POLÍTICA
05/10/2018 14:42 -03 | Atualizado 05/10/2018 18:03 -03

Jair Bolsonaro: O ambicioso militar que escolheu seu lado da História há 50 anos e pode ser presidente do Brasil

Declarações extremistas construíram a imagem do candidato, que conseguiu seduzir o eleitorado mais conservador e hoje é líder isolado nas pesquisas.

Andre Coelho/Bloomberg/Getty Images
Capitão da reserva do Exército, Jair Bolsonaro (PSL) soube surfar na onda do antipetismo.

Jair Bolsonaro escolheu seu lado na História ainda jovem, aos 15 anos de idade. Em 1970, auge do período de maior repressão da ditadura, tropas do Exército chegaram à cidade de Eldorado (SP), onde ele vivia, em busca do líder guerrilheiro Carlos Lamarca. Foi ali que Bolsonaro se encantou pela primeira vez com os militares e, em 1977, formou-se pela Academia Militar das Agulhas Negras.

Se na adolescência ele era chamado de "palmito" por ser branco e alto, o preparo físico rendeu a Bolsonaro o apelido de "cavalão" no Exército. Foi dessa forma que seu filho Carlos Bolsonaro se referiu ao pai há poucos dias, ao dizer que o presidenciável do PSL se recuperava bem do ataque com faca que sofreu durante a campanha. "O velho é forte como um cavalo, não é à toa que seu apelido de Exército é cavalão!', escreveu no Twitter.

O apelido dá pistas, ainda, sobre o temperamento de Bolsonaro. São conhecidas as cenas em que, no exercício do mandato de deputado federal, chama uma jornalista de "idiota", "ignorante" e "analfabeta" e, em outra ocasião, xinga um repórter de "escroto" repetidas vezes. Sempre aos berros.

Cris Faga/NurPhoto via Getty Images
Ato de apoio a Bolsonaro na Avenida Paulista, em São Paulo, em setembro.

Também são famosas as ofensas do candidato a mulheres, gays e negros. As declarações preconceituosas, aliadas a um discurso duro na segurança pública, construíram a imagem de Bolsonaro e seduziram o eleitorado mais conservador, contaminado pelo clamor punitivista e cansado de "tudo isso que está aí", da violência à corrupção.

Atento aos sinais que se cristalizaram com o impeachment de Dilma Rousseff (PT), o candidato do PSL soube surfar na onda do antipetismo como nenhum outro adversário e hoje se vende como o único que terá condições de promover uma faxina em Brasília e devolver a moralidade ao País. O fato de não ser alvo da Operação Lava Jato também é ponto a favor de Bolsonaro, e o discurso anticorrupção colou.

Colou tanto que seus eleitores costumam minimizar ou desacreditar qualquer denúncia que ataque a ética do candidato. Notícias veiculadas na imprensa são tratadas como fake news, e a militância, inspirada no comportamento de Bolsonaro, passa a expor e difamar jornalistas.

Entre os casos já levantados pela imprensa está a contratação de uma funcionária fantasma em seu gabinete na Câmara; a prática de nepotismo por conta da contratação de sua atual mulher, Michelle Bolsonaro, por 1 ano e 2 meses no mesmo gabinete; ameaças de morte à ex-mulher Ana Cristina Valle, conforme relatos da própria ao Itamaraty; e recebimento de auxílio-moradia mesmo possuindo imóvel próprio em Brasília.

Responsável pela publicação das reportagens, a Folha de S.Paulo também revelou que o patrimônio de Bolsonaro e de seus filhos se multiplicou depois que a família entrou na política. Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro são filhos do primeiro casamento do candidato, com Rogéria Nantes Nunes Braga. O presidenciável também é pai de Renan, de seu relacionamento com Ana Cristina Valle; e de Laura, de apenas 7 anos.

Adriano Machado/Reuters
Bolsonaro chuta boneco pixuleco, que representa o ex-presidente Lula, em ato de campanha em Brasília.

Deslealdade de Bolsonaro no Exército

A trajetória de Bolsonaro no Exército também foi marcada por episódios controversos.

Documento sigiloso produzido em 1983 pelo Exército e obtido pelo jornal Folha de S.Paulo mostra que o então tenente era dono de "excessiva ambição", conforme a avaliação de seus superiores. "Necessita ser colocado em funções que exijam esforço e dedicação, a fim de reorientar sua carreira. Deu demonstrações de excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente", diz o documento.

A Folha também noticiou que Bolsonaro admitiu ter cometido atos de deslealdade para com seus superiores, que renderam a ele dois processos disciplinares.

Segundo reportagem publicada em 2017, Bolsonaro foi acusado de irregularidades e teve que responder a um Conselho de Justificação, formado por três coronéis. Os motivos: um artigo que Bolsonaro escreveu em 1986 para a revista Veja para pedir aumento salarial para a tropa, sem consultar seus superiores; e um plano supostamente desenhado por ele para explodir bombas em unidades militares do Rio de Janeiro, onde atuava.

Por ter escrito o artigo, Bolsonaro foi preso por 15 dias por ter "ferido a ética, gerando clima de inquietação na organização militar". Quanto às bombas, Bolsonaro sempre negou qualquer envolvimento nos planos, mas foi condenado por unanimidade pelos coronéis. Em 1988, contudo, foi absolvido pelo Superior Tribunal Militar e naquele mesmo ano entrou na política e ingressou na reserva do Exército.

Ueslei Marcelino/Reuters
Bolsonaro é recebido no aeroporto de Salvador, em maio. Candidato arrastou multidões por onde passou.

Deputado polêmico

Eleito vereador do Rio, Bolsonaro deixou o cargo em 1990 para disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados. Foi eleito e reeleito por mais 6 legislaturas e em 2018 completou 27 anos como deputado federal. Nesse período, viu aprovados apenas 2 projetos de sua autoria: um que prorrogava incentivos fiscais à indústria de informática e outro que autorizava o uso da chamada "pílula do câncer", medicamento que não teve eficácia comprovada.

A atuação apagada na discussão de projetos foi balanceada pelo comportamento polêmico, que garantiu holofotes a Bolsonaro. Em meio a uma série de declarações machistas, racistas e homofóbicas, a mais chocante talvez tenha sido sua homenagem ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra durante a votação do impeachment de Dilma.

"Pela família e inocência das crianças que o PT nunca respeitou, contra o comunismo, o Foro de São Paulo e em memória do coronel Brilhante Ustra, o meu voto é sim", disse o deputado.

Parte do eleitorado de Bolsonaro de fato se identifica com a defesa de regimes de exceção e da família tradicional. Outra parte, porém, cativada pelo inegável carisma do candidato, entende que tais declarações não passam de brincadeiras, que "ele não pensa assim de verdade" – como revelou um estudo divulgado neste ano.

Com carisma e uma capacidade de arrastar multidões, quem acompanha os atos de campanha de Bolsonaro não consegue fugir de uma comparação à mobilização gerada em torno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Para o bem e para o mal, ambos mostram que são capazes de atrair paixões. Muitas vezes cegas.