima de guerra política que afunda a economia e a vida do povo com desemprego recorde é a turma do golpe.

O Tasso Jereissati [senador e ex-presidente do PSDB] deu uma entrevista recentemente e disse: 'nós questionamos o resultado da eleição, fizemos isso só porque era contra o PT, essa não é a nossa tradição'. Não reconheceram o resultado das urnas e levaram o Brasil à crise. É essa a página que a gente precisa virar para começar a construir o diálogo. Isso significa ceder? Não, isso significa ouvir e, eventualmente, aglutinar.