POLÍTICA
05/10/2018 20:42 -03 | Atualizado 05/10/2018 20:43 -03

João Amoêdo: Como um milionário lidera a 'onda laranja' do liberalismo no Brasil

"Ele é um cara estoico e que tem uma capacidade muito grande de não se influenciar por aquilo que é externo", diz o vice do candidato do Novo.

Divulgação
João Amoêdo é fundador do partido Novo, que hoje conta com 20 mil filiados e 4 vereadores eleitos.

O bronzeado adquirido durante uma vida ativa de esportes na capital fluminense, a fala serena que não esconde o traquejado do sotaque e o sorriso sempre estampado no rosto durante os vídeos de campanha dão o tom da candidatura amena de João Amoêdo (Novo).

Responsável pela "onda laranja", que cresce principalmente nas redes sociais, Amoêdo está misturado entre os nanicos na corrida presidencial e chega a ter 3% das intenções de voto. Mas, se depender do partido, a ambição é muito maior que esta primeira tentativa ao Planalto.

"Eu sou suspeito e corro o risco de ser julgado ao afirmar que não há nada que se aproxime do Novo no ambiente político brasileiro. O que estamos fazendo é inédito e, se a gente der certo, certamente haverá um passo de internacionalização de nossas práticas para a América Latina", afirmou Christian Lohbauer, candidato a vice presidente, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Lohbauer é doutor em ciências políticas, mas fez carreira no setor privado trabalhando na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e em multinacionais como a Bayer. Insatisfeito com as políticas brasileiras que "travaram" o crescimento da gigante em solo nacional, Lohbauer decidiu aproximar-se da política como forma de "desmontar a incompetência administrativa" do Estado.

Foi durante um jantar na casa de um amigo em comum no Rio de Janeiro, em 2010, que Lohbauer encontrou a ferramenta que precisava (ou vice-versa): João Amoêdo.

"Eu não o conhecia. Naquele jantar havia apenas umas 15 pessoas e ele fez uma apresentação na sala do apartamento. No momento que ele acabou de falar eu pensei comigo mesmo: 'isso aqui eu não vou ver duas vezes na vida'. Eu falei: 'João, para onde você for eu vou, vou te ajudar nisso aí'", relembra o vice.

O projeto e a oratória de Amoêdo convenceram outras 180 pessoas, em sua maioria empresários e profissionais liberais, a apoiar a fundação de um partido focado no cidadão e não no Estado. O Novo, no entanto, só foi formalmente registrado na Justiça Eleitoral 5 anos depois, em setembro de 2015, surfando em um momento de forte crise de representatividade na política.

Paulo Whitaker / Reuters
Educado, focado e indiferente a influências externas: assim João Amoêdo é descrito por aliados.

O crescimento do partido Novo

Hoje, o Novo tem cerca de 20 mil filiados, elegeu 4 vereadores em 2016 e, este ano, disputa também os governos do Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, onde seu candidato arrancou nas últimas pesquisas. Também há dezenas de postulantes do Legislativo, todos capitaneados pelo líder Amoêdo.

"Depois de todos esses anos, o que se estabeleceu entre a gente foi uma relação de confiança. A gente não tem intimidade, de frequentar a casa um do outro ou de encontrar no fim de semana, sabe? O João é uma pessoa diferente. Ele é muito bem educado, muito focado, mas não é uma pessoa que você entra na vida dele assim do nada", compartilha Lohbauer. "Pelo menos comigo não aconteceu. Mas você é capaz de conviver intensamente com ele. E o que eu aprendi com isso? Para mim ele é um cara estoico e que tem uma capacidade muito grande de não se influenciar por aquilo que é externo."

O foco e a "cabeça de engenheiro", como descreve o vice, podem ser interpretados como um ar de arrogância. Mas, para Lohbauer, não passa de um misto de introspecção e timidez. Ainda, a figura do sujeito comum, polido, que não esbraveja nem perde o controle, com um certo nível de frieza conquistada com anos de experiência no mercado financeiro; tudo isso colabora para a construção de um perfil que é visto, por muitos, como o do "antipolítico".

Não é a primeira vez que um empresário brasileiro busca ocupar o espaço de outsider em meio à descrença por parte dos políticos tradicionais para levar uma eleição. Mas a comparação com o outro João, o Doria (PSDB), não agrada ao Novo.

"O Doria prestou um desserviço na inovação dos quadros. Ele entrou e ganhou no primeiro turno, levantado pela indignação das pessoas, inclusive a minha, mas em 3 meses ele mostrou que ele era um político até mesmo mais político do que os outros. E ele se vendia como gestor. Aqui, para diferenciar as coisas, a gente se vende como político, sim. Nós estamos concorrendo a um cargo político e faremos política", defende Christian Lohbauer.

Bloomberg/Getty Images
Amoêdo fez carreira em bancos: começou como trainee e chegou a vice-presidente e membro de conselho de administração.

Quem é João Amoêdo, afinal

João Dionisio Filgueira Barreto Amoêdo nasceu no Rio de Janeiro em 22 de outubro de 1962. Filho de Armando Amoêdo, médico, e de Maria Elisa Barreto, administradora de empresas, Amoêdo tem outras duas irmãs. Antes do Novo, ele nunca teve atuação política ou partidária e fez a sua carreira como executivo de bancos. Foi diretor-executivo do Banco BBA Creditanstalt, vice-presidente do Unibanco e membro do conselho de administração do Banco Itaú BBA.

Amoêdo chamou atenção ao declarar uma fortuna de R$ 425 milhões ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), sendo mais da metade do patrimônio composta por aplicações em títulos de renda fixa. Tem também outros 13 imóveis e uma embarcação avaliada em mais de R$ 4 milhões.

Questionado sobre os altos valores, o candidato considera "favorável" a sua discrepância patrimonial em relação aos outros candidatos: "Trabalhei a vida inteira na iniciativa privada. A gente vê as pessoas entrarem na política e ficarem ricas. Eu estou fazendo o contrário: comecei do zero como trainee de um banco, trabalhei bastante e construí esse patrimônio", argumentou em um vídeo publicado em suas redes sociais. Parte dessa fortuna é dedicada para patrocinar a campanha. Só em 2016, Amoêdo tirou do próprio bolso R$ 4,5 milhões para viabilizar o partido.

As palavras-chave do liberalismo de Amoêdo

Privatização total, credibilidade, trabalho, mérito e distanciamento do jogo político. Esse é o espelho da candidatura para os simpatizantes de Amoêdo. Cansados da polarização política e das "coligações suspeitas", o eleitorado do ex-executivo é visto como "espontâneo": "É formado por pessoas que realmente leram as propostas dele e se identificaram", conta uma jovem simpatizante que prefere não ser identificada ao HuffPost Brasil.

Para ela, a inexperiência na gestão pública não é um empecilho para que Amoêdo concorra ao maior cargo do Executivo. "A credibilidade que ele tem é de ter estado à frente da gestão de uma empresa privada há muito tempo e que é bem sucedida. E ele entrou por baixo, atingiu o posto dele por mérito. Quem consegue gerir uma empresa no Brasil consegue gerir qualquer coisa, qualquer país", acrescenta.

Apesar das pautas liberais no que tange à economia, Amoêdo não gosta de classificar o Novo como um partido de direita, pois entende que, no Brasil, o conceito está muito ligado à memória da ditadura militar.

O programa liberal, segundo o presidenciável, deve se dedicar "à maior autonomia do indivíduo", com a redução do tamanho do Estado, o incentivo ao empreendedorismo e o fim dos privilégios.

Quando se trata do campo dos costumes, o candidato não afasta a ideia de ser rotulado como "conservador". É favorável ao casamento gay e ao porte de armas, mas é contrário a temas como cotas raciais, discute se o 13º salário é realmente a melhor estratégia para o trabalhador e afirma que o "Estado não deve interferir se empresas pagam salários distintos para homens e mulheres".

Enquanto o caminho até o Palácio da Alvorada parece distante de já ser alcançado em 2018, Amoêdo tem como meta eleger no mínimo 35 deputados de seu partido e divulgar as ideias liberais pelo País.

Assim, prepara o terreno para quem sabe ter uma chance em 2022. "Estou em processo de ser um político", diz, convicto.